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Livro “Terra dos Homens” de Antoine de Saint-Exupéry

Livro “Terra dos Homens” de Antoine de Saint-Exupéry
Livro “Terra dos Homens” de Antoine de Saint-Exupéry

Título Original: Terre des hommes

Primeira Publicação: 1939

Tradutor: Rubem Braga

Editora: Nova Fronteira (15-04-2015)

ISBN13: 9788520940297

Prêmio: Grand Prix du Roman de l’Académie française (1939)

Sinopse: Em ‘Terra dos homens’, o autor relata suas memórias de piloto do correio aéreo francês entre 1926 e 1935, assim como suas primeiras aspirações na profissão e seu convívio com outros pilotos e amigos. Sem um fio narrativo definido, Exupéry utiliza passagens de sua experiência para dar suas impressões sobre o mundo, que se acostumou a ver do alto.

Esse foi mais uma leitura compartilhada com a Laynne do Blog Meu Espaço Literário. A Laynne se tornou uma grande amiga e essas trocas de leitura têm sido enriquecedoras.

Antoine de Saint-Exupéry é conhecido até os dias de hoje pela obra ‘O Pequeno Príncipe’. Era um piloto francês, trabalhando no serviço do correio. Nesse livro, ele conta um pouco sobre suas experiências, os riscos da profissão, seu aprendizado… tudo isso em uma época em que a tecnologia estava começando a ser desenvolvida e os voos dependiam da localização visual dos pilotos e copilotos. É algo até difícil de imaginar.

Embora eu não tenha pesquisado sobre a biografia do autor em detalhes, imagino que ele deve ter sofrido vários acidentes aéreos. Consta que quando ele se alistou para combater na Segunda Guerra com a Aeronáutica Francesa, ele sofria de muitas dores devido a inúmeras fraturas.

É um livro curto, quase na forma de um diário, sem conexão entre os capítulos. Em cada capítulo ele aborda um tema ou uma narrativa, pessoal ou envolvendo outros pilotos que trabalhavam com ele:

  1. A linha
  2. Os companheiros
  3. O avião
  4. O avião e o planeta
  5. Oásis
  6. No deserto
  7. No centro do deserto
  8. Os homens

Inicialmente, ele descreve um pouco do seu aprendizado, mas não no sentido técnico de saber manejar os equipamentos de um avião. Ele conta como aprendeu a evitar as montanhas, os locais perigosos, onde procurar ajuda se houvesse um acidente.

Descreve bem o que era olhar o mundo de cima, na visão do piloto de avião. E conta em maiores detalhes sobre o norte da África, em especial o deserto do Saara.

As duas narrativas que mais me surpreenderam e aumentaram um pouco minha angústia foram: de um acidente com um grande amigo dele na Cordilheira dos Andes e a descrição de como ele conseguiu sobreviver caminhando por dias em meio ao gelo, sem comida e sem ajuda; de um acidente envolvendo o próprio autor, dessa vez no deserto, sem saber com precisão sua localização, sem ter como pedir ajuda e sem saber em que direção caminhar. Esse último acidente mantém uma tensão constante. É interessante, porque sabemos que ele saiu com vida da experiência, mas são páginas e páginas tentando imaginar como isso aconteceu, já que tudo indicava que o desfecho não seria favorável.

É muito interessante ler as descrições até como uma forma de compreensão histórica de um momento ainda tão rudimentar perto do que temos hoje em dia, do ponto de vista tecnológico. Por outro lado, há trechos que parecem tão atuais, como se ele estivesse descrevendo nossa sociedade de hoje em dia.

Mas há alguns pontos negativos da narrativa, que eu, particularmente, senti. São momentos em que ele demonstra seu pensamento de país colonizador, como se fosse detentor das verdades e do conhecimento absoluto. Há um trecho em que descreve uma família do Paraguai, que o hospedou, e narra como se fossem seres exóticos, ainda não completamente civilizados.

