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Objetivos

Objetivos
Objetivos

Tenho a impressão que desde muito cedo tento programar minha vida. Sempre falei que faria Medicina. E, no vestibular, prestei apenas as universidades públicas do Estado de São Paulo, que na época eram: USP São Paulo, UNICAMP e Unesp Botucatu. Não achava justo pedir aos meus pais para me manterem estudando em uma faculdade particular e ainda arcar com minha estadia em outra cidade. Cumpri minha parte e estudei para me preparar para as escolas públicas. Eu não me dava folga. Organizava meu tempo. Estudava todos os dias, sem férias ou finais de semana. E, ao final, fui recompensada.

Entrei na faculdade que eu escolhi. Dediquei-me e fui uma das melhores alunas. Resolvi prestar residência em Clínica Médica e fiz uma única prova, no Hospital da minha própria faculdade. Estudei bastante e fui aprovada com boa colocação.

Meu objetivo seguinte era o de entrar na especialidade que eu tinha escolhido, Endocrinologia. Essa foi a etapa mais traumática, porque a seleção não dependia apenas de mim, do meu esforço e dos meus estudos. A seleção dependia de uma entrevista e as notas da entrevista não tinham nenhuma pontuação objetiva e bem definida. Tirei uma nota baixa na entrevista; os membros da banca tinham nitidamente selecionado os candidatos que eles queriam aprovar. Mas minhas notas nos estágios da residência e na prova escrita tinham sido tão boas, que acabei sendo aprovada para a especialidade no lugar de um dos médicos selecionados pela banca. Foi um dos momentos mais sofridos da minha vida, justamente porque eu tive que contar com fatores externos. Sou uma pessoa tímida, fechada, quieta, introvertida e uma entrevista não é a melhora forma de eu demonstrar minhas qualidades. Esse foi o momento em que quase caí; tropecei, desequilibrei-me, mas consegui me colocar de pé e seguir em frente.

Meus planos de vida? Terminar a residência e voltar para minha cidade natal.

Ao longo da residência, eu me casei. De repente, não eram apenas os meus planos que contavam. Precisei postergar minha programação, porque meu marido planejava fazer a Preceptoria e o Doutorado. E cheguei a um momento em que eu não via mais caminhos à minha frente. Eu me encontrava diante de portas fechadas e eu precisava arriscar uma delas, sem saber ao certo o que estaria me esperando. Foi a primeira vez em que eu não tinha um plano, um objetivo, um projeto.

A partir daquele momento, passei a seguir a correnteza que estava por trás da porta que eu abrira, sem saber aonde desaguaria e sem pedir para que o barco parasse; apenas fui. Fiz meu Doutorado; comecei em uma área e terminei em outra; simplesmente não sabia ao certo o que eu queria. Arrumei trabalhos em Clínicas e passei a ter uma renda própria. Viajávamos, aproveitávamos, vivíamos uma vida que eu não tinha escolhido exatamente; mas também não achava ruim.

Engravidei sem planejar. E sofri. Perdi o bebê espontaneamente. E sofri novamente. Achei que seria um bom momento para realmente ter um filho. E ele veio pouco depois. Passei a viver para ele, como se ele fosse o objetivo final da minha existência. Até que ele cresceu um pouquinho e eu vi que não! Os filhos não são o objetivo final da nossa existência!

Eles são incríveis! A continuidade do que somos. Nossa prioridade na vida. Mas não o objetivo! Eles são pessoas independentes, com vida própria, que podem escolher viver do outro lado do mundo, sem a obrigação de retribuir minha dedicação. Sei que eles retribuiriam sem questionar; mas não seria justo. Quero que eles trilhem o caminho que escolherem, para que encontrem suas próprias felicidade e realização.

De repente, antes mesmo do ninho vazio, eu olhava para mim e percebia o oco que a ausência de um objetivo claro deixava. E passei a buscar o propósito dessa fase da minha vida. O problema é que ainda não consigo vê-lo claramente. Mas ele vai, aos pouquinhos, delineando-se. Já me conheço melhor; sei várias coisas das quais não gosto e algumas poucas sem as quais não consigo viver. Tento me projetar no futuro e as imagens ainda são pouco nítidas. Mas surgem algumas cores, talvez o azul do céu e do mar.

A vida não está totalmente delineada para ninguém. Eu também errava quando achava que meus planos tinham que ser seguidos com exatidão. Mas tem que existir uma finalidade, uma meta, um destino, para que possamos nos projetar e dar sentido a essa existência.

 

 

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4 Comments
  • Mariel F. Fernandes disse:

    Li o artigo com o interesse que você me desperta. Tenho sempre a sensação, quando te leio, que há algo não dito, uma não expressão, um não dito. Não é um julgamento. É um “cadê ela que estava aqui?”. Nesse, no primeiro que li (acho que era uma crônica sobre filhos) e em alguns outros não tive esse sentimento. Acho que a vida é gradiência, uma dança, um acontecimento desajeitado e mágico. Essa tua crônica deixa isso claro e olha o tanto que te aconteceu. Você já se leu? Faça isso: você vai ficar encantada com você mesma.

    • Olá, Mariel!
      Há tanta coisa para melhorar, não é? Acabo não escrevendo com cuidado, não coloco muito trabalho… coloco diretamente o que se passa na minha cabeça. Tanto é que, muitas vezes, penso em escrever alguma coisa e, quando vejo, o texto ficou completamente diferente do que tinha pensado. Sei que esse não é o comportamento de um escritor de verdade… Mas acho que não sou uma escritora (nem nunca serei, embora sonhe muito com isso…); apenas gosto de tentar exprimir meus sentimentos, emoções e opiniões através de palavras. É um desafio…
      E há momentos em que me perco… não consigo dizer o que quero…
      Em outros me acho e desvendo algo que eu desconhecia…
      Meio maluco, não é?
      Um beijo grande, com todo meu carinho!
      (Obrigada por deixar seu oi aqui pra mim… você sabe o quanto te admiro!)

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