Now reading

Livro “Um sopro de vida” de Clarice Lispector

Livro “Um sopro de vida” de Clarice Lispector
Livro “Um sopro de vida” de Clarice Lispector

Primeira publicação: 1978

Editora: Rocco (1999) – 160 páginas

ISBN13: 9788532509482

Sinopse: Quando a escritora Clarice Lispector terminou “Um sopro de vida”, às vésperas de sua morte, por câncer, em 1977, sabia que este seria o seu livro definitivo. O livro era de fato o sopro de vida de Clarice, que precisava escrever para se sentir viva. Na história, ela fala de um homem aflito que criou uma personagem, Ângela Pralini, seu alter-ego. Mas ora ele não se reconhecia em Ângela, porque ela era o seu avesso, ora odiava visceralmente o que via refletido naquela estranha personagem-espelho. O autor elabora Ângela Pralini, mas ela toma vida própria, surpreendendo e revoltando seu criador com suas diferenças. Um processo de criação, uma relação em que Clarice Lispector revela os conflitos de um autor com seus próprios impulsos e o quanto é doloroso aceitá-los e deixá-los fluir. Ainda que estes impulsos se realizem através de uma personagem, Ângela Pralini, criada para libertar o autor de seus fantasmas, cumpre o destino de ser o sopro de vida de um escritor. A questão da vida e da morte atormenta este autor criado por Clarice em seus últimos momentos de vida: “Se me perguntarem se existe vida além da morte… respondo num hesitante esquema: existe mas não é dado saber de que forma essa alma viverá… Vida, vida recoberta em um véu de melancolia. Morte: farol que me guia em rumo certo. Sinto-me magnífico e solitário entre a vida e a morte”, diz o autor, ao qual responde a personagem Ângela Pralini: “Na hora de minha morte – que é que eu faço? Me ensinem como é que se morre. Eu não sei.” Ao longo destes impulsos de vida e de morte que resultaram em “Um sopro de vida”, o livro definitivo, Clarice Lispector escreveu a sua última obra publicada, “A hora da estrela”, transformada em premiado filme pela diretora Suzana Amaral.

 

Clarice Lispector era uma escritora e jornalista, aclamada internacionalmente por seus romances inovadores e histórias curtas. Nascida em uma família judaica na Ucrânia, ela veio com a família para o Brasil ainda pequena, após a Primeira Guerra Mundial.

Ela cresceu no Recife, onde sua mãe morreu quando ela tinha nove anos. A família se mudou para o Rio de Janeiro, quando ela era adolescente. Enquanto na faculdade de Direito no Rio, ela começou a publicar suas primeiras histórias curtas, alcançando a fama ainda jovem com a publicação de seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, escrito como um monólogo interior de estilo e linguagem únicos.

Ela deixou o Brasil em 1944, após seu casamento com um diplomata, e passou a próxima década e meia na Europa e nos Estados Unidos. Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1959, ela começou a produzir suas obras mais famosas, incluindo as histórias de Laços de Família, o grande romance místico A Paixão Segundo G. H., e a novela Água Viva, considerada por muitos como sua obra-prima.

Em 1966, feriu-se em um acidente em casa (dormiu com um cigarro aceso, que incendiou seu quarto e causou queimaduras graves na escritora) e passou a última década de sua vida com dores importantes e um quadro depressivo. Morreu aos 57 anos por um câncer de ovário.

Sempre que leio os livros de Clarice Lispector, tenho a impressão de que eles falam diretamente com a minha alma.

Eu queria ter a mesma capacidade que ela tem de lidar com as palavras. Mas, como não tenho, vou transcrever aqui as colocações do Professor João Cezar de Castro Rocha, professor de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro:

“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.” Com essas palavras, Clarice Lispector convida o leitor para uma viagem única. Um sopro de vida A hora da estrela foram escritos simultaneamente, movidos pela mesma pergunta. “Estou com a impressão de que ando me imitando um pouco. O pior plágio é o que se faz de si mesmo.” Questionamento agravado pela constatação: “E há também os meus imitadores (…) algumas pessoas que tiveram o mau gosto de serem eu.” Entre elas, os críticos são os que com maior impertinência e constância tentam imitá-la, reduplicando, em suas análises, a ambiguidade radical atribuída à pessoa Clarice Lispector. Com isso, seus livros se transformam sempre num mergulho no infinito de uma identidade à deriva. Um sopro de vida (e A hora da estrela) deveria(m) ter encerrado essa monótona romaria. Por que não imaginar que a pessoa Clarice foi pretexto para que a persona da escritora, em sua pluralidade, pudesse triunfar?

Hipótese que corresponde à convocação: “Se alguém me ler será por conta própria e autorrisco.” E, correndo riscos, Um sopro de vida sugere instigante paralelo. Em 1914, Miguel de Unamuno publicou Niebla, desconcertante romance no qual o protagonista, Augusto Pérez, resolve virar autor de seu destino. Em Um sopro de vida, Clarice imagina uma personagem, Ângela Pralini, através da qual dialoga consigo mesma e, sobretudo, ensaia afastar-se de seu estilo. Isto é, afastar-se de si mesma para evitar o “pior plágio”. E, bem ao contrário de Unamuno – que mantém Augusto Pérez em rédeas curtas -, Clarice é transformada pelo contato com Ângela Pralini. Claro que, em A hora da estrela, a personagem Macabéa levará esse gesto ao extremo.

