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Parte 2: O golpe

Parte 2: O golpe
Parte 2: O golpe

Recebo, com frequência, mensagens particulares de amigos, pelo Facebook, dizendo que não devo aceitar convites de um novo perfil deles. Isso para o caso do perfil de um deles ter sido clonado. Essas mensagens geralmente citam estatísticas que chegam a afirmar que 80% das contas de Facebook foram clonadas. Não tenho a menor ideia se esses dados são verdadeiros. Será que alguém consegue fazer uma estimativa real desse tipo de informação?

Acho impressionante como a criatividade humana não tem limites. Especialmente, quando tem que pensar em novos golpes. E é tudo tão bem montado que fica quase impossível suspeitar de que exista algo de errado.

Era um dia normal quando a mensagem chegou. Na minha caixa de entrada do Facebook, chegou uma mensagem naquele idioma lindo de um remetente desconhecido. Não era de nenhum dos meus contatos, como eles sempre me alertaram. Era de uma pessoa qualquer que me fazia um elogio sem sentido.

Acho que eu me senti mais atraída pelo idioma do que pela mensagem. Poderia ser uma chance de praticar meus conhecimentos e minha habilidade naquela nova língua que eu procurava aprender. Resolvi responder apenas para verificar se eu seria compreendida.

A resposta não tardou e, quando me dei conta, estava envolvida em um bate-papo com alguém muito agradável que dizia que morava em um país distante no hemisfério norte. De repente, eu estava tendo aulas do idioma sem custo algum; eu escrevia, era corrigida com delicadeza quando cometia um erro, lia o que era respondido e fui ficando viciada naquela troca constante de mensagens com um completo desconhecido.

É claro que ele me perguntava sobre minha vida e eu respondia às perguntas inocentes, certa de não fornecer nenhuma informação pessoal ou comprometedora. E ele também contava de sua própria vida, sobre o que fazia e coisas sobre seu passado. Era uma história triste, de orfandade ainda muito novo, de abandono pela esposa e das dificuldades de criar a filha sozinho. Quem não se comove?

Tudo me soava como trocas de confidências entre amigos, mesmo que fossem amigos distantes e que nunca tivessem se visto antes.

Mas parece que a gente tem aquela vozinha que nos diz que algo está errado… uma voz que sussurra no ouvido para que se tome cuidado, porque alguma coisa não se encaixa. O que exatamente? Impossível responder. Apenas aquela coisa esquisita, um sexto sentido, um frio no estômago, uma pulguinha atrás da orelha.

Quantas vezes olhei o perfil do Facebook? Incontáveis. Busquei o nome no Google, o local de trabalho, o telefone do trabalho. Dava até para olhar tudo pelo Street View do Google. A tecnologia é fantástica! E nos dá essa sensação de segurança que busca calar essa voz desconfortável que vem do subconsciente.

Afinal, que mal poderia haver se eu não tinha fornecido absolutamente nenhuma informação pessoal?

A amizade foi se fortalecendo. A intimidade foi crescendo; assim como o sentimento de confiança mútua. De repente, eu achava que o conhecia desde a infância e que havia um motivo para termos nos encontrado dessa forma inesperada. Ele tinha visto algum comentário meu em uma página que eu seguia e se apaixonou pela foto. Quem não deseja uma história dessa? Inesperada, romântica, quase de filme?

Mensagens que iam e vinham. Cobranças da presença constante para não precisar esperar pela resposta. E eu aprendendo meu idioma tão amado.

De repente, as coisas vão mudando um pouco. De repente, ele conta que vive uma dificuldade enorme. Está falido e vai perder tudo. Tem medo de perder a guarda da filha se não tiver onde morar. Sofreu um golpe enorme no trabalho. Todas as mercadorias de reposição da loja foram roubadas e não estavam no seguro. De repente, ele estava sendo perseguido e ameaçado de morte.

A gente sente aquela angústia enorme por ter um amigo em perigo. Ele estava longe, em perigo, podendo morrer a qualquer momento ou perder a filha, que ficaria órfã e seria adotada por outra família. O que fazer? Que dor incrível que eu sentia ao me ver impotente e sem conseguir ajudar de alguma forma.

Mas veio a solução. Mesmo à distância, eu poderia emprestar algum dinheiro. Ao menos para pagar as dívidas mais urgentes e para que ele conseguisse continuar com sua loja… talvez recomprar a mercadoria e se reerguer. É claro que seria possível!

Não que eu tivesse dinheiro sobrando, mas qualquer coisa poderia ajudar… qualquer coisa…

Mas ele não tinha conta em um banco convencional. Na verdade, ele não estava onde disse que morava. Estava viajando e tudo tinha acontecido em uma viagem para importar a mercadoria. Eu precisava ajudá-lo, porque estava em outro país, em outro continente, correndo risco de vida. Tinham roubado tudo! Passaporte, cartões e dinheiro. Estava sozinho e não tinha a quem recorrer. Apenas eu poderia ajudá-lo.

Sabe aquela vozinha? Aquela que sussurrava em meu ouvido? Pois é… ela passou a gritar e a colocar uma sirene de perigo tocando alto para que eu agisse com a razão. Resolvi dar atenção a essa voz que já tocava uma bateria em minha cabeça para que eu fugisse da encrenca.

Sem mais nem menos, bloqueei aquele perfil dos meus contatos. Sentia uma dor enorme no meu coração, com receio de que aquela história fosse verdadeira e eu tivesse deixado de atender alguém. Como é difícil imaginar que posso ter sido desconfiada sem razão. O mundo nos obriga a sermos desconfiados o tempo todo.

Não muito tempo depois, vi uma notícia sobre as gangues que dão golpes dessa forma. Pessoas que procuram homens ou mulheres e contam histórias tristes e desesperadas e pedem dinheiro para resolverem algum problema imediato.

É claro que fiquei mais tranquila quando vi a notícia. Eu seria vítima do golpe e tinha conseguido evitar.

Mas ficava aquela pergunta dentro de mim: todas aquelas mensagens e todas aquelas conversas… tudo tinha sido mentira e invenção? Nenhuma verdade naquelas frases que me tocavam de forma tão sensível? Quão cruéis as pessoas podem ser?

 

(Obs: essa é uma história fictícia, baseada em acontecimentos noticiados nos jornais. Ela dá sequência à Parte 1 e ainda será continuada)

 

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