Filmes: uma paixão
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O contrato

O contrato
O contrato

Eu escrevo na tentativa de organizar meus pensamentos e minhas sensações. E passei a compartilhar o que escrevo na esperança de ajudar outras pessoas que passem por angústias semelhantes, para que percebam que não estão sozinhas no mundo.

No início, eu achava que vários questionamentos que eu tinha eram exclusivos e me sentia bastante solitária. Ao encontrar alguns escritores que descreviam exatamente os meus sentimentos, percebi que não era exclusiva. Ao contrário, muitas pessoas passavam pelas mesmas angústias, mesmo que não verbalizassem.

Não acho que eu tenha que expor todos os problemas que já tive na minha vida e todos os sofrimentos pelos quais passei. Mas o silêncio absoluto de algumas pessoas, calando todas as vozes interiores, soa para mim como um suicídio da alma, embora o corpo continue caminhando, o coração continue batendo e os pulmões continuem sendo preenchidos por ar.

Hoje, estou com um desconforto, quase como uma inquietação; uma turbulência interior. Acho muito difícil encontrar a palavra certa que descreva minhas emoções; a linguagem nem sempre consegue dizer o que a alma sente.

Eu queria compreender o contrato “CASAMENTO”. Faço minhas reflexões sobre esse tema há muito tempo. Mas esse assunto costuma ficar quietinho dentro de mim por longos períodos, até que ele desperte e volte a incomodar. Pode acordar por causa de um sonho, de uma frase, de uma história, de um livro. Não importa. O fato é que volta a perturbar porque eu não consigo entender.

Quando um casal assina o contrato, deseja viver junto até o fim da vida de um deles. O contrato é um investimento futuro, porque representa o que está por vir. Não há certeza no futuro. Não há certeza no minuto seguinte a esse em que meu coração bateu 80 vezes. Ele pode ou não continuar batendo no próximo. Então, esse é um contrato de risco. E o que é ainda pior, um contrato de risco em que as expectativas de cada um dos envolvidos nem sempre é explicitamente verbalizada.

O correto seria encarar esse contrato como algo comercial? Exemplo: os dois se casam e ficam comprometidos a um cuidar eternamente do outro, independente dos sentimentos, apenas pela segurança, tranquilidade e pelos filhos. É assim que deveria ser?

Porque, afinal de contas, não tem como prometer amor eterno. Cada um dos envolvidos no contrato muda, transforma-se em algo diferente ao longo do tempo, e o sentimento pode se modificar. Pode até haver um carinho eterno; talvez um amor que não seja, necessariamente, acompanhado de paixão. Na melhor das hipóteses, um amor que tenha paixões intermitentes ao longo dos anos de convivência. Mas o sentimento pode mesmo morrer; tornar-se uma amizade apenas. Acabar o desejo de sexo. E aí? O que é o correto? Ater-se ao contrato que foi assinado, esquecer-se de que ainda há muitos anos de vida pela frente e passar a procurar outras distrações que preencham o vazio das emoções, uma vez que a sucessão já foi garantida?

Eu nem mesmo sei justificar porque esse assunto me incomoda tanto. Eu tomei a decisão de mudar minha vida. Não achava justo ficar presa ao contrato. Pode ser que eu tenha questionamentos sobre minha decisão. Ou pode ser que eu simplesmente não tenha entendido o contrato direito e tenha achado que eu pudesse sair dele quando não fosse mais vantajoso, ou quando meus sentimentos pedissem. Talvez eu não tenha entendido que eu deveria ter silenciado minha voz interior, ter buscado hobbies ou qualquer outra coisa. Talvez eu devesse ter trancado todas as minhas angústias em um cofre inviolável, apenas para fazer valer o contrato. Afinal, o que mais importa? Apenas o contrato?

 

– Sílvia Souza

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16 Comments
  • MariaLDário disse:

    Gostei muito da sua reflexão e acho que é isso mesmo: o casamento é um contrato, uma sociedade, penso até mesmo em um ‘negócio’, necessário, entre partes que passam a ter uma vida material em comum.
    Talvez chegue o dia em que ele possa sofrer revisões – a cada 5 anos discute-se se as partes desejam mantê-lo ou alterá-lo conforme as suas necessidades e interesses pessoais, individuais.

