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Monseigneur Bienvenu Myriel

Monseigneur Bienvenu Myriel
Monseigneur Bienvenu Myriel

Talvez a história mais bonita que eu tenha lido seja aquela que foi contada por Victor Hugo no livro “Les Misérables”. Ele foi um dos principais representantes do Romantismo francês e, na minha opinião, esse livro é sua obra prima.

Jean Valjean, o personagem central, foi prisioneiro durante muitos anos, condenado a trabalhos forçados, após ter roubado um pão. Após ser libertado, ele é acolhido por um padre, de quem rouba algumas pratarias; mas o padre perdoa seu ato e pede para que use aqueles bens para começar uma vida honrada. E assim ele fez. Desse ponto em diante, o livro descreve um homem que reconstruiu sua vida, vencendo do ponto de vista financeiro, mas passando a ajudar todas as pessoas que precisassem dele.

Infelizmente, os atos passados não podem ser apagados e ele acaba sendo reconhecido pelo Inspetor Javert, que passa a persegui-lo. E isso é fato. Não podemos nos desfazer daquilo que vivemos; mas podemos escolher o caminho que queremos trilhar e mudar nossa história.

Além de Jean Valjean, que é um personagem maravilhoso, outro personagem do livro me encantou. Monseigneur Bienvenu Myriel é o padre que aparece no início do livro, antes mesmo de qualquer outro personagem. Sua vida é descrita em detalhes, mostrando o ideal de um padre ou de alguém que dedica sua vida a ajudar outras pessoas. Ele abre mão de uma grande parte do seu dinheiro como padre para ajudar as pessoas necessitadas. Sua descrição é absolutamente encantadora e me marcou profundamente.

O Bispo Bienvenu Myriel é um personagem ficcional, mas tem a descrição do seu nascimento em 1739 e de sua morte em 1821. É um bispo católico da Diocese de Digne e ele acolhe Jean Valjean em 1815, pouco depois de sua saída de Toulon. Sendo o padre o responsável por sua redenção, quando Jean Valjean é notificado sobre a morte do bispo, ele assume o luto, como um filho que perde seu pai.

Essa foi uma das passagens que mais me marcou na obra:

 

Jean Valjean était comme un homme qui va s’évanouir.

L’évêque s’approcha de lui, et lui dit à voix basse :

— N’oubliez pas, n’oubliez jamais que vous m’avez promis d’employer cet argent à devenir honnête homme.

Jean Valjean, qui n’avait aucun souvenir d’avoir rien promis, resta interdit. L’évêque avait appuyé sur ces paroles en les prononçant. Il reprit avec solennité :

— Jean Valjean, mon frère, vous n’appartenez plus au mal, mais au bien. C’est votre âme que je vous achète ; je la retire aux pensées noires et à l’esprit de perdition, et je la donne à Dieu.

[Jean Valjean era como um homem prestes a desmaiar.

O bispo se aproximou dele e lhe disse em voz baixa:

– Não se esqueça, não se esqueça jamais que você prometeu usar esse dinheiro para se tornar um homem honesto.

Jean Valjean, que não tinha lembrança de ter prometido nada, ficou mudo. O bispo havia enfatizado essas palavras ao pronunciá-las. Ele retomou com solenidade:

– Jean Valjean, meu irmão, você já não pertence ao mal, mas ao bem. É sua alma que eu acabo de comprar; eu retiro dela os pensamentos sinistros e o espírito da perdição, e dou-a a Deus.]

 

De alguma forma, esse trecho ficou gravado em mim. Já ouvimos falar, em várias histórias, de vender a alma ao diabo. Mas sempre fiquei intrigada pela possibilidade de um gesto de bondade ser capaz de fazer florescer o que existe de bom em alguém habituado a causar o mal e acostumado a receber apenas maus tratos, preconceito e intolerância. Seria possível de verdade, fora de uma obra romântica?

Eu, na minha ingenuidade e na crença de que a maioria das pessoas tem uma moral, acreditava ser possível. As pessoas aprendem a viver de acordo com o que recebem, ajustando-se ao meio e fortalecendo os aspectos defensivos e agressivos para poder lidar com as adversidades. Como esperar a bondade de alguém que nunca teve nada e que sempre foi tratado com desprezo?

A maioria das pessoas olha com desconfiança para gestos de bondade. Receber uma gentileza faz questionar o que o outro vai querer em troca. Estamos todos ficando céticos e receosos. Qualquer ajuda parece vir acobertando as segundas intenções. E se as segundas intenções forem apenas fazer crescer o que há de bom no coração das pessoas, para que se crie uma corrente do bem, aumentando as boas energias no mundo?

Às vezes, eu tento incorporar o Bispo Bienvenu Myriel. Normalmente, não consigo grandes resultados. Em geral, não sou capaz de propagar essa corrente ou de “comprar a alma” de alguém acostumado ao mal e entregá-la ao bem. Mas nunca desisti completamente. Tive meus momentos de descrença e desânimo. Mas acabava recobrando minha fé de que valia a pena continuar tentando. E, de repente, tive um retorno. Alguém pronto a fazer algo de mal parece ter mudado; alguém acostumado ao pior que a vida pode oferecer, parece disposto a ver que a escolha do caminho a seguir cabe a cada uma de nós e não precisamos trilhar o mesmo caminho que os outros trilham. E vem o reconhecimento de que optar pelas coisas boas é algo gratificante, que traz alegria e paz de espírito.

E eu me animei a permanecer na minha ingenuidade de que ainda vale a pena tentar propagar coisas boas, mesmo que eu não consiga atingir todas as pessoas. Apenas uma já faz valer a pena.

– Sílvia Souza

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