“Estamos à beira de uma eclosão. À beira de conhecer a nós mesmos. À beira do ano 2000.” Palavras escritas, não esqueçamos, em 1977. Para conhecer sua rara força e atualidade, precisamos inventar novas leituras dos textos de Clarice Lispector. Atitude que provavelmente agradaria a quem propôs: “Escrever é uma indagação. É assim: ?”

Este texto do Professor João Cézar de Castro Rocha consta da edição da Rocco de 1999. Como não há mais nada que eu possa acrescentar depois de uma colocação como essa, vou deixar apenas alguns trechos maravilhosos do livro.

Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.

A prova de que estou recuperando a saúde mental, é que estou cada minuto mais permissiva: eu me permito mais liberdade e mais experiências. E aceito o acaso. Anseio pelo que ainda não experimentei. Maior espaço psíquico. Estou felizmente mais doida. E minha ignorância aumenta. A diferença entre o doido e o não doido é que o não doido não diz nem faz as coisas que pensa. Será que a polícia me pega? Me pega porque existo? paga-se com prisão a vida: palavra linda, orgânica, sestrosa, pleonástica, espérmica, duróbila.

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.

Todo o mundo que aprendeu a ler e escrever tem uma certa vontade de escrever. É legítimo: todo o ser tem algo a dizer. Mas é preciso mais do que a vontade de escrever. Ângela diz, como milhares de pessoas dizem (e com razão): “minha vida é um verdadeiro romance, se eu escrevesse contando ninguém acreditaria”. E é verdade. A vida de cada pessoa é passível de um aprofundamento doloroso e a vida de cada pessoa é “inacreditável”. O que devem fazer essas pessoas? O que Ângela faz: escrever sem nenhum compromisso. Às vezes escrever uma só linha basta para salvar o próprio coração.

Rezo para achar o meu verdadeiro caminho. Mas descobri que não me entrego totalmente à prece, parece-me que sei que o verdadeiro caminho é com dor. Há uma lei secreta e para mim incompreensível: só através do sofrimento se encontra a felicidade. Tenho medo de mim pois sou sempre apta a poder sofrer. Se eu não me amar estarei perdida – porque ninguém me ama a ponto de ser eu, de me ser. Tenho que me querer para dar alguma coisa a mim. Tenho que valer alguma coisa? Oh protegei-me de mim mesma, que me persigo. Valho qualquer coisa em relação aos outros – mas em relação a mim, sou nada.

Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angústia amordaçante: assusto-me.

São tão medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que não têm pudor, as leis a obedecer, o assassinato – tudo isso me dá vertigem como há pessoas que desmaiam ao ver sangue (…). Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do espírito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo interminável da eternidade, abismo através do qual me comunico fantasmagórica com Deus.

(…)

Tem sentido correr tanto atrás da felicidade, será que basta ser feliz? Será que ser feliz é um estado de tolerância?

Depois que vivo é que sei que vivi. Na hora o viver me escapa. Sou uma lembrança de mim mesma. Só depois de “morrer” é que vejo que vivi. Eu me escapo de mim mesma. Às vezes eu me apresso em acabar um episódio íntimo de vida, para poder captá-lo em recordações, e para, mais do que ter vivido, viver. Um viver que já foi. Deglutido por mim e fazendo agora parte de meu sangue.

Estou cheio de recordações e tudo o que já é passado tem um toque de melancolia dolorida.

Que faço de tantas lembranças – senão enfim morrer.

Estarei viva na próxima copa do mundo? Espero que não, meu Deus, a morte me chama, toda atraente e toda bela. Oh morte por que não me respondes? eu te chamo todos os dias. Fui feita para morrer.

(…)

Mas é capaz de eu nunca morrer. É capaz de eu ser eterna e tu também, meu amor. Serei eterna depois de minha morte? Ou sou apenas instantânea?

Eu sou essencialmente uma contraditória.

Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

 

Written by

5 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Sílvia Olá, esta revisão contém um número impressionante de vitais pesamientos, profundos, levantam questões fundamentais para uma pessoa sensível. Eu não li nenhum trabalho desta autora, eu vou manter em mente para futura seleção. Muito obrigado. Um abraço.

    • Olá, Carlos!
      Não sei como são as traduções dos livros da Carice Lispector para o espanhol. Mas posso assegurar que é uma das melhores escritoras brasileiras.
      Beijo!

      • Carlos Moya disse:

        Olá Silvia, eu acho que são boas traduções, pois há muita pessoas bilíngües em ambos lados da fronteira hispano-portuguesa aqui ainda mantemos o nome antigo de Portugal, Lusitania ou terra de luz. Embora graças a você acho que eu posso ler em Português, sem grandes dificuldades e tenho boas relações com a asociaçào de alfarrabistas. Um beijo

Instagram
  • #albertcamus #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #lamatseringeverest #citações #budismo #reflexõesdesilviasouza
  • #honorédebalzac #citações #trechosliterarios #amulherdetrintaanos #reflexõesdesilviasouza
  • #edmundburke #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #rubemalves #citações #reflexõesdesilviasouza