    Desta feita, talvez o que falte ao contrato (frio e imparcial), hoje, é algo novo, um artigo ou cláusula que preveja uma ‘flexibilidade existencial’, respeitando-se a vontade de ‘um’ tanto quanto se respeita a vontade de ‘dois’. Dito de outra forma, que o contrato possa até permanecer em prol das garantias materiais, mas no âmbito do eu pessoal, particular, que ele preze mais pelo bem-estar individual e não só pelo bem-estar do casal*
    Será que estou sendo moderna demais?

    * Que, a partir do quinto ano de um contrato inicial, de um casamento, um casal, já com 2 filhos, possa continuar convivendo juntos, na mesma casa, dividindo as despesas e empreendendo como sócios, mas não necessariamente mantendo a união dos corpos.

    • Silvia Souza disse:

      Olá, Maria Lúcia!
      Obrigada por ler meu texto e por deixar seu comentário.
      Eu já pensei exatamente como você: rever o contrato de casamento em intervalos regulares.
      O grande problema é que, diferente de outros contratos, há sentimentos envolvidos, o que complica muito a situação.
      Se o mundo fosse composto apenas de pessoas de bom senso e que soubessem respeitar a vontade do outro… se não houvesse o sentimento de posse nos relacionamentos… talvez (e apenas talvez) conseguíssemos algo que pudesse ser pensado dessa forma, onde o contrato fosse negociado de forma independente dos sentimentos e do sexo.
      Mas estamos bem longe disso, não acha?
      Provavelmente, as colocações do meu texto e essa nossa discussão choquem as pessoas mais novas (embora eu não saiba a sua idade), que ainda têm a idealização do casamento.
      Uma boa semana!

  • Por que tornar legal o que é natural, ou seja, obrigatório o que é espontâneo?

    • Silvia Souza disse:

      Sabe o que eu acho pior, é o fato de haver uma cobrança da sociedade para que os casais se casem.
      Há gente demais lucrando com o cerimonial e fazendo com que o casal (especialmente as mulheres) acredite que isso é a coisa que eles mais querem na vida.
      É uma ilusão que dura tão pouco…

      E mais uma vez, obrigada por deixar seus comentários.
      Eu gosto muito da sua forma poética e sensível de escrever.

      Uma ótima semana!

  • Parabéns por sua coragem. Na sua profissão ser transparente é para poucas pessoas. Médicos também precisam de atenção, afinal, são seres humanos. Boa noite Silvia.

  • KAMBAMI disse:

    Vou falar aquilo que penso e que entendo não sei se estou correto, longe disso, mas é o que sou.
    Casamento, sim ele é uma escolha de parceria acima de tudo e essa parceria inclui direitos e deveres embasado muitas vezes na concepção social a qual vivemos. Ora então casar-se não significa a escolha de um casal e sim o comportamento que deverão ter ou mostrar a sociedade que lhes acerca? E onde fica o “humano” nessa história?
    Acredito eu que cada Ser é um universo e que o sentimento se expande de formas infinitas a cada situação e momento de nossas vidas.
    Penso que não podemos mutilar as oportunidades de um outro tipo de felicidade que podemos chamar de “felicidade individual do Ser” para aquela assinada em um contrato social chamado casamento e que segundo cada tipo de religião afirmar que do momento que se assina se abre mão dessa liberdade.
    Muitos vezes topo com casais que conheci e que eram o exemplo do amor perfeito, mas de repente após alguns anos já não o eram mais, e nisso inclui tudo sem hipocrisia, seja sexo, sonhos profissionais, amizades, escolhas de vidas, hábitos desenvolvidos e a falta de sensibilidade em estar apto a encarrar adversidades. Sim, adversidades.
    Quando casamos muitas vezes somos jovens cheios de hormônios a flor da pele, cheios de sonhos que podem ou não vir a serem concretizados, saúde que nunca pensamos nos deixar, corpo integro que nunca pensamos que possa a vir se mutilar ou sofrer a perda de algum movimento ou sentido.
    A bem da verdade, não em todos os casos, mas grande parte deles casamos ou com a princesa dos sonhos ou com o príncipe encantado.
    Normal não estou julgando isso, acho super saudável, afinal nosso DNA assim escolhe por leituras rápidas e somente com o convívio é que tanto ele como nós vamos percebendo as diferenças até então escondidas.
    Resumindo esse dilema que é grande demais para uma analise em blog diria que no meu entender a opção mais sincera com nós mesmos é o que já vem sendo feito por muitos casais, um novo acordo de amizade onde há o “destrato” do casamento sem no entanto haver o carinho, a amizade e o amor aos filhos do casal caso os tenham.
    É difícil, não quando conversado com muita calma e de preferencia junto a grandes amigos do casal e um profissional para dar um suporte em assuntos mais abrangentes.
    Partimos do princípio que com todo esse amor que transborda em todos nós, nascemos sós e partimos sós. Somos Universos independentes e apenas participamos muitas vezes de um sistema solar para obtemos um equilíbrio, mas diferente destes nada impede que saiamos de um para entrar em outro, afinal nossa matéria pertence ao Albedo 0.39, mas nosso espírito pertence ao Cosmos.
    Nos encontramos lá! 🙂

