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Máscaras

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Quantas pessoas conseguem avaliar com precisão quais sentimentos são capazes de despertar nas outras pessoas? Não estou sugerindo que devamos nos deixar levar pelo que os outros pensam de nós ou nortearmos a própria vida pela opinião alheia. Mas estamos inseridos dentro de um mundo, uma sociedade, queiramos ou não. Por mais que nos isolemos do mundo, ainda assim, há momentos em que temos que interagir com outras pessoas. E, nesses momentos, o que provocamos nos outros?

Fico pensando nisso. Sou gentil ou sou rude? Prepotente ou humilde? Tímida ou orgulhosa?

Como posso imaginar os sentimentos que causo nos outros se não estou certa, nem mesmo, do que eu sou, como pessoa. Alguém está? Alguém consegue ter uma avaliação perfeita e precisa de si mesmo? Sabe controlar todos os comportamentos e prever todas as reações? Serei eu a única pessoa que olha para si mesma e não sabe se definir?

Quando estou conversando e escutando atentamente o que o outro tem a me dizer, olhando para ele com empatia autêntica, sei que estou dando o melhor de mim. Nesses momentos, há uma conexão genuína. Eu estou fazendo algo bom e sei que estou despertando bons sentimentos na pessoa que se sente compreendida e acolhida.

Se, logo a seguir, enfrento um problema, algo inesperado e que me faça perder o controle, conseguirei manter o mesmo comportamento? Certamente não. Talvez esteja irritada, sem paciência, mais ríspida. E serei percebida como uma pessoa arrogante, talvez. Eu não serei outra pessoa. Serei exatamente a mesma. Em outro momento. E serei avaliada e julgada por um pedaço do que eu sou, um instante de uma palavra dita da forma errada.

E essas são apenas duas das inúmeras variações que podem ocorrer em mim. E o mesmo se passa com todas as outras pessoas. Ou não? Há alguém que seja tão absolutamente linear? Que não passe por irritações ou contratempos ou preocupações ou distrações?

Sei que posso ser julgada pela minha aparência e causar sentimentos bons ou ruins. Há quem julgue minha timidez como arrogância; talvez ainda mais porque eu liberto um pouco de mim enquanto escrevo. Quando escrevo, há uma parte de mim que fala, mas muitas outras estão caladas; algumas escondidas ou trancadas.

Fico imaginando o quanto nossa vida e nossas relações não são aleatórias. Se estou em um dia feliz e me encontro com alguém que também esteja feliz e capte meu bom momento, uma paixão pode surgir. Se a mesma pessoa passou por um grande problema e me encontra após uma tristeza ou sofrimento, talvez nem mesmo nos olhemos. E o momento passa. E a paixão que poderia ter existido virou vapor.

Será que há alguma forma de olharmos as pessoas com outros olhos? Olhos da alma? Sem julgar superficialmente? Sem projetar tanto daquilo que vai em nós mesmos?

Eu acho sinceramente que não.

Será sempre uma parte do meu ser que vai se relacionar com uma pequena parte de cada pessoa. E nunca irei conhecer os pensamentos mais secretos. Os pensamentos violentos da mulher quando o marido bebe e fica agressivo. Os olhares intolerantes do marido quando a mulher mostra seu lado mais fútil e mesquinho. São pequenos momentos. Aqueles instantes. Que podem passar despercebidos.

E assim, cada um vai revelando apenas partes do seu verdadeiro eu.

– Sílvia Souza

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17 Comments
  • E além de tudo isso que você explanou muito bem, existe aquelas pessoas que anseiam tanto por uma boa conversa, que ficariam felizes de serem notadas em seu meio, que poderiam ser fonte de tantas palestras que agregariam valor e conhecimento para nós, mas que mesmo assim passam despercebidas, talvez por serem cidadãos comuns, fora do que a sociedade prega, que é sempre um corpo e rosto bonito, um cargo e salário de destaque, famoso, e tantos outros adjetivos que rotulam as pessoas. Exemplo, quando o José diz, não significa nada. Quando o Neymar diz a mesma coisa, vale 1.000.000 de curtidas. Infelizmente essa é a realidade.

