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Pais e Filhos: como educar nos tempos atuais?

Pais e Filhos: como educar nos tempos atuais?
Pais e Filhos: como educar nos tempos atuais?

Já escrevi sobre meus filhos em outras oportunidades. Tenho dois meninos, atualmente com 15 e 12 anos. Tenho sobrinhos e atendo outras crianças no consultório. E o assunto que envolve a educação hoje em dia sempre me preocupa. O grande problema é que aquilo que é novo para as crianças atualmente, também é novo para os pais, para os professores, para os médicos… ou seja, não temos respostas para várias questões que nos afligem e temos, mais do que nunca, usar o bom senso para resolver as principais questões envolvendo educação e autonomia das crianças e adolescentes.

Eu recebi uma educação familiar dentro de moldes muito tradicionais. Eu era cobrada em vários aspectos, mas tinha liberdade em muitos outros. Tinha um bom desempenho escolar e meus pais acompanhavam minhas notas; mas nunca precisaram sentar comigo para fazer os deveres de casa ou para estudar ou ler um livro, a menos que eu solicitasse. Eu precisava sempre dizer onde estava ou para onde ia, mas podia me deslocar a pé sozinha para a casa de amigos, para a escola, para minhas atividades extra curriculares ou para fazer compras no centro da cidade. Meus pais sabiam que eu tinha responsabilidade e me davam autonomia para lidar com aquilo que eu queria fazer.

E deu tudo certo. Sempre correspondi à confiança que eles depositavam em mim. Terminei o colégio como uma das melhores alunas, passei nas 3 faculdades de medicina que prestei, pude escolher onde estudar, tive uma boa formação profissional e pessoal.

Atualmente, sou eu que preciso aprender a confiar nos meus filhos. Entretanto, a dificuldade maior não é confiar nos filhos, mas no mundo que os cerca. E agora? Tudo é tão diferente… muito mais violento, com mais tipos de drogas; a Internet invade a privacidade e os expõe a um mundo sem limites, sem barreiras, seja para o bem ou para o mal. Como lidar com tudo isso?

A primeira coisa que não pode faltar nesta relação com os filhos é DIÁLOGO. O diálogo sempre foi essencial, mas hoje em dia, é ainda mais importante. Afinal, nós também estamos aprendendo. Não temos todas as verdades nem as certezas. Temos que conversar sobre a vida deles, opinar, entender o que eles vêem na Internet, compreender do que eles gostam e porque eles gostam de determinada coisa. Temos que perceber que eles têm uma opinião individual desde muito cedo na vida e são capazes de nos dizer o motivo de cada escolha ou de cada decisão. Podemos conversar, orientar, sentar junto, participar do mundo deles; mas não podemos impor uma opinião nossa como se fosse uma verdade absoluta em um mundo repleto de incertezas.

A segunda coisa extremamente importante é que temos que confiar neles e acreditar na capacidade deles de discernimento (desde que o diálogo esteja presente). Vejo pais de crianças de 12 ou 13 anos que as tratam como se tivessem 5 anos, achando que devem impor sua autoridade e limitar o acesso ao mundo virtual ou a outras coisas semelhantes. Se estes jovens forem orientados, eles são capazes, sim, de entender os riscos, os cuidados que devem ter, as limitações de tempo ou do momento de acessarem o que gostam. Por que não podemos dar este voto de confiança e a autonomia que eles tanto querem?

Sinto os pais perdidos. Eles enchem os filhos de presentes, não sabem negar os pedidos e as solicitações dos filhos. E, em meio a esta dificuldade de diálogo e de dar autonomia aos filhos (que vão, pouco a pouco deixando de ser crianças), acabam tentando passar todas as responsabilidades da educação e das decisões mais importantes para a escola.

As escolas também estão aprendendo a lidar com estas crianças expostas a muito mais informação, que falam de tudo, desde nanotecnologia até astronomia; buscam mudar os currículos engessados pelas normas do MEC para que os alunos se interessem pelo conteúdo tanto quanto pelo YouTuber do momento. E para isso, tentam incorporar a tecnologia, os Tablets, informação virtual, vídeos e outras formas de ensino; coisas que nós não tínhamos quando éramos alunos.

E os pais, perdidos, desorientados, receosos dessas mudanças, questionam as novidades que as escolas propõem e ainda desejam que a escola assuma a responsabilidade de dar as orientações sobre sexo, sobre perigos da Internet, sobre organização do tempo de estudo… sobre tudo aquilo que os pais têm medo de discutir com os filhos, porque não sabem como enfrentá-los e rebater os argumentos que eles, certamente, vão utilizar.

Nós não podemos nos esconder. Não podemos nos abster da responsabilidade que nos cabe. O papel principal de educar as crianças e adolescentes é dos pais e não das escolas.

É a partir do suporte que recebem em casa que eles serão indivíduos mais seguros, decididos, capazes de fazer escolhas boas ao longo da vida. Nós somos o exemplo, o espelho para o qual os filhos vão olhar. Somos nós que eles vêem quando acordam e quando vão dormir. A escola complementa. Mas a tarefa principal cabe a nós. E não podemos ter medo. Nos momentos de insegurança, não é demérito dizer a eles que não temos certeza. Podemos ponderar com eles os prós e contras de uma decisão.

É assim que a vida é e é desta forma que se constrói pessoas mais fortes para enfrentar o mundo atual.

 

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2 Comments
  • Lari Reis disse:

    Que bacana esse post, Silvia.
    Ainda que eu não seja mãe e nem saiba se isso vai acontecer, penso muito nessa relação entre gerações. Estou no meio delas, por assim dizer e sei que, independente do lugar que a gente ocupa nessa linha, é um desafio necessário aprender a dialogar e encontrar caminhos. Juntos. É uma questão que me vem sendo apresentada por diversas pessoas, de diferentes áreas, que buscam compreender as novidades das relações humanas. Boa sorte para nós!

  • Carlos Moya disse:

    Olá Silvia, eu acho que há que perder a vergonha de falar com os filhos de temas que lhes interessam, do amor que faz tanto sofrimento na adolescência, dos hormônios que faísca em seus corpos e mudanças das comportamentais proovocan, e dúvidas que eles têm sobre sexo e drogas que causam efeitos na mente e do álcool, mas também da brevidade da vida e tamem que, por vezes, uma pessoa maior se sente temerosa sobre o futuro. Um abraço.

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