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O porta jóias

O porta jóias
O porta jóias

Arrumando sua bolsa, ela achou um minúsculo porta jóias. Lindo. Revestido a ouro. Com cristais coloridos. Quem teria colocado no meio das suas coisas? Seria um presente? Procurou o fecho, buscando desvendar o mistério. Não foi fácil achá-lo: um minúsculo botão escondido entre os cristais. Abriu com cuidado, para que não caísse nada do seu interior.

Ao primeiro olhar, não entendeu muito bem o que estava ali dentro. Não eram jóias. Era algo disforme. Talvez um tecido. Parecia macio. Colocou seus óculos de visão para perto. Aproximou os olhos. Tocou levemente com o indicador. Percebeu que, ao toque, o conteúdo da caixinha se mexeu e mudou a posição. Ela espremeu os olhos, esfregou-os com as mãos e espremeu-os novamente, tentando ganhar nitidez. Não acreditou no que viu.

No interior daquele pequeno porta jóias, estava ela própria, encolhida e toda dobrada em si mesma, amedrontada, sofrida, abandonada.

Era algo tão absurdo e impossível, que fez com que ela se esquecesse de tudo à sua volta. Parecia estar em um sonho, daqueles sonhos estranhos onde as coisas mais insólitas e inesperadas acontecem.

Ela olhava aquele pequeno ser, menor que seu dedo mínimo, imaginando se poderia ser um brinquedo de cordas, como aquelas bailarinas das caixinhas de música. Mas a sua miniatura começou a se mover, voluntariamente, e sentou-se na caixinha, abraçando as pernas próximas de seu corpo.

Ela teve a ideia de pegar uma lupa e olhou a pessoinha com maior atenção. Foi quando enxergou seus olhos e as duas se entreolharam. Nos segundos que durou aquele olhar, ela entendeu tudo. Viu sua existência se desenrolar diante de si, como se estivessem esticando um tapete que contivesse as cenas de sua vida.

E percebeu todas as vezes em que se encolheu, escondendo suas próprias qualidades, para não ofuscar outras pessoas; todas as vezes em que se diminuiu para não parecer prepotente, mesmo estando certa de que sua opinião era a correta. Lembrou-se das vezes em que se reduziu para não causar desconforto e confronto. Pensou nas vezes em que se retraiu e concordou com pessoas menos inteligentes e preparadas na tentativa de manter amizades que não valiam a pena. Recordou-se das inúmeras vezes em que se calou, quando deveria ter gritado e defendido seu ponto de vista; das vezes em que se escondeu atrás de pessoas que se agigantavam e impunham seu jeito de ser; das vezes em que se ocultou, deixando que outros assumissem o trabalho que ela tinha feito.

Eram tantas cenas, tantas recordações, sendo projetadas à sua frente em uma fração de segundos, que ela passou a entender aquela figura minúscula, diminuída e assustada.

Ela sempre tinha feito questão de passar despercebida, chamar o mínimo de atenção sobre si mesma. Era quieta. Quase invisível. Saia-se bem em tudo, mas sem se destacar. Sua voz era desconhecida de todas as pessoas que não pertencessem ao círculo restrito de amigos. Tentava esconder sua beleza atrás dos quilos a mais que carregava em seu corpo.

Buscava, com isso, amizades que nunca vieram, abraços apenas sonhados, olhares de afeto sincero que nunca existiram.

E ali estava ela, sozinha, assustada e tão diminuída a ponto de caber na palma da mão de uma criança.

Ela se sentou em uma cadeira e chorou. Chorou muito.

E sua miniatura retomou seu sono, esquecida, no interior do pequeno porta jóias.

– Sílvia Souza

 

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