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Livro “Teoria Geral do Esquecimento” de José Eduardo Agualusa

Livro “Teoria Geral do Esquecimento” de José Eduardo Agualusa
Livro “Teoria Geral do Esquecimento” de José Eduardo Agualusa

Primeira publicação: 2012

Editora: D. Quixote (20/04/2012) – 237 páginas – Edição Kindle

ASIN: B009CYA9WO

Sinopse: Luanda, 1975, véspera da Independência. Uma mulher portuguesa, aterrorizada com a evolução dos acontecimentos, ergue uma parede separando o seu apartamento do restante edifício – do resto do mundo. Durante quase trinta anos sobreviverá a custo, como uma náufraga numa ilha deserta, vendo, em redor, Luanda crescer, exultar, sofrer. Teoria Geral do Esquecimento é um romance sobre o medo do outro, o absurdo do racismo e da xenofobia, sobre o amor e a redenção.

 

José Eduardo Agualusa nasceu em Huambo, Angola, em 13 de dezembro de 1960. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa, Portugal. Os seus livros estão traduzidos em 25 idiomas. Escreveu várias peças de teatro: “Geração W”, “Aquela Mulher”, “Chovem amores na Rua do Matador” e “A Caixa Preta”, estas duas últimas juntamente com Mia Couto. Beneficiou-se de três bolsas de criação literária: a primeira, concedida pelo Centro Nacional de Cultura, em 1997, para escrever “Nação crioula”, a segunda em 2000, concedida pela Fundação Oriente, que lhe permitiu visitar Goa durante 3 meses e na sequência da qual escreveu “Um estranho em Goa” e a terceira em 2001, concedida pela instituição alemã Deutscher Akademischer Austauschdienst. Graças a esta bolsa viveu um ano em Berlim, e foi lá que escreveu “O Ano em que Zumbi Tomou o Rio”. No início de 2009 a convite da Fundação Holandesa para a Literatura, passou dois meses em Amsterdã na Residência para Escritores, onde acabou de escrever o romance, “Barroco tropical”. Escreve crônicas para o jornal brasileiro O Globo, a revista LER e o portal Rede Angola. Realiza para a RDP África “A hora das Cigarras”, um programa de música e textos africanos. É membro da União dos Escritores Angolanos.

 

Li, recentemente, o livro “Mayombe” do escritor angolano Pepetela. Foi um livro delicioso de ler, contando um pouco sobre o movimento de libertação do país.

Não me lembro exatamente como cheguei ao nome do escritor José Eduardo Agualusa. Acho que li algumas citações ou trechos de seus livros e fiquei encantada. Resolvi escolher algum para conhecer mais sobre sua obra. O primeiro que comprei foi este, “Teoria Geral do Esquecimento”. Não tinha lido a sinopse nem nenhuma crítica ou avaliação previamente ao início da leitura.

O livro é curto. E a leitura é muito rápida; até porque não queremos parar de ler até saber o desenrolar dos acontecimentos.

Logo no início, ele coloca uma notícia, como se fosse de fato extraída de um jornal, falando sobre a morte de uma mulher que teria vivido mais de trinta anos emparedada em seu apartamento, em um prédio de luxo em Angola. Cheguei a procurar se a notícia se referia a uma história real. Mas não era.

NOTA PRÉVIA

Ludovica Fernandes Mano faleceu em Luanda, na clínica Sagrada Esperança, às primeiras horas do dia 5 de outubro de 2010. Contava 85 anos. Sabalu Estevão Capitango ofereceu-me cópias de dez cadernos nos quais Ludo foi escrevendo o seu diário, durante os primeiros anos dos 28 em que se manteve enclausurada. Tive igualmente acesso aos diários posteriores ao seu resgate e ainda a uma vasta coleção de fotografias, da autoria do artista plástico Sacramento Neto (Sakro), sobre os textos e desenhos a carvão de Ludo nas paredes do apartamento. Os diários, poemas e reflexões de Ludo ajudaram-me a reconstruir o drama que viveu. Ajudaram-me, creio, a compreendê-la. Nas páginas seguintes aproveito muitos dos testemunhos dela.

É assim que o livro tem início.

No final, o escritor José Eduardo Agualusa conta como surgiu a ideia para este livro:

Numa tarde já distante de janeiro de 2005, o cineasta Jorge António desafiou-me a escrever o roteiro de uma longa-metragem de ficção a filmar em Angola. Contei-lhe a história de uma portuguesa que se autoemparedou em 1975, dias antes da Independência, aterrorizada com o evoluir dos acontecimentos. O entusiasmo de Jorge levou-me a escrever o roteiro. Embora o filme tenha ficado pelo caminho, foi a partir daquela estrutura original que cheguei ao presente romance. Para escrever os capítulos sobre os kuvale encontrei alguma inspiração nos poemas de Ruy Duarte de Carvalho, e ainda num dos seus mais brilhantes ensaios: Aviso à navegação — olhar sucinto e preliminar sobre os pastores kuvale.

