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Livro “Sexo no cativeiro” de Esther Perel

Livro “Sexo no cativeiro” de Esther Perel
Livro “Sexo no cativeiro” de Esther Perel

Título original: Mating in Captivity – Reconciling the Erotic + The Domestic

Primeira publicação: 2006

Editora: Objetiva – Ponto de leitura (2009) – 319 páginas

Tradutora: Adalgisa Campos da Silva

ISBN13: 9788539000197

Sinopse: O sexo nem sempre segue as regras da boa cidadania. É politicamente incorreto. Se alimenta de jogos de poder e do espaço entre o eu e o outro. Sexo mais excitante, divertido e até poético é possível, mas é preciso expulsar do quarto ideais igualitários e a dinâmica emocional do cotidiano. Em seus vinte anos de experiência, Esther Perel tratou de centenas de casais cujas vidas conjugais eram desprovidas de paixão. Esses casais descreviam relacionamentos amorosos, mas sexualmente sem graça. Qual o motivo desse empobrecimento da vida conjugal? Nest livro, publicado em mais de 25 idiomas, Perel explica que nossa propensão cultural à igualdade, à camaradagem e à franqueza pode ser a negação do desejo erótico para homens e mulheres. O reino doméstico pode parecer uma prisão, mas a visão de Perel sobre a dinâmica da cama é de uma originalidade explosiva e promete liberar, encantar e provocar. Com um olhar livre sobre a vida erótica e a domesticidade, ela vai ao X da questão do sexo.

 

Esther Perel é terapeuta familiar e de casais, com consultório em Nova York. Nascida em 1958 na Bélgica, Perel viveu em Israel e na Inglaterra, antes de se mudar para Nova York, onde mora com o marido e dois filhos. Em 2009, “Sexo no cativeiro” ganhou o prêmio da Society for Sex Therapy Research.

 

Fui atrás desse livro depois de ter visto uma palestra de Esther Perel no TED, cujo vídeo está abaixo, caso alguém tenha interesse. Gostei muito da palestra; apesar do assunto polêmico, ela soube abordá-lo muito bem, sem julgamentos, sem chegar a uma conclusão de certo ou errado, apenas avaliando os relacionamentos e o que leva à infidelidade.

 

 

Comprei o livro há bastante tempo, mas ele não entrava nunca nas minhas prioridades de leitura. Acabei dedicando um tempo a ele recentemente.

O livro não aborda o mesmo tema da palestra. Ele fala de relacionamentos de forma geral e da forma como o sexo se insere neles. Ao contrário do que possa parecer, ela não acha que o sexo seja absolutamente essencial para a felicidade do casal. Mas ela diz que passa a haver um problema quando ocorre um descompasso entre os desejos de cada um dos envolvidos no relacionamento.

A família, a comunidade e a religião podem de fato ter limitado nossa liberdade, sexual e de qualquer outro tipo, mas, em compensação, ofereceram-nos um sentimento de pertencimento muito necessário. Por gerações, essas instituições tradicionais proporcionaram ordem, significação, continuidade e apoio social. Sua desestruturação nos deixou com mais opções e menos restrições do que nunca. Somos mais livres, mas também mais sós. (…)

Levamos para nossas relações amorosas essa ansiedade sem causa aparente. Do amor, espera-se que, além de fornecer apoio emocional, compaixão e companheirismo, seja uma panaceia para a solidão existencial. Olhamos nosso parceiro como uma muralha de proteção contra as vicissitudes da vida moderna. Não é que nossa insegurança humana seja maior hoje que antigamente. Aliás, talvez seja o contrário. O que é diferente é que a vida moderna nos privou de nossos recursos tradicionais e criou uma situação em que nos voltamos para uma única pessoa para obter a proteção e as ligações emocionais antes fornecidas por uma quantidade de redes sociais. A intimidade adulta ficou sobrecarregada de expectativas.

O livro se baseia em sua experiência como terapeuta, citando casos de casais que ela atendeu e como abordou os problemas mencionados nas sessões de terapia. Ela cita casais de namorados, ainda com pouca vivência conjunta, casais mais antigos, de 30 ou mais anos de casados, casais homossexuais… dessa forma, ela mostra que todos podem vivenciar esse descompasso do desejo sexual ao longo do relacionamento.

Os filósofos orientais sabem há muito tempo que a impermanência é a única constante. Dada a natureza transitória da vida, dado seu fluxo incessante, há uma certa arrogância na suposição de que podemos tornar nossos relacionamentos permanentes, e que a segurança pode de fato ser comprada.

O livro é interessante e existem algumas colocações muito boas e muito verdadeiras que ela faz sobre a vida do casal em diferentes momentos (transcrevi os trechos que gostei mais). Mas não é um livro absolutamente essencial, até porque não achei que tenha contado algo que já não saibamos, mesmo quando não falamos