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Muitas saudades

Muitas saudades
Muitas saudades

Aos domingos estávamos sempre na casa dos meus avós. Ainda de manhã, meu pai saía comigo para a casa de sua mãe, onde ela preparava o almoço. Ela era uma cozinheira maravilhosa. Geralmente já havia algo pronto quando chegávamos lá. Eu era uma criança muito tímida e quieta e ela tentava ter algo que me agradasse (geralmente os biscoitos de polvilho, daqueles compridinhos e bem torradinhos).

Essas visitas à minha avó paterna duraram muito pouco. Quando eu tinha 4 anos, ela se foi. Acho que a saudade nessa idade ainda não dói tanto.

O almoço de domingo, assim como todo o final de semana, passou a ser na casa da minha outra avó.

Era daquelas pessoas que acolhia muita gente (quem chegasse). Ela sempre dava um jeito. Trabalhava sem descanso, assobiando suas músicas e dando ordens para todas as pessoas que estivessem por perto. Para o lanche da tarde, preparava bolinho de chuva ou bolinho de pinga ou bolo de limão ou um simples pão de ló. Tudo era bom.

Os domingos eram sempre iguais. À noite, chegavam meus tios avós (meu tio era irmão da minha avó). Sentavam-se todos na sala. Eu e minha irmã nos deitávamos no chão de frente para a TV. Era a época em que tinha estreado na Globo o programa “Os Trapalhões”. Nós adorávamos.

Depois, vinha o “Fantástico”. Eram os mais velhos que gostavam do programa. A única parte que me hipnotizava era a hora da Loteria Esportiva. A zebrinha que aparecia me encantava.

Era uma época de coisas simples. Havia poucos desenhos, poucos brinquedos, poucas opções do que quer que fosse. Mas havia muito encantamento, muita alegria e a satisfação com as pequenas coisas.

Meu avô (que tinha verdadeira adoração por mim, por ser a neta mais velha e a futura médica) se foi em março de 1994, poucos meses antes de eu me formar na faculdade. Ele deixou um vazio muito grande e memórias infinitas dos momentos compartilhados com ele.

Meu tio-avô, irmão da minha avó, que foi meu padrinho de casamento e adorava estalar meus dedos dos pés enquanto eu estava deitada no chão da sala assistindo TV, se foi em março de 2001, 10 dias depois do nascimento do meu filho mais velho.

Minha avó materna se foi no ano passado.

E tantas partidas aconteceram na minha vida: tios, primo, amigos. O destino de todos nós será o mesmo; não há como evitar.

Os que se foram, creio que estejam bem, onde quer que seja.

Aos que ficam, vale pensar com carinho em cada pessoa que passou por nossa vida; que deixou sua marca; que nos ensinou algo; que nos influenciou. Muitas vezes, perdemos pessoas importantes que não morreram, mas também partiram das nossas vidas por opção ou não.

Tudo o que somos vai se formando por essas várias marcas de pessoas que nos amaram, que nos deram carinho, que se dedicaram apenas pelo prazer de ver um sorriso ou de receber um abraço.

Tenho em minhas lembranças todas essas histórias maravilhosas, todos os pequenos detalhes, dessas pessoas que se foram, mas estarão eternamente comigo, como parte do que eu sou.

 

– Sílvia Souza

 

 

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22 Comments
  • Uma bela maneira de se lembrar de seus familiares 🙂
    Minha mãe conta que um dos meus primos tinha pavor da zebrinha da loto… Não podia escutar a voz dela que saía correndo e se escondia hehe
    Beijos e excelente semana!

  • Silvia, que lembranças gostosas.
    Como a nossa infância é mágica, né?
    São por todas essas pessoas que temos que tocar nosso barco nesses mar desconhecido que é a vida. Me senti do teu lado enquanto lia o texto, me lembrou mto de minha família.
    Lindo, emocionante. E fico feliz pelo teu post fazer parte da nossa iniciativa. <3
    Um beijo carinhoso.

    • Silvia Souza disse:

      Obrigada pelas palavras, Bia!
      Foi uma iniciativa maravilhosa!
      Acho importantíssimo pararmos para lembrarmos das pessoas queridas que se foram.
      Um beijo grande!

