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Livro “Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear” de Svetlana Aleksiévitch

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Livro “Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear” de Svetlana Aleksiévitch
Livro “Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear” de Svetlana Aleksiévitch

Título original: Чернобыльская молитва: Хроника будущего

Primeira Publicação: 1997

Tradutor: Sonia Branco

Editora: Companhia das Letras (20-04-2016)

ISBN13: 9788535927085

Sinopse: Em abril de 1986, uma explosão na usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia — então parte da finada União Soviética —, provocou uma catástrofe sem precedentes: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera e a cidade de Prípiat teve que ser imediatamente evacuada. Tão grave quanto o acidente foi a postura dos governantes soviéticos, que expunham trabalhadores, cientistas e soldados à morte durante os reparos na usina. Pessoas comuns, que mantinham a fé no grande império comunista, pereciam após poucos dias de serviço. Por meio das vozes dos envolvidos na tragédia, Svetlana Aleksiévitch constrói este livro arrebatador, que tem a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários. Uma obra-prima do nosso tempo.

 

Este foi o segundo título que recebi da Companhia das Letras, referente ao mês de abril.

A escritora Svetlana Aleksiévitch nasceu na Ucrânia em 1948. Jornalista e escritora, publicou 5 livros e este é o primeiro a ser lançado no Brasil. Sua forma de escrita baseia-se nas histórias contadas por pessoas que ela entrevista, geralmente pessoas envolvidas em guerras: Segunda Guerra, invasão do Afeganistão e o acidente de Tchernóbil (vou escrever dessa forma seguindo a grafia adotada no livro), que ela nos mostra como uma guerra também, uma guerra terrível que matou (e ainda mata) milhares de pessoas na Bielorrússia e na Ucrânia principalmente. Em 2015, ela recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Este livro não é sobre Tchernóbil, mas sobre o mundo de Tchernóbil. Sobre o evento propriamente, já foram escritos milhares de páginas e filmados centenas de milhares de metros em película. Quanto a mim, eu me dedico ao que chamaria de história omitida, aos rastros imperceptíveis da nossa passagem pela Terra e pelo tempo. Escrevo os relatos da cotidianidade dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Tento captar a vida cotidiana da alma. A vida ordinária das pessoas comuns. Aqui, no entanto, nada é ordinário: nem as circunstâncias nem as pessoas que, obrigadas pelas circunstâncias, colonizaram esse novo espaço, vindo a assumir uma nova condição. (…)

Eu levei muitos anos escrevendo este livro. Quase vinte anos. Encontrei e conversei com ex-trabalhadores da central, cientistas, médicos, soldados, evacuados, residentes ilegais em zonas proibidas. (…)

Svetlana Aleksiévitch

Eu não sabia bem o que iria encontrar quando comecei a leitura. Não sabia antecipadamente que o livro reunia os depoimentos das pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas com Tchernóbil, seja diretamente, seja através de um familiar, como cientista ou alguém do governo. São inúmeras pessoas relatando suas histórias. E a narrativa de abertura é a da esposa de um bombeiro que foi acionado para apagar o fogo no reator logo após o acidente. E é chocante ler aquela história. A forma como os bombeiros acudiram para tentar conter o problema sem o mínimo de proteção. Tiveram queimaduras radioativas agudas e morreram todos eles em poucas semanas.

Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais o seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radioativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida. Recobre a sensatez.

Uma enfermeira para Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro falecido Vassíli Ignátienko

A primeira narrativa fez com que eu me envolvesse profundamente com o que seria contado. E não é difícil de imaginar… o total descaso os governantes e tudo sendo feito de forma a não despertar o pânico, mesmo causando danos irreparáveis aos moradores da região, adultos e crianças.