Ludovica (ou Ludo) é uma portuguesa que acabou se mudando para Angola quando a irmã se casou com um homem muito rico, metade português e metade angolano, e que vivia em Luanda. Ludo tinha medo de tudo e praticamente não saia de casa. Apenas ao longo da história descobrimos os motivos desse seu jeito de ser.

A revolução que deu origem à libertação de Angola estava prestes a acontecer e o cunhado estava com tudo programado para que os três fossem embora do país quando, na véspera, sua irmã e seu cunhado desaparecem e Ludo fica sozinha exatamente quando a revolução acontece.

Por medo, ela acaba fechando seu apartamento, ao construir um muro no corredor do prédio em que morava. Como o prédio era muito grande e luxuoso e foi tomado por pessoas do povo, ninguém sabia que deveria haver outro apartamento ali. E ela vai vivendo com pouca comida, por mais de trinta anos.

A narrativa explica a forma como vivia e o que aconteceu para que ela fosse descoberta e reintegrada à nova sociedade que tinha surgido.

É uma história deliciosa de se ler. A vontade é de ler do início ao fim, sem interrupção. E o livro tem a enorme vantagem de nos apresentar um pouco sobre a cultura angolana, seus mitos e, até mesmo, sua culinária. E o Brasil aparece também já que nossa cultura está tão entrelaçada tanto com a portuguesa quanto com a africana.

Na história, são muitos exemplos de bondade, compaixão, ajuda, partindo das pessoas mais improváveis. O arrependimento do ser humano, o desejo de pedir desculpas pelos erros cometidos e o encontro final do perdão sincero.

Deixo aqui algumas citações extraídas do livro.

Se, dormindo, sonhamos dormir, podemos, despertos, acordar dentro de uma realidade mais lúcida?

Todos podemos, ao longo de uma vida, conhecer várias existências. Eventualmente, desistências.

Doía-lhe na alma, como num órgão por onde circulasse sangue, o descalabro do país.

Pode levar muito tempo até a confusão passar. Vai passar, camarada. A maldade também precisa descansar.

Erro, ao ler, e no erro, por vezes, encontro incríveis acertos. No erro me encontro muito.

Afundo-me nos meus próprios sonhos. Talvez a isto se possa chamar morrer.

A morte gira ao meu redor, mostra os dentes, rosna. Ajoelho-me e ofereço-lhe a garganta nua. Vem, vem, vem agora, amiga. Morde. Deixa-me partir. Ah, hoje vieste e esqueceste-te de mim.

Parece-me mais fácil ter fé em Deus, não obstante ser algo tão para além da nossa limitadíssima compreensão, do que na infeliz humanidade. Durante muitos anos, afirmei-me crente por pura preguiça. Ser-me-ia difícil explicar a Odete, a todos os outros, a minha descrença. Também não acreditava nos homens, mas isso as pessoas aceitam com facilidade. Compreendi ao longo dos últimos anos que, para acreditar em Deus, é forçoso confiar na humanidade. Não existe Deus sem humanidade.

Continuo a não acreditar, nem em Deus, nem na humanidade.

Enfim, a uma liberdade relativa, já que, como o próprio Pequeno Soba gosta de repetir, nenhum homem é livre enquanto outro estiver aprisionado.

Deus pesa as almas numa balança. Num dos pratos fica a alma, no outro as lágrimas dos que a choraram. Se ninguém a chorou, a alma desce para o inferno. Se as lágrimas forem suficientes, e suficientemente sentidas, ascende para o céu. Ludo acreditava nisto. Ou gostaria de acreditar.

Vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros. Isto era o que me contava a minha avó.

Não se atormente mais. Os erros nos corrigem. Talvez seja necessário esquecer. Devíamos praticar o esquecimento.

Escrevo para quem fui. Talvez aquela que deixei um dia persista ainda, em pé e parada e fúnebre, num desvão do tempo — numa curva, numa encruzilhada — e de alguma forma misteriosa consiga ler as linhas que aqui vou traçando, sem as ver. Ludo, querida: sou feliz agora. Cega, vejo melhor do que tu. Choro pela tua cegueira, pela tua infinita estupidez. Teria sido tão fácil abrires a porta, tão fácil saíres para a rua e abraçares a vida. Vejo-te a espreitar pelas janelas, aterrorizada, como uma criança que se debruça sobre a cama, na expectativa de monstros.

 

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