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O ex da minha vida

O ex da minha vida
O ex da minha vida

Há algumas atividades que fazem parte da minha rotina para que eu treine meu francês. Uma delas é um jornal francês de 10 minutos de duração que eu escuto todos os dias. Outra é a leitura de duas revistas francesas que eu adoro: Votre Beauté e Marie Claire France.

Hoje, comecei a ler um dos artigos da Marie Claire que me chamou atenção: “O ex de nossa vida: aquele que não esqueceremos nunca”. A reportagem é muito interessante. O foco não é aquele homem inesquecível e que achamos que vamos amar pelo resto das nossas vidas. Não. O foco é o homem com quem construímos boa parte de nossas vidas, tivemos filhos, amamos imensamente, mas problemas da vida fizeram com que houvesse um rompimento. Mas esse homem continua sendo amado de outra forma; torna-se um amigo, continua parte da família. Segue conselheiro, torcendo por nossas vitórias (e nós pelas dele), aquele que será único no momento de saber o que estamos pensando sem que tenhamos que dizer uma única palavra.

Eu tenho o ex da minha vida. Ele entrou na minha vida em 1989, no primeiro ano da faculdade. Apaixonamo-nos logo no início. Passamos quase um ano juntos. Éramos muito novos e ele queria aproveitar a juventude. Separamo-nos. Ficamos sem nos falar por alguns anos. Em 1995, no início da Residência Médica, reaproximamo-nos e casamo-nos pouco mais de um ano mais tarde. Viajamos muito. Éramos iguais em muitas coisas e diferentes em várias outras. Ele esteve ao meu lado quando precisei e eu estive ao seu lado em todos os momentos cruciais. Tivemos dois meninos maravilhosos que deram sentido às nossas vidas. Mas problemas nos separaram.

É claro que um divórcio não é fácil. Não conheço, pessoalmente, nenhum casal que tenha rompido de forma amigável. Há muita mágoa envolvida. Mas o tempo acalma tudo. As tristezas vão sendo esquecidas e os bons momentos são lembrados com mais frequência. E nossa meta sempre foi criar ambientes saudáveis para nossos filhos. Privá-los de sofrimento, na medida do possível, era nossa prioridade. E acho que conseguimos.

Passaram-se cinco anos. Ele está casado. Eu tive um namorado. E ele continua sendo minha referência; não apenas para os assuntos envolvendo nossos filhos. Com ele, discuto os casos médicos quando preciso de um outro olhar. Quando ele tem uma conquista profissional, liga-me no mesmo momento para compartilhar. Ele sabe ler meus pensamentos, entende minhas tristezas, festeja as alegrias. É uma amizade para o resto da vida; é parte da minha família. E meus filhos sabem disso.

Os ganhos para os filhos são imensos. Eles sabem que concordamos na maioria dos pontos no que concerne educação, princípios, cuidados. Damos suporte um ao outro nos horários deles, nas coberturas das viagens, nas programações de férias. Moramos próximos e nossos filhos sabem que têm as duas casas e são essenciais nas duas.

A maior desvantagem? Fazer com que o(a) novo(a) parceiro(a) entenda essa situação, essa proximidade, sem ciúmes ou insegurança. Não é fácil. Mas não é o ideal? Pai e mãe, mesmo separados, convivendo em harmonia e apoiando-se mutuamente?

Quando pensei em escrever sobre esse tema, acabei encontrando várias reportagens a respeito em variados jornais de inúmeros países. Talvez seja uma tendência (espero). Uma forma madura de manter relacionamentos saudáveis nesse mundo com famílias cada vez mais complexas.

– Sílvia Souza

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10 Comments
  • Francine Camargo disse:

    Gosto de saber da sua história…sempre lições de vida.

    • Olá, Fran!
      Obrigada por passar por aqui…
      A vida da gente sempre gera muitas histórias boas e ruins para contar, não é? Uma coisa que tenho tentado fazer, embora nem sempre seja fácil, é extrair as coisas boas que podem acabar surgindo dos problemas e das dificuldades.
      Beijo grande!

  • Carlos Moya disse:

    E este lugar é uma bela oportunidade de viver cada dia por alguns momentos em Português. Muito Obrigado.

  • Marcia Cogitare disse:

    Que interessante colocar o ex como algo positivo, geralmente é o oposto que vemos nas revistas e o sobretudo com as pessoas.

    Hug

    • Oi, Márcia!
      Pois é… infelizmente é assim… e quem sofre são os filhos mais que qualquer outra pessoa. Acho bastante possível que os dois possam aprender a conviver em paz. No meu caso, sei que há uma coisa mais rara, porque permanece mesmo amizade e carinho.
      Beijo!

  • Silvia, parabéns por conseguir manter boa relação com seu ex-marido! Tenho uma enorme admiração por quem consegue isso, exatamente por tudo o que você comentou: é essencial para os filhos ver que apesar de o casamento ter acabado, há, além dos filhos, o vínculo de uma forte e verdadeira amizade, que há admiração entre as partes, que há concordância quanto ao que é vital para os filhos. Uma das irmãs de minha mãe é muito amiga do ex-marido e da atual dele e eles são muito amigos do marido da minha tia.
    Beijos e excelente semana!

    • Pode parecer uma coisa estranha (muita gente me diz isso)…
      Mas o fato é que deveria ser o contrário… A boa convivência e o respeito entre os dois deveria ser a regra…

  • Darlene Regina disse:

    Acredito que o bom relacionamento entre casais que romperam deveria ser a regra. Se há filhos, pelo bem deles e, se não há, pelo respeito que deveria pautar as relações. Além disso, acredito que muitas vezes as pessoas tinham um certo grau de amizade ou coleguismo antes de começar a namorar e casar, então, qual o problema em retomar o relacionamento do ponto em que estavam antes de se tornar um envolvimento romântico?

    • Darlene, eu concordo com você e gostaria de que fosse assim. Mas geralmente, quando um relacionamento acaba, existem muitas mágoas e, muitas vezes, os dois nem mesmo se reconhecem como aquela pessoa que se amou… Fala-se para agredir… Isso é frequente.
      Hoje em dia, eu e meu ex marido temos um relacionamento ótimo. Mas acho que isso aconteceu porque fomos nos esforçando, esperamos as mágoas se curarem, as cicatrizes fecharem, e porque nós dois colocamos os filhos acima de qualquer coisa.
      Obrigada por deixar sempre seus comentários!
      Beijo grande!

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