Perfumaria: Vetiver
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Era uma cidade tão diferente das que ela conhecera. É claro que ela ainda não tinha conhecido tantas cidades assim. Mas tudo era diferente: os prédios, as avenidas, o clima, as pessoas. Era a primeira vez que morava em um prédio. Não era alto, mas ainda assim era um prédio.

Dormia em um quarto com a irmã. Tinha medo de ficar no escuro e pedia ao pai para que deixasse a luz acesa. Talvez fosse o fato de ser tudo novo e de não ter ninguém mais da família perto deles. De repente, de uma hora para outra, a família estava resumida aos pais e à irmã. E estavam muito longe. Não seria fácil ver os avós, mesmo que desejasse muito. Em sonhos, quem sabe, podia ser que eles viessem visitá-la.

O apartamento não era grande. Tinha uma sala, onde também ficava a mesa em que eram servidas as refeições. A cozinha pequena ficava à direita e os quartos à esquerda. Tinham uma TV. Não se lembrava de programas de TV antes dessa época. Ela achava que antes nunca tinha tido vontade de ver televisão, porque tinha muito espaço para brincar na casa da avó. Mas agora, tão longe, a televisão virou alguém da casa e ecoava sua voz junto aos outros coabitantes.

A mãe servia seu leite todos os dias em uma xícara de porcelana branca com desenhos azuis. Ela tomava seu leite em silêncio. Assistia ao Vila Sésamo. Depois ia para a escola com a irmã.

A escola era o que ela mais detestava. Ninguém conversava com ela. Ela participava das aulas, quieta como sempre. Nos recreios, vagava sozinha pelo pátio, inventando amigos que gostavam de estar em sua presença. Às vezes, recorria à irmã, quando a solidão ficava insuportável. Mas a irmã, mais nova, quase um bebê, nem sempre estava disponível. As crianças pequenas dormiam durante uma parte da aula. E se a irmã estivesse dormindo, não havia escapatória… restava a ela apenas os amigos imaginários e as conversas que aconteciam apenas na sua cabeça. Às sextas-feiras, eles podiam levar brinquedos. Em uma dessas ocasiões, ela percebeu que as outras meninas vinham conversar com ela e chamá-la para brincar se a menina estivesse com uma boneca bonita e que chamasse atenção; as meninas ficavam com vontade de brincar com seu brinquedo e ela era integrada à diversão. Naqueles momentos, ela se sentia incluída.

Quando chegava em casa, suas pernas coçavam por causa da grama da escola e ela ia direto para o banho. Gostava de estar em casa. Não tinha mais que ficar sozinha. A televisão voltava a falar, de forma que a casa parecia preenchida por muitas pessoas diferentes. Assistiam às novelas enquanto jantavam. Adorava a abertura daquela novela com tanto dinheiro voando e da música que tocava… dinheiro na mão é vendaval, é vendaval, na vida de um sonhador… Ela não tinha ideia do que era um vendaval. Depois, houve a outra novela, uma que ela nunca esqueceu, porque sabia todas as músicas de cor! Todas elas! Sua abertura com fotos dos atores como se fossem figurinhas de papel e a cantora de voz bonita que cantava: Oh! oh! Cupido! Vê se deixa em paz… Meu coração que já não pode amar...

Apesar das saudades dos avós… apesar da escola onde ela sentia uma solidão difícil de ser compreendida por uma criança de 4 anos… ela tinha os pais, os amigos dos pais que vinham visitá-los com frequência, os passeios pela cidade bonita, com sua igreja tão diferente de tudo o que já tinha visto e aquelas construções que pareciam discos voadores, prédios que ficavam enfileirados e o desenho da cidade que o pai lhe dizia que tinha sido criado para parecer um avião.

Era tudo grande demais para ela… ainda tão pequena…

– Sílvia Souza

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