O acidente nuclear aconteceu em 1986. Eu tinha quase 15 anos. Uma adolescente no Brasil, com todos os problemas vividos por uma adolescente. Acho que eu não gostava de ler notícias naquela época. É claro que soube do desastre. Mas com certeza não me informei sobre tudo o que aconteceu; sobre a gravidade real do ocorrido. Nem mesmo sei se essas informações foram realmente divulgadas, porque, naquela época, o que existia era a União Soviética e toda a informação era controlada. Vivíamos a Guerra Fria. Tudo era controlado pelo Governo e fiscalizado pela KGB.

Eu ensino literatura russa para crianças que não são mais as mesmas de dez anos atrás. As de hoje assistem constantemente coisas e pessoas serem enterradas. Serem cobertas pela terra. Pessoas conhecidas. Casas, árvores. Tudo é enterrado. Quando fazem fila, essas crianças desmaiam, quando ficam em pé por quinze ou vinte minutos, vertem sangue pelo nariz. Não há nada que as surpreenda, que as alegre. Estão sempre sonolentas, cansadas. O rosto pálido, cinzento. Não brincam e também não brigam por nada.

Professora Nina Konstantínovna

Eu nunca tinha parado para olhar em um mapa onde fica Tchernóbil. A usina fica na Ucrânia bem próxima à fronteira com a Bielorrússia. Por causa do vento que espalhou a fumaça nuclear, esse último país foi o mais afetado.

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Houve um momento em que existiu o perigo de uma explosão nuclear, e então se impôs a necessidade de soltar a água de debaixo do reator. Para que o urânio e o grafite fundidos não caíssem ali dentro, onde, junto com a água, poderiam alcançar a massa crítica. E provocar, portanto, uma explosão de até três ou cinco megatons. Se isso ocorresse, não só pereceria a população de Kíev e de Minsk, mas a vida estaria comprometida numa zona gigantesca da Europa. Pode imaginar? Uma catástrofe europeia. Deram-lhes a seguinte missão: quem mergulharia naquela água e abriria o ferrolho da comporta, permitindo o desaguamento? Prometeram carro, apartamento, datcha e apoio aos familiares até o fim dos seus dias. Procuravam voluntários. E encontraram!

Serguei Vassílievitch Sóboliev, diretor da Associação Republicana “Escudo para Tchernóbil”

O livro não aborda as causas ou detalhes do acidente nuclear. Em vários depoimentos, há essa busca incessante pelos responsáveis e o desejo de justiça. As causas da tragédia nuclear ainda são motivo de discussão, alguns especialistas apontam erros humanos, enquanto outros avaliam erros no projeto; a razão mais aceita é a união das duas falhas. No dia da explosão estava agendado um procedimento de rotina no reator 4, ele seria desligado e os responsáveis aproveitaram para fazer um teste; um problema de resfriamento fez com que o teste terminasse de forma trágica. O acidente lançou 70 toneladas de urânio e 900 de grafite na atmosfera. Após a explosão, milhares de trabalhadores foram enviados ao local para combater as chamas e garantir o resfriamento do reator. Conhecidos como “liquidadores”, esses homens perderam a vida no combate ao incêndio. Na segunda etapa, para conter a radiação, trabalhadores sem equipamento adequado passaram seis meses construindo uma estrutura de isolamento, o “sarcófago”.

O alto nível de radiação afetou as regiões no entorno da usina, chegando a uma área de 100 mil km². A cidade que abrigava os trabalhadores de Tchernóbil era Prípiat, construída para essa função em 1970. A orientação para deixar as casas só veio 30 horas depois do acidente. Os habitantes tiveram 40 minutos para pegar os itens de maior necessidade e sair da cidade. Eles foram avisados que poderiam voltar em três dias. A área, porém, passou a fazer parte da zona de exclusão estabelecida no entorno da usina e Prípiat virou uma cidade fantasma.

