Amizade
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O retorno

O retorno
O retorno

Houve um dia em que os pais voltaram. Estavam todos cheios de saudades que precisavam ser esmagadas entre os abraços e beijos, que eram distribuídos sem limites.

Mas a mãe estava diferente. Ela carregava outra pessoa dentro dela. Sua barriga estava bem grande, quase a ponto de se romper. A menina ganharia mais uma irmã (ou um irmão… não sabia ainda). Mas em seu íntimo, ela preferia que fosse uma menina. Mais uma menina. Alguém que precisaria da sua proteção, à semelhança do que tinha feito com a outra irmã.

A mãe não quis esperar pelo momento certo. Fez uma cirurgia antes do tempo. Mas essas coisas a menina não entendia. Apenas sabia repetir o que escutava: a mãe foi fazer uma cesárea. Não sabia o que isso significava. A menina tinha completado 6 anos fazia apenas 12 dias.

Quando o irmão do pai chegou na casa da avó perguntando pela mãe da menina, ela soube responder toda orgulhosa: “minha mãe está no hospital… o bebê está nascendo… ela vai fazer uma cesárea”. Ela tinha aquele jeito sério, quase adulto, de quem teve que amadurecer cedo; tinha segurança no que falava. Mas mantinha os olhos grandes e assustados de criança.

Quando a mãe voltou para a casa da avó, trazida pelo pai, carregava no colo a irmã (era mesmo outra menina!). Era alguém tão pequeno, tão delicado e frágil… parecia uma boneca feita de pele, que sabia comer e fazer cocô. A menina aprendeu a dobrar a fralda de tecido para poder colocar na irmãzinha. Não usava os alfinetes; apenas as fitas colantes para não machucá-la. Podia segurar o bebê quando havia algum adulto por perto. Mas a menina se sentia tão maior que a irmã… era quase uma adulta nos seus 6 anos. Sabia que tinha que proteger a pequena; que não podia deixá-la cair; que não podia apertar a moleira.

A menina olhava aquela pessoinha e se sentia meio mãe. Ela amava a outra irmã como irmã mesmo, por mais que tenha assumido o papel de protegê-la na ausência dos pais. Mas com a pequena, era diferente. Era como se, de um momento para outro, a menina tivesse crescido e precisasse assumir suas novas funções. Ela sentiu a necessidade de ser forte, de ser ainda mais responsável.

Quem ela teria que ser afinal? A neta? A filha? A mãe? A irmã? Adulta ou criança? Ninguém lhe disse qual seria seu papel. E ela seguiu tentando ser um pouco de cada coisa, meio perdida no que era esperado dela.

– Sílvia Souza

 

 

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