      • É mto importante sim, eu que o diga. Sempre bom falar de minha mãe, relembrar histórias, o carinho dela, a risada, o sorriso. Saudade dói mas seria impossível viver sem. Uma abraço bem forte, viu? 🙂

  • Ah, só uma curiosidade! Quem são exatamente na foto por ordem? Gostaria de saber!
    P.s: meus pais se casaram em novembro de 1973. 🙂

    • Silvia Souza disse:

      Da esquerda para a direita…
      Meu avô materno, minha avó materna com minha irmã no colo (ela tinha 2 meses), minha mãe e meu pai (e eu fazendo 2 anos), minha avó paterna e minha bisavó (mãe da minha avó paterna).
      Meu avô paterno morreu antes do casamento dos meus pais.

      • Meu avô materno bem conheci também, faleceu novo, tinha 62 anos. Em 2001 perdi minha avó materna, 2003 avô paterno e 2007 avó paterna. Difícil. Mas quero só pensar que eles continuam a nos olhar. E foto bonita, com direito ao ratinho Topogígio ali! Beijo.

        • Silvia Souza disse:

          Obrigada pelos comentários!
          Gosto sempre de pensar que sofrer a dor da Saudade significa que nossa vida foi recheada de boas pessoas e bons momentos que serão sempre lembrados.
          Um lindo dia!

  • Aline Molleri disse:

    Silvia que texto lindo! Meus avós faleceram quando eu tinha 3/4 anos e não tenho lembranças deles, a não ser o que me contavam…as vezes fica um vazio sabe, sinto um vazio no tema avós.

    • Silvia Souza disse:

      Bom dia, Aline!
      Obrigada por ler meu texto e deixar um comentário tão bom!
      Eu sinto por você não ter muitas lembranças dos seus avós.
      Acho que se eu fosse escrever todas as lembranças que tenho, daria um livro.
      Mas lembre-se que você pode construir bons momentos com todas as pessoas que estão à sua volta… e esses momentos nunca poderão ser roubados de você!
      Um lindo dia!

  • Oi Silvia. Voltei ao tempo. Minha família costuma se reunir sempre aos domingos para passar o dia. Ótimos domingos. Mas ao longo dos anos os amados foram nos deixando nesse plano e partindo para o outro e os encontros também foram se perdendo. Saudades.
    Lindo, amei!! Bjs no <3

    • Silvia Souza disse:

      Obrigada pelo comentário!
      Fico feliz de ter trazido boas lembranças…
      Acho que essas lembranças estão entre nossas maiores riquezas.
      Um ótimo feriado!

  • Líley disse:

    Que lembranças gostosas, Silvia. Meu avô materno faleceu quando eu ainda nem havia nascido, mas adorava ficar olhando as fotos dele no álbum da família e ouvir as histórias que minha mãe contava.

    Um abraço carinhoso.

  • Anônimo disse:

    Lindo Sílvia ,você sempre está no meu pensamento e nas minhas orações. Minha linda sobrinha e afilhada.Beijos no seu coração.

  • Lari Reis disse:

    Lindo post, Silvia.
    Eu não conheci nenhuma de minhas avós e, por isso, gosto muito de ouvir (ou ler) sobre as avós de outras pessoas. Sempre tenho a sensação de que elas definem bem o conceito de amor fraterno.
    Fico feliz que você possa se lembrar com carinho das experiências que viveu ao lado delas. Realmente, por mais doloroso que seja perder alguém, vale sempre buscar aquilo o que ficou de positivo.
    Um beijo.

    ps: adorei a foto!

  • vileite disse:

    Lindas lembranças ! Eles se foram fisicamente , porém , sempre permanecerão na nossa memória, no nosso coração e nas nossas lembranças1

  • Carlos disse:

    Feliz Ano Novo 2017 Sílvia E este novo começo encher o copo de sua felicidade. É uma noite para recordar, mas também é para aproveitar a vida e alegria na companhia de sua família. Um abraço forte.

    • Silvia Souza disse:

      Obrigada, Carlos!
      Um excelente 2017 para você e sua família, com muitas alegrias, paz, amor e saúde!
      A família é o bem mais valioso da nossa vida…
      Um beijo grande!

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