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Oscar 2016 “Brooklyn” – 2015

Oscar 2016 “Brooklyn” – 2015
Oscar 2016 “Brooklyn” – 2015

 

O filme foi indicado em 3 categorias:

  • Melhor Filme
  • Melhor Atriz: Saoirse Ronan
  • Melhor Roteiro Adaptado

Não acho que o filme tenha chance de ganhar, nem a atriz, embora eu tenha gostado muito do filme e da atuação da jovem Saoirse Ronan.

Troquei uma mensagem ontem com uma amiga e ela me disse que não gostou do filme e que ele nem deveria estar concorrendo, que ela não gostava de histórias de amor. Marcia, no caso desse filme, terei que discordar totalmente de você.

O filme não é sobre uma história de amor. O filme é sobre pertencer a algum lugar. Eu tive uma identificação imediata com a personagem Eilis. Ela é uma jovem irlandesa, católica, cujo pai tinha morrido e a irmã sustentava a casa, porque ela mesma não conseguia um emprego. Através do padre da paróquia, ela consegue um trabalho nos Estados Unidos e um lugar para ficar, em uma comunidade de irlandeses no Brooklyn em Nova York. E, por falta de uma opção melhor, ela deixa a mãe e a irmã e vai para a América em busca de uma chance.

Ela chega a uma cidade grande, sem conhecer ninguém, na década de 1950, para trabalhar como vendedora em uma loja de departamentos. E como ela sofre com as saudades de casa! A interpretação da Saoirse fez com que eu tivesse sido capaz de sentir esse vazio de não ter ninguém por perto… ninguém amado para abraçar, para pedir colo, para contar o que aconteceu durante o dia… o choro silencioso no quarto, escondendo do olhar alheio o sofrimento enorme que ninguém que não tenha passado por isso seria capaz de entender.

Depois de mais de um ano da vida no Brooklyn, quando ela passa a reconhecer aquele lugar como sua casa e já se permite algumas alegrias, um acontecimento trágico faz com que ela tenha que voltar temporariamente para a Irlanda e para sua cidade natal. E, estando lá, vivendo a vida da qual ela sentiu tanta falta, conseguindo um emprego, sendo tratada como nunca tinha sido e, apesar de tudo isso, apesar de ter nesse novo retorno tudo o que ela tanto desejou para não ter que partir, aquele lugar não era mais sua casa. Ela não cabia mais ali. Algo nela tinha mudado.

Como fazer a escolha do lugar onde nos sentimos em casa? Temos que considerar as pessoas que amamos, mas há tantas outras coisas… pequenas e grandes… detalhes que podem parecer insignificantes enquanto eles estão em nosso dia a dia, mas sua ausência pode se agigantar quando pensamos na possibilidade do definitivo.

Acho que eu me sinto da mesma forma quando penso na minha cidade natal, Presidente Prudente, onde mora minha família, e em São Paulo, onde vivo há 25 anos. Onde é meu lugar? Às vezes, sinto que não pertenço a nenhum dos dois… talvez eu seja estrangeira nas duas cidades… ou talvez pertença às duas…

Então, no caso desse filme, mais do que uma história de amor que ocupa com delicadeza o cenário, o maior drama é escolher onde viver, onde, de fato, ela se sente parte ativa do mundo e não apenas uma coadjuvante.

– Sílvia Souza

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4 Comments
  • Marcia Cogitare disse:

    Silvia sabia que vc iria gostar e discordar de minha opinião rs ( a amizade é a mesma rs)
    E certamente não é sobre amor o filme, embora eles tentem criar um conflito por este viés.
    Continuo achando o filme insosso, eu não consegui me importar com nenhum dos personagens que foram construídos de forma grosseira e cartunesca.

    Não entendi a razão de terem indicado este filme pra alguma categoria do Oscar, mas está é minha opinião pessoal apenas😜😘

    Hug

    • Que bom que você não ficou chateada comigo por eu discordar de você… 😀
      Eu não sei, talvez tenha me identificado mesmo por essa questão de escolher onde viver… por ter passado (e ainda passar) pelo sentimento de não saber bem qual era meu lugar, onde ficar, como pesar todos os aspectos para uma escolha acertada…
      Beijo grande!

  • Eduarda Naidel disse:

    AMEI esse filme. Me identifiquei horrores com a Ellis e concordo que a história de amor é secundária ali, talvez nem fosse necessária. Gosto muito da frase “o lar é onde o coração está” e pode ser em qualquer e em vários lugares. Cada pedacinho do mundo pode conter alguma coisa que nos faça sentir falta, vontade de voltar e/ou de ficar. Isso é tão relativo, depende da pessoa, da ocasião, das oportunidades… Senti as angústias, medos e emoções da Ellis. Achei que ela merecia o prêmio de melhor atriz e de filme, mas sabia que eram escolhas muito pessoais… Assim como o filme foi muito pessoal…

    • Senti o mesmo…
      Embora, no caso da premiação, achei merecido o prêmio da Brie Larson.
      Não sei se você morou fora de casa… mas acho que quem teve essa experiência de ter tido duas moradas (ou mais), sabe bem o que é deixar um pedacinho do coração em cada lugar… e nunca ser inteira de novo…

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