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O amor verdadeiro

O amor verdadeiro
O amor verdadeiro

O Banquete, de Platão, descreve um jantar ocorrido na casa de Agatão, discípulo de Sócrates. Lá, os dois e mais Fedro, Pausânias, Erixímaco (o médico) e Aristófanes (o poeta) irão discursar sobre o amor ou a amizade.

Os discursos sobre o amor iniciam com Fedro. A seguir, discursa Pausânias e Erixímaco. O próximo será Aristófanes. Para Aristófanes, Eros é um anseio, uma busca metafísica do homem por uma totalidade do Ser. Uma das coisas que revela isso é a saudade dos amantes que desejam não se separar em tempo algum: não se trata somente de algo corporal, mas de algo que une as suas almas ou, dizendo de outra forma, complemento que uma alma busca na outra. Diz-nos Aristófanes:

Quando acontece encontrar alguém a sua metade verdadeira, de um ou de outro sexo, ficam ambos tomados de um sentimento maravilhoso de confiança, intimidade e amor, sem que se decidam a separar-se, por assim dizer, um só momento. Essas pessoas, que passam juntas a vida, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra. […] E a razão disso é que primitivamente era homogêneo. A saudade desse todo e o empenho de restabelecê-lo é o que denominamos amor.

(…)

Falo em tese, tanto do homem como da mulher, para afirmar que nossa espécie só poderá ser feliz quando realizarmos plenamente a finalidade do amor e cada um de nós encontrar o seu verdadeiro amado, retornando, assim, à sua primeira natureza.

A seguir discursam Agatão e Sócrates.

Mas eu queria pegar o exemplo desse amor romântico descrito por Aristófanes, de que buscamos a nossa metade, o(a) outro(a) que vai nos completar no corpo e na alma.

Não há dúvida de que esse pensamento é totalmente irreal, principalmente no mundo de hoje em que praticamente metade dos casamentos de desfazem ao longo dos anos de convivência. Vamos mudando e, de repente, nos damos conta de que aquele que achávamos que era nosso complemento não é mais. De um momento para outro percebemos que não há mais nada em comum.

Entretanto, por mais estranho e pouco racional que possa parecer, eu acredito um pouquinho nisso. Percebo que estou sempre em busca desse complemento, mesmo que ele tenha mudado ao longo dos anos da minha vida. Eu sei que esse mito não é real; sei que esse é um pensamento romântico difundido pelo cinema e seus contos de fadas modernos. Sei que a vida não é assim.

No meu caso, nestas brigas entre a razão e a emoção, a emoção costuma sempre ser a vencedora. E me pego sonhando que a pessoa que me cabe neste momento da minha vida possa estar distante, em um país do outro lado do oceano. Ou pode ser alguém que não esteja mais esperando por mim, porque ele não acredita no amor descrito por Aristófanes. Ou pode ser alguém muito mais jovem; ou quem sabe muito mais velho. Estaria em um mosteiro ou desaparecido em algum deserto?

A questão é que, independente de encontrar a minha metade dessa fase da minha vida, sei que não quero estar com alguém apenas por estar. Sei que não quero um homem ao meu lado apenas para mostrar aos outros que não estou sozinha. Não quero relações superficiais, falsas, embasadas em aparências ou carências mútuas. Não quero o sexo desprovido de sentimento.

Mesmo que não exista a alma complementar à minha, quero encontrar pessoas sinceras, que acreditem no mesmo que eu, que saibam ser gentis, que se emocionem com as pequenas belezas de todos os dias. Não preciso encontrar parceiros; posso simplesmente encontrar amigos, mas que saibam me entender e me respeitar.

Enquanto isso, estou buscando o encaixe perfeito para cada uma das sinuosidades da minha alma, que estão em constante transformação.

 

– Sílvia Souza

 

 

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2 Comments
  • Carlos Azevedo disse:

    Dos adjectivos para o amor, o mais belo é esse: verdadeiro. Porque é desinteressado? Não, porque é o amor mais egoísta que podemos ter, o amor pelo nosso ego, partilhado com outro ego, que não queremos que se aparte de nós e ao mesmo tempo receamos que o faça.
    Com o amor temos a insegurança que injecta adrenalina pelo corpo todo, o faz desejar o outro corpo, o faz querer partir e levar sempre o outro corpo, esse corpo adorado que fala para nós como se fossemos nós, para quem olhamos como se fosse o bem mais precioso que um acaso qualquer colocou na nossa frente e é agora o nosso alvo.
    Sabemos que o amor verdadeiro não existe mas se o sonharmos talvez a magia seja a única verdade.

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