Também narra, com muita passividade, sobre os homens que eram capturados pelos árabes e feitos de escravos até o momento em que não pudessem mais trabalhar e eram deixados para morrer nas areias do deserto. Essas descrições revoltaram-me. Talvez não houvesse nada que ele pudesse fazer realmente. Mas poderia demonstrar sua indignação na escrita, coisa que não senti.

Gostei da leitura. Achei que foi válida e interessante. Mas houve esses pequenos momentos que me causaram desconforto, acho que pelo fato de eu detestar qualquer tipo de injustiça ou subjugação.

Algumas citações do livro:

Trabalhando só pelos bens materiais, construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda de cinzas que não pode ser trocada por coisa alguma que valha a pena viver.

Ser homem é precisamente ser responsável. É experimentar vergonha em face de uma miséria que não parece depender de si. É ter orgulho de uma vitória dos companheiros. É sentir, colocando a sua pedra, que contribui para construir o mundo.

Querem confundir homens assim com os toureiros e os jogadores. Gaba-se o seu desprezo da morte. Mas eu dou bem pequena importância ao desprezo da morte. Se ele não tem suas raízes em uma responsabilidade aceita é apenas sinal de pobreza ou excesso de mocidade.

Se às vezes julgamos que a máquina domina o homem é talvez porque ainda não temos perspectiva bastante para julgar os efeitos de transformações tão rápidas como essas que sofremos.

Tudo mudou tão depressa em volta de nós: relações humanas, condições de trabalho, costumes… Até mesmo a nossa psicologia foi subvertida em suas bases mais íntimas. As noções de separação, ausência, distância, regresso são realidades diferentes no seio de palavras que permaneceram as mesmas. Para apreender o mundo de hoje, usamos uma linguagem que foi feita para o mundo de ontem. E a vida do passado parece corresponder melhor à nossa natureza apenas porque corresponde melhor à nossa linguagem.

Aqueles homens jamais haviam visto, antes, uma árvore, ou uma fonte ou uma rosa. Só através do Alcorão conheciam a existência de jardins em que murmuram regatos, pois assim é chamado o Paraíso. Esse paraíso e suas belas cativas é ganho pela morte amarga sobre a areia, a um tiro de fuzil de um infiel, depois de trinta anos de miséria.

Água, água que vale seu peso em ouro; água, cuja menor gota tira da areia a centelha verde de uma folha… Quando chove em algum lugar, um grande êxodo anima o Saara.

Um dia, entretanto, ele será libertado. Quando estiver demasiado velho para valer sua alimentação e suas roupas. Então lhe será concedida uma completa liberdade. Durante três dias, ele se oferecerá em vão de tenda em tenda, cada dia mais fraco. E no fim do terceiro dia, sempre bem-comportado, ele se deitará na areia. Eu os vi assim, em Juby, morrer nus. Os mouros assistiam à sua longa agonia, mas sem crueldade. E os meninos mouros brincavam ali, perto daquele escuro trapo humano, e toda manhã iam ver se ele ainda se mexia, mas sem se rirem do velho servidor. Aquilo estava na ordem natural das coisas. Era como se lhe houvessem dito: “Você trabalhou bastante, tem direito ao sono, vá dormir.” Sempre estendido no chão, ele sentia a fome, que é apenas uma vertigem, mas não a injustiça, que, esta sim, é um tormento. Secado pelo sol, recebido pela terra. Trinta anos de trabalho, e, depois, o direito ao sono e à terra.

– Sílvia Souza

 

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4 Comments
  • Laynne Cris Andrade disse:

    É sempre uma honra a partilha que temos. Tenho gostado e aproveitado muito mais de uma leitura.

    Ficou excelente… Adorei suas explanações. Não saberia fazer melhor!

  • Também acho muito bom… Acho que fica mais fácil abrir o horizonte e mudar o olhar sobre o livro…
    Vou lá ler a sua publicação…
    Beijo!

    • Laynne Cris Andrade disse:

      Adorei a sua crítica a visão de homem colonizador. Não teria visto dessa maneira sem seus comentários. Obrigada de coração por essa nossa partilha tão rica!

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