  • A máscara é a maquiagem da alma.

  • palhao disse:

    Olá, Silvia,

    Nomeei você para o Bloggers Recognition Award. Se puder, conte um pouquinho da sua história como blogger.
    Veja as regras no meu post:
    https://lucaspalhao.wordpress.com/2015/09/28/bloggers-recognition-award/

    Caso já tenha participado ou não possa, por favor, desconsidere minha mensagem.

    Abraço,
    Palhão.

  • M.Raydo disse:

    O que são as pessoas senão a lembrança de alguns momentos?! Nem citarei aqui a questão amorosa, da amiga distante, o melhor amigo da escola, não! Vejo pelos meus pais. Lembro deles em frações de segundos, apenas algumas memórias distantes. Lembranças queridas e outras nem tanto! Será que serei um resumo de mim mesmo no futuro?! Meus filhos lembrarão de mim pelo que sou, ou pelos rápidos momentos que tivemos juntos?! Pois é… acho que nunca conseguiremos deixar uma marca certa e clara sobre nós mesmos! Talvez, seremos apenas uma lembrança infeliz de um dia emputecido para o vizinho distante. Da pessoa extremamente prestativa, pela vizinha que te pegou num dia legal! Vai saber?! Enfim… deixa rolar! 🙂

  • Rancho do Peregrino disse:

    Quantas pessoas conseguem avaliar com precisão quais sentimentos são capazes de despertar nas outras pessoas? Acho que fica melhor assim reformulada. Apague meu comentário por favor.

  • Bis Perez disse:

    Eu sou mil em um.. ou um em mil? Ainda não descobri! Esta ambiguidade dentro de mim é que me enriquecem. Não quero ser perfeita… nem pensar se sou boa ou má… quero apenas ser eu mesma… autêntica e única. Fato que o ambiente exerce enorme influência em nossos atos e não temos como fugir disto, mas podemos tentar melhorar… Calma, paciência, bom humor e respeito com todos… poderão nos fazer caminhar mais leve… estou tentando…'”Ando devagar porque já tive pressa” … rsrsrs Bjs

    • Acho que meus esforços são na mesma direção…
      Mas acho interessante como, mesmo tentando ser sempre autêntica, somos percebidos de formas tão diversas… Porque os olhares das pessoas são sempre parciais e carregados de pré julgamentos… E não acho que seja por mal. É apenas como somos…
      O que fazer?
      Tenho tentado praticar minha paciência arduamente… É meu maior desafio…
      Beijo!

  • Bis Perez disse:

    Também acredito que somos percebidos de muitas formas… cheios de pré-julgamentos… naturalmente são assim. Com o tempo percebem que tem coisas mais importantes do que isto… a simplesmente passam a viver com mais leveza… Eu ainda preciso entre muitas coisas aprender a dizer “não’… meu maior desafio! Adorei seu post. Bjs

  • Carlos Moya disse:

    “E assim, cada um vai revelando apenas partes do seu verdadeiro eu”. Gustome é uma boa conclusa..
    Há uma expressão daqueles que servem para tudo o que diz: “Eu tenho meus dias.” Eu acho que como todo o mundo. E isso depende da fadiga que se acumula e outros muitos fatores, o quão bem ou mal as coisas têm corrido. E do comportamento daqueles com quem nos relacionamos. Embora eles dizem que o chão do inferno está cheio de boas intenções. devemos continuar optando por ser uma boa pessoa. Sinon? Um abraço.

    • É o que eu tento sempre…
      Às vezes, sinto-me uma boba por ser assim… em especial aqui, onde o mais esperto sempre se dá bem…
      Mas não tenho como mudar meu jeito… sou assim…
      Um grande abraço!

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