Mudanças
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Nova casa

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Nova casa

Por que será que eles tinham mudado de casa e de cidade? Ela não sabia. Mas não se importava muito. Continuava com os pais e a irmã. E tinha a vantagem de estar mais perto dos avós.

Era uma casa diferente. Não tinha uma porta na frente como todas as casas que conhecia. O pequeno portão de ferro que dava para a calçada abria para uma escada de muitos degraus. Era uma casa no segundo andar, mas ela não sabia o que tinha no primeiro andar, afinal de contas.

Depois da longa escada, havia um quintal. Tinha uma parte com chão de cimento, onde ficava o varal para as roupas que eram lavadas, e chegava até a porta da cozinha (única porta da casa). Uma outra parte do quintal era de terra, com árvores de frutas, alguns pés de mandioca e espaço para brincar (era isso que realmente importava).

A bisavó ficou um tempo morando com eles. Ela fazia poesias e sonhava escrever um livro. Sempre que lhe ocorria a ideia de um verso ou uma rima bonita, ela corria para anotar, com sua letra levemente tremida, mas muito bem desenhada. Será que a bisavó sempre tivera aqueles cabelos brancos e macios? A bisavó era baixa, não era magra, tinha a pele toda enrugada e cheirava a sabonete de bebê. Estava sempre perfumada. Andava com passos lentos, de mulher que nunca precisou fazer as tarefas de casa, e passava as horas do dia com seu crochê.

Nesse tempo em que ficou com eles, a bisavó fez pequenas flores vermelhas de crochê e costurou em uma das camisetas brancas da menina. Depois, fez uma barra de crochê com a mesma linha. E a menina gostava de usar aquela camiseta. Ela nunca tivera muito e gostava de cada pequeno presente que ganhava. E gostava mais ainda quando tinham feito algo para ela, como no caso da camiseta. Era única. Ninguém teria uma camiseta como a dela. E ela se orgulhava disso e do fato de ter sido feito pela bisavó.

Parecia tudo mais gostoso nessa casa. Todos ficavam juntos com mais frequência. A família ficava maior.

No Natal, seu pai se fantasiou de Papai Noel. Mas ela não sabia. Não totalmente. Naquela época, ela ainda acreditava em Papai Noel. Acho que é uma vantagem que o Papai Noel cause tanto terror nas crianças pequenas; elas têm medo de se aproximar e não desconfiam que seja o pai, o tio, o avô… é um personagem assustador e os pequenos nem querem olhar.

Ela não sabia. Era pequena. Lembra-se apenas que foi um Natal maravilhoso. Não se lembra dos presentes. Lembra-se da família. E era tudo o que importava.

– Sílvia Souza

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3 Comments
  • laynnecris disse:

    É tão puro e perfeito o mundo visto dos olhos de uma criança neh… Eu também tinha uma visão tão agradável do que tínhamos e quando cresci descobri que o que via na verdade era apenas o que eu imaginava e sentia… <3

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