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Não era para ter sido assim

Não era para ter sido assim
Não era para ter sido assim

Não era para ter sido assim.

Foram tantos planos. Tantas promessas.

Atendi a todos os seus pedidos. Eu me abri de corpo e alma. Expus meus pecados, medos, angústias, sonhos. E acreditei que teria meu prêmio. Nada mais justo.

Olho a paisagem através da janela. Não era para eu estar aqui sozinha. O café da manhã tem um sabor insípido porque estou preenchida pelo vazio.

Nem mesmo as lágrimas brotam. Sinto que estou seca e oca. Não há mágoa, nem ódio, nem raiva… não há nada. Porque meu tudo ficou com você e então se perdeu.

Essa viagem era o sonho compartilhado. A promessa empenhada. O momento que compensaria tantos meses de entrega sem receber nada além de palavras.

No instante da partida, você desistiu.

Eu sei que não é fácil. Viver exige coragem. Você escolheu continuar apenas existindo, acomodado à sua rotina, levado pela inércia e ausência de conflito.

Nunca imaginei que eu fosse especial por ter ido atrás da minha felicidade e por ter tido a nobreza de romper os laços que não tinham outra função que não me aprisionar.

Achei, naquele momento, que qualquer pessoa teria a mesma bravura. Mas vi, no momento da partida, que não era assim. Falar é mais fácil. Falar, qualquer um fala. Você falava. Muito. E fazia planos.

A coragem, por outro lado, é para poucos. Você não conseguiu. Os nós eram fortes demais. Continuar prisioneiro era mais fácil do que as feridas causadas par se libertar. Você não tolerou pensar na dor. Achou que a sensação de liberdade não valia o sofrimento que você nem mesmo chegou a sentir.

Você desistiu. E eu parti.

Eu segui nos sonhos nos quais acreditei.

Você ficou. E eu estou aqui.

Ocupei sozinha a cama que deveria acolher ambos. Senti a melancolia do quarto que se entristeceu por não ter recebido dois, mas apenas um coração. Ou nem mesmo um. Porque não tenho mais do que um órgão que bate com automatismo, sem sentimentos.

Olho pela janela. Vejo a paisagem.

Sou o sonho em busca de vida. Quero as promessas que me foram feitas. Ou destruir essa dor. Talvez a liberdade de nunca mais sentir.

Olho pela janela. Vejo a paisagem da cidade.

Escolho me incorporar a ela e dispersar minha angústia em meio à beleza triste desse lugar que não passou dos planos de uma vida em comum.

Olho pela janela. E a paisagem agora sou eu.

– Sílvia Souza

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