    • Silvia Souza disse:

      Bom dia!
      Obrigada por ler meu texto e por comentar de uma forma tão sincera, importante e complementar a tudo o que escrevi.
      É um assunto muito difícil.
      O texto não reflete minha escolha pessoal, que foi muito pensada, conversada e decidida de forma madura.
      Mas vejo muitas pessoas presas ao contrato, com vidas infelizes, pelo receio de mudar ou de desfazer esse contrato.
      O ideal é que todos tivessem bom senso e capacidade de dialogar sem trazer todas as mágoas para essas discussões.
      Um abraço e uma ótima semana!

    • Kambami, gostei do termo, ‘destrato’, e o que ele significa. Acho que foi isso o que eu tentei propor acima. Boa-noite.

  • Sentimos no PAPEL que temos um compromisso a honrar, a época do fio do bigode ou simplesmente da palavra infelizmente hoje não existe mais, embora o contrato no casamento não evita que a pessoa te magoe, te traia, ou simplesmente vá fumar um cigarro e não volte mais. Talvez o objetivo do contrato seja realmente esse que você mencionou nos comentários Silvia uma industria que se move em Prol disso, nem vou citar mas parando para pensar é muita gente trabalhando e produzindo. Embora está nascendo uma nova geração de união por amor, um casal e coisas básicas para iniciar uma nova vida. Boa reflexão.

    • Silvia Souza disse:

      Bom dia, Rosana!
      Obrigada por ler o texto e por deixar seu comentário.
      Às vezes, vejo esses casais mais jovens e que permitem uma relação diferente, com mais diálogo e respeito pelo parceiro.
      Mas ainda vejo muito dessa indústria que faz com que as pessoas desejem uma cerimônia que seja um evento. Mas a reflexão sobre esse contrato de união vai muito além da festa e do cerimonial.
      Uma ótima semana para você!

  • Oi querida. É uma questão realmente difícil, pois envolve uma das coisas mais complexas do ser humano; sentimento. Na minha opinião, não devemos padronizar isso em um contrato e segui lo eternamente. Devemos fazer o possível para garantir o que prometemos, mas no final depois de tudo tentado, temos que pensar em ser feliz! Se isso segnifica quebrar regras contratos e promessas, vale a pena. Um beijo. Fique bem.😊

    • Silvia Souza disse:

      Olá! Obrigada por ler o texto e por deixar seu comentário.
      É realmente um assunto muito difícil…
      O pior é que (raramente) os dois envolvidos estão de acordo com a ruptura do contrato.
      Beijo e uma ótima semana!
      🙂

  • vileite disse:

    Excelente texto !É próprio do ser humano , em certos momentos na vida , parar por uns minutos e refletir sobre as decisões tomadas ou as que ainda pretende tomar para dar novo rumo à sua vida. Isso é sinal de crescimento pessoal .

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