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Minha Vida: Quando eu tive Caxumba

Minha Vida: Quando eu tive Caxumba
Minha Vida: Quando eu tive Caxumba

Nasci há muitos anos. Não existiam tantas vacinas como existem hoje em dia. As crianças não eram vacinadas. As crianças tinham doenças.

Tive caxumba por volta dos 6 anos. Eu, minha irmã e minha prima. Todas ao mesmo tempo. Elas eram um pouco mais novas do que eu. Ficamos as três aprisionadas na casa da minha avó enquanto estávamos doentes.

A principal recomendação durante a doença: não pegar peso para a caxumba não descer. Às vezes, os adultos dizem coisas que não fazem sentido na cabeça das crianças. O que significava exatamente “não pegar peso”? Eu segurava uma almofada de espuma e tinha receio de que fosse muito pesada. Será que isso me faria mal? Por via das dúvidas, deixava a almofada no lugar dela e brincávamos empurrando as poltronas por toda a sala da minha avó; não estávamos, afinal, pegando peso.

E mais misterioso do que o significado exato do “não pegar peso”, era o sentido de que a caxumba poderia “descer”. Tínhamos uma bola em cada lado do rosto, próximo das orelhas, deformando nossas faces. Aquela “bola” se moveria por nosso corpo? Aonde ela poderia parar? Em nossos pés? Eu me olhava todos os dias no espelho para ver se ela continuava no lugar ou se poderia ter migrado para algum lugar desconhecido, visível ou não.

Na casa da minha avó, havia uma sala dupla que, para nós três, era enorme. A um canto, ficava a televisão de tubo sem controle remoto. Quase de frente a TV, havia um sofá de três lugares encostado a uma das paredes. Este sofá nos era permitido: podíamos subir, sentar no encosto, deitar… Havia duas poltronas, combinando com o sofá, colocadas nos cantos de uma das salas; elas deveriam limitar nossa área de permanência. Mas ficávamos lá, sozinhas as três, sem poder sair para brincar no quintal, presas naquela sala… aquele limite imaginário era transposto com enorme facilidade. Quando víamos, já tínhamos invadido a sala proibida, aquela que deveria ser restrita às visitas, a sala que tinha uma porta de comunicação com o quarto do meu avô.

Meu avô fazia a sesta todas as tardes após o almoço. Não podíamos fazer barulho nesse horário ou ele ficaria bravo conosco. Meu avô era sempre descrito em termos severos, mas não tenho lembranças de uma única bronca que ele tenha me dado.

Nesta sala proibida, existiam outras duas poltronas amarelas em uma das paredes; na parede oposta, ficava um objeto incrível: um toca discos. Não era um toca discos qualquer. Era um móvel grande, retangular, de madeira, que ocupava quase a parede toda. No lado esquerdo, havia a membrana do que era a caixa de som; à direita, a parte superior de madeira podia ser levantada para acessar o toca discos propriamente; na frente, ficavam os botões que sintonizavam os canais de rádio. Mas como não havia nenhuma antena, os canais de rádio não pegavam bem. O incrível mesmo era colocar os discos de vinil para tocar.

A maioria dos discos tocavam a 33 rotações por minuto. Mas aquele móvel-tocadiscos tinha a opção de colocar em diferentes rotações. Eu tinha aquele disquinho, um compacto com apenas uma música do Roberto Carlos, o disco parecia feito de papelão, e ele tinha que ser tocado a 45 rotações por minuto… esse disquinho era tocado várias vezes ao dia e, mesmo doentes, cantávamos e dançávamos ao som de “O Calhambeque” de Roberto Carlos. E, quando queríamos dar risada, colocávamos algum LP para ser tocado a 45 ou 78 rotações por minuto; as músicas ficavam muito engraçadas e nos divertíamos à beça.

Naquela época, não tínhamos tantos brinquedos; até mesmo livros para colorir eram raros. Inventávamos brincadeiras para nos distrair e passar o tempo, estivéssemos presas em casa ou não. Tínhamos as bonequinhas de papel ou usávamos os enfeites, móveis ou outros utensílios como nossos brinquedos. Confesso que minha avó não gostava muito. Mas não me lembro de sentir tédio na minha infância, nem mesmo quando tive caxumba.

– Sílvia Souza

 

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2 Comments
  • Minha mãe amava bonequinhas de papel e eu as acho bem legais, embora não tenha brincado muito com elas… Graças a Deus, não tive caxumba, mas tive catapora: durou uns quatro dias e tive apenas 3 bolhas, de modo que só faltei dos dias de aula (a pediatra me autorizou a ir na segunda-feira que seria o 5to dia rs)

    Beijos!

    • Silvia Souza disse:

      Naquela época, tínhamos todas as doenças: caxumba, catapora, rubéola… cada uma delas com uma história para contar… 😀
      Um beijo grande!

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