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O inexplicável

O inexplicável
O inexplicável

Gosto de visitar museus, castelos e outros lugares históricos. Aquele palácio não estava completamente restaurado, o que provocava uma aura sobrenatural, acentuada pelo pouco movimento de turistas.

Percorria um longo corredor que dobrava bruscamente à esquerda. Assim que fiz a curva, a cena que vi paralisou-me.

A galeria estava vazia, à exceção de uma mulher parada de frente para uma das janelas.

A janela estava em um recuo da parece e eu conseguia vê-la apenas parcialmente. Ao fundo, a parede alaranjada, com múltiplas rachaduras e quebras na pintura. A metade inferior da parede era de granito de tom marrom. A luz que penetrava através do vidro causava um brilho especial à parede e à mulher imóvel.

A janela tinha uma estrutura de madeira, certamente muito antiga, e estava fechada com um trinco metálico do tipo que só poderia ser encontrado em antiquários.

A mulher jovem tinha cabelos loiros na altura dos ombros, lisos, mas discretamente desfeitos, como quem está cansada após um dia exaustivo e desgastante. Estava inteiramente vestida de azul, um azul escuro, como se tivesse decidido, intencionalmente, destacar a brancura da sua pele. Segurava um casaco no braço esquerdo, com os dedos tensos comprimindo o tecido; não parecia haver risco de o casaco cair e, ainda assim, ela o segurava com força. O outro braço pendia inerte ao lado do corpo.

Mas o que realmente despertou minha atenção e fez com que eu interrompesse meu caminhar naquela galeria, era a expressão atônita com que ela olhava para fora, através do vidro da janela. Embora não pudesse vê-la de frente, constatei que ela nem mesmo piscava. Sua boca permanecia entreaberta e o olhar fixo em algum ponto exterior, algo que a perturbava.

Fiquei extremamente curiosa e tive um desejo de correr para olhar o que a atormentava, mas não consegui. Eu estava paralisada pela cena. Minha criatividade navegava por várias histórias possíveis, dramáticas, sobrenaturais, algumas prováveis outras absolutamente irreais.

Os segundos em que fiquei estática a observar a cena pareceram horas, em vista de todas as possibilidades que construí. Quando a moça se movimentou, saí, eu também, da minha catarse. Ela veio caminhando na minha direção, passou por mim lentamente, sorriu com tranquilidade e virou à direita, em direção contrária à que eu percorria.

Andei com pressa até a janela e olhei para fora com enorme expectativa. Fiquei minutos tentando decifrar a paisagem exterior, a imaginar o que a moça tinha visto ali. Nesse momento, alguém entrou na galeria. Prendi a respiração, deixei de piscar e coloquei-me imóvel a olhar para aquilo que eu não sabia explicar.

– Sílvia Souza

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