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O que eu queria ser…

O que eu queria ser…
O que eu queria ser…

Imagino que quase todas as crianças passam por alguma fase na vida em que falam que querem ser médicos. Não todas. Mas a maioria. É uma profissão que encanta, porque cuida. E deve existir algo bom dentro de cada criança que faça despertar o desejo de cuidar dos outros.

No meu caso, essa fase não passou. Eu não sei se o desejo de cuidar permaneceu puro, como na infância. Ou se houve uma contaminação egoísta quando chegou a adolescência. Porque a Medicina era o curso mais concorrido. E não havia outra opção em que eu pudesse demonstrar meus conhecimentos como no vestibular para Medicina. Por mais que eu tente vasculhar lá dentro para entender minhas reais motivações, eu não saberia afirmar qual era o incentivo mais forte.

Eu sempre falei que queria ser médica. Desde que eu me entendo por pessoa e algum adulto perguntou o que eu gostaria de ser quando crescesse. Cheguei a brincar de professora, porque adorava escrever na lousa com o giz. Fingia que estava rezando uma missa (não sei se eu sabia que apenas homens podiam ser padres… acho que eu não imaginava ainda que haveria limitações nas minhas escolhas); mas não era pelo fato de ser muito ligada à religião… o que acontecia é que eu achava lindos os livrinhos de preces que minha mãe tinha de quando ela era moça.

Apesar de brincadeiras diferentes, o que eu queria mesmo era ser médica. Ficava deslumbrada nas minhas consultas com o Oftalmologista, pelo fato dele saber mexer em tantos equipamentos diferentes. Depois minha mãe precisou ser operada e passei a achar que o bom mesmo devia ser poder operar e curar doenças. Quando meu avô teve um infarto, passei a achar que a Cardiologia era a melhor especialidade, porque podia ajudar muitas pessoas. E assim passei pelo Pediatra, Ginecologista e inúmeros outros. Eu mudava a especialidade, mas nunca a profissão.

Quando eu terminava minha 4a. série (atual 5o. ano), as escolas públicas já não estavam muito boas. Os professores foram obrigados a trabalhar com dupla jornada e a maioria das professoras do ensino público procurou se aposentar. Todos os meus amigos iam para escolas particulares. Meu pai achava um absurdo ter que pagar por uma escola particular, especialmente considerando-se que o ensino público sempre tinha sido melhor (é até difícil de imaginar isso hoje em dia…).

Para convencer meu pai, prestei uma prova para a escola particular e tirei o primeiro lugar, o que me deu uma bolsa de estudos na escola para onde todos os meus amigos estavam mudando. Ele acabou aceitando. Estudei por 4 anos nessa escola sem nunca pagar a mensalidade, porque eu era sempre a melhor aluna da classe.

E fui, ano a ano, perseguindo meu sonho. Não tive sucesso apenas ao final do Ensino Médio. Construí meu caminho durante todos os meus anos de estudo. Nunca mudei meus planos. Eu precisava ter condições de chegar lá. Ainda não sabia o que era a USP ou a Unicamp. Conhecia apenas a Unesp, porque era onde meus pais trabalhavam. Não sabia qual era o melhor curso nem onde iria morar. Cheguei a considerar a possibilidade de cursar Medicina na Universidade de Coimbra, em Portugal. Eu via um leque de opções na minha frente. Mas meu foco era firme em me manter na trilha para realizar meu sonho.

As coisas não caem do céu. E qualquer coisa que venha muito fácil, tendemos a não valorizar. Nunca deixei de viver, brincar, namorar, viajar, ir a festas, passar tempo com a minha família. Minha vida foi sempre cheia de alegria, carinho, amor, convivência. Apenas tinha minha meta. Não era a meta dos meus pais. Era a minha. Desde cedo…

Desde a primeira vez em que algum adulto resolveu me perguntar o que eu queria ser quando crescesse…

– Sílvia Souza

 

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4 Comments
  • laynnecris disse:

    Que lindo! Deve ser maravilhoso quando os pais te dão todo este resguardo para poder “existir”. Hoje em dia vejo a falta dessa visão nas crianças, parece que falta esse objetivo, esse ideal, etc. Será que isso é interno da pessoa ou são referências, que mesmo não diretas nos guiam e nos influenciam.

    Obrigada por sempre compartilhar algo que agrega valores as nossas vidas!

    Abraços

    • Silvia Souza disse:

      Oi, Laynne!
      Obrigada por escrever algo tão carinhoso!
      Eu sempre acho que os exemplos são a coisa mais importante para as crianças e os adolescentes.
      😘

  • leandro disse:

    Linda história. Obrigado por compartilhar. A minha foi bem diferente. Abraço!

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