Os soviéticos tentaram esconder o acidente, mas os níveis de radiação foram detectados em outros países. A primeira notícia sobre a explosão saiu no dia 29, na Alemanha, três dias depois do ocorrido. O governo soviético admitiu 15 mil mortes, enquanto organizações não governamentais calculam 80 mil. Segundo números oficiais, 2,4 milhões de ucranianos sofrem de problemas de saúde relacionados ao acidente.

Vivemos tempo demais atrás do arame farpado, no campo socialista. Temíamos o outro mundo, não o conhecíamos. As mães e os pais de Tchernóbil são outro tema. É a continuação da conversa sobre a nossa mentalidade, a mentalidade soviética. A União Soviética caiu, desmoronou. E continuavam esperando a ajuda do grande e poderoso país que havia deixado de existir. O meu diagnóstico… Você quer? Uma mistura de prisão e jardim de infância, isso é o socialismo que conhecemos. O socialismo soviético. O homem entregava ao Estado a alma, a consciência, o coração, e em troca recebia uma ração. Uns tinham mais sorte, recebiam uma ração maior, outros ganhavam uma ração menor. No final das contas, dava no mesmo, todos davam em troca a sua alma.

                                                                   Guenádi Gruchevói, deputado do Parlamento bielorrusso, diretor da Fundação para as Crianças de Tchernóbil

A maioria das pessoas envolvidas era de camponeses; pessoas simples que não acreditavam na radiação, já que ela não podia ser vista. E mesmo as pessoas mais instruídas acabavam se calando frente ao ocorrido.

Eu compreendi, não imediatamente, mas depois de alguns anos, que todos nós participamos… de um crime… (…)

O homem é pior do que eu pensava. E eu também me incluo nisso. Agora sei o que sou. Eu reconheço, certamente. É importante para mim mesma. (…)

Uma comissão os assina, eu estou nessa comissão, embora todos saibam que não se pode aprovar aquilo. É crime! No final das contas, encontrei uma justificativa para mim mesma: o problema da limpeza da forragem não é da competência do inspetor de proteção da natureza. Eu sou de pouca importância. O que posso fazer?

Cada um encontrava uma justificativa. Alguma explicação. Eu fiz a experiência comigo mesma. E, numa palavra, compreendi que na vida as coisas mais terríveis ocorrem em silêncio e de forma natural.

Zóia Danílovna Bruk, inspetora do Serviço para Proteção da Natureza

Além de todo o desastre, das milhares de mortes e de tantas pessoas ainda sofrendo as consequências do acidente, mesmo após 30 anos, há quem pague para viver a emoção de conhecer a zona do acidente… pague para se submeter à radiação e ver de perto tudo aquilo. Há uma empresa que organiza excursões para a região de Prípiat, para a cidade fantasma. Achei isso bastante triste.

A guerra deveria ser mostrada como algo tão pavoroso que provocasse vômitos nas pessoas. Que pusesse as pessoas doentes. Ela não é um espetáculo.

Eu tenho medo. Tenho medo de uma coisa: de que o medo ocupe na nossa vida o lugar do amor.

                                                    Lília Mikháilovna Kuzmenkova, professora da Escola de Arte e Cultura de Moguilióv e diretora de teatro

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2 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Eu considero esse livro um retrato fiel do que aconteceu, é uma das leituras que me deixou triste e preocupado. Temo que em algum momento devemos dar abrigo a milhões de pessoas por causa da radiação. Acho que o seu é um grande resumo. Muita literatura foi feita naqueles dias sobre a coincidência com o Apocalipse 8.11. Porque parece que Chernobyl significa absinto. Um abraço.

    • É isso mesmo, Carlos…
      Você já tinha me indicado essa escritora, mas não tínhamos nenhum livro dela disponível no Brasil. Esse foi o primeiro publicado aqui. Imagino que os próximos deverão sair na sequência.
      Eu fico muito triste quando vejo o descaso dos governantes com as pessoas; o dinheiro, o poder, tudo fica na frente do cuidado com as pessoas, que deveria ser a prioridade.
      Um grande abraço!

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