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O beijo do Sol

O beijo do Sol
O beijo do Sol

Ela acordou com o sol iluminando seu rosto através da janela. Ainda era muito cedo, mas aquela luz indicava um céu sem nuvens. Seria um dia perfeito, ela sentia.

Espreguiçou-se. Abriu uma frestinha das pálpebras, o suficiente para confirmar sua sensação. Sentou-se na cama bem devagar. Ela precisava dar tempo para que cada pequena célula do seu corpo acordasse e respirasse.

Levantou-se e caminhou até a janela. O mar à sua frente mantinha seu som cadenciado. Quase tudo que preenchia sua visão era azul.

Fez sua higiene. Tomou seu café da manhã. Vestiu-se e saiu para caminhar.

Todos os dias em que era acordada pelo sol, ela seguia essa mesma rotina. Nunca se entediava. Afinal, por mais que a rotina fosse a mesma, a cada amanhecer ela era outra, o mar era outro, o vento, o sol, nada era exatamente igual. E isso era o que havia de mais encantador ao abrir os olhos ao acordar. Era um despertar para o novo.

Caminhou por muito tempo naquela praia deserta. Não usava relógio. O sol e seu corpo eram seus guias e determinavam o ritmo e o tempo do seu exercício.

Voltando para a pequena casa onde morava, tomou um banho rápido e deixou a água renovar ainda mais suas energias.

Vestiu um vestido confortável e saiu em direção ao vilarejo.

Ela não precisava mais trabalhar. Estava aposentada. Sabia disso. E usava a maior parte do seu tempo para sua atividade principal, que era a escrita. Mas ela percebeu que não podia abandonar completamente suas atividades. Ainda havia tanto que poderia fazer. E pediu autorização para manter um trabalho voluntário.

Chegou ao pequeno posto de saúde, onde várias crianças já esperavam por ela. Ela atendia com calma, conversava com cada criança, media, pesava, examinava. Orientava sobre a alimentação, sobre vacinas, sobre prevenção de doenças. Perguntava sobre a escola, os esportes, os amigos. Eram algumas horas por dia em que ela se doava àquelas crianças. E seu pagamento vinha nos sorrisos que recebia, nos abraços, alguns desenhos feitos por cada uma delas.

Quando não havia mais ninguém, sempre chegava algum dos pais com um almoço preparado especialmente para ela. Ou vinham convidá-la para uma refeição com a família. Nunca ficava só.

Voltava à tarde para casa, preenchida de bons sentimentos.

Tomava seu chá sentada bem de frente para o mar.

Conversava com seus filhos, usando a tecnologia. Podia vê-los, escutá-los, falar com os netos, saber de todas as novidades. Olhava para as pessoas que eles tinham se tornado e seu coração se enchia de orgulho e satisfação. Percebia que tinha cumprido sua missão de vida. Seus filhos trabalhavam para deixar o mundo melhor do que tinham encontrado quando nasceram.

Quando o sol já começava a se esconder, ela se sentava para escrever suas crônicas, contos, histórias, lembranças. Escrevia porque gostava. E porque ajudava a completar sua renda. Com esse dinheiro ela se mantinha naquela vida simples e comprava algumas coisas que as crianças do vilarejo precisavam.

Com as estrelas no céu, a beleza da lua e o som das águas, ela se deitava, sempre com a janela aberta, porque seu desejo era acordar com o sol vindo beijá-la.

Lia por longo tempo, até que o sono viesse fechar seus olhos, trazendo personagens para povoar seus sonhos.

E assim seria. Até o dia em que o beijo do Sol não conseguisse mais despertá-la.

– Sílvia Souza

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12 Comments
  • laynnecris disse:

    Own… Que perfeito!

  • Aplaudindo de pé aqui Silvia!! Te vi alí, escritinha das pontas do cabelo ao dedinho do pé. Silvia, batalhas por isso tu mereces.
    Um beijo e um excelente final de semana!

  • “Tomava seu chá sentada bem de frente para o mar.” que delícia…

  • claudio kambami disse:

    Silvia que coisa linda de se ler, mesmo descrevendo uma mulher me vi no seu conto, não suporto relógio e só uso quando algo social me faz ter de usá-lo. Não me importo com horas pois já estou aposentado, mas não fico parado pois trabalho como patrão e tento dentro do possível ajudar a quem não tem peito para peitar políticos e não tem entendimento de direito de justiça. Adoro construção e gosto de construir e vender pois esse é meu ganha pão, e com isso também o de vários profissionais que agrego, desde o ajudante de pedreiro até o arquiteto e engenheiro. Adoro acordar e andar pelas areias, ouvir as ondas do mar e conversar com as sereias. Me vi muito em seu conto e adorei. Só não entendo por qual motivo suas postagens não aparecem no meu Feed (acho que é isso que chamam).
    Vou aproveitar e depois volto para te indicar em uma TAG de apenas 3 perguntas tá.
    Estou terminando o conto assombroso que te deixou medrosa, tentarei postar a ultima parte hoje e ainda responder duas TAG’S que me indicaram. Mas volto aqui no seu espaço mesmo que sendo da forma mecânica, procurando seu perfil e clicando no link. O curtir também trava e fica a vida inteira carregando, mas esta curtido viu em pensamento. Adorei mesmo. Bjs! 🙂

    • Obrigada, Claudio, por deixar sempre seu comentário! Fico muito feliz…
      Vou falar inicialmente sobre o Blog. Meu blog tem um domínio próprio e não tem todas as facilidades do WordPress; algumas coisas não funcionam bem, como o botão “Curtir”. Eu até pensei em desativar de vez, mas acho que a maioria dos blogueiros gosta que tenha o botão. Mas sei que você passa sempre por aqui… não se preocupe.
      Como eu tive alguns problemas com outros blogs no Feed, passei a assinar os blogs e recebo as publicações no meu e-mail. Para mim, tem funcionado bem (embora nem todos tenham a opção de serem assinados por e-mail).
      Sobre esse conto… quando eu fazia terapia no ano passado, o terapeuta pediu para eu escrever uma história onde eu me vejo feliz… E esse seria meu sonho de fim de vida… de aposentadoria. O grande problema (que ele notou e quis trabalhar nesse ponto) é que estou sempre sozinha nas minhas projeções futuras. Sou uma pessoa sensível demais e já cansei de ser incompreendida… Talvez seja como será meu futuro mesmo… A solidão cercada de pessoas…
      Um grande beijo!

  • Francine Camargo disse:

    Lindo isso. “Quase tudo que preenchia sua visão era azul. A cada amanhecer ela era outra. Era um despertar para o novo. Ela se deitava, sempre com a janela aberta, porque seu desejo era acordar com o sol vindo beijá-la. Até que o sono viesse fechar seus olhos.”. Leia dessa forma e pode virar poesia!
    Confesso que me enxerguei nesse futuro e tive dúvidas do quão real não poderia tornar-se em pouco tempo…
    Beijo.

    • Fran… preciso do seu dom para conseguir transformar o texto em poesia… Nem pareciam frases escritas por mim… precisei procurar os trechos no meu escrito… 😀
      Meu agradecimento por dar seu toque especial…
      Um beijo grande, com todo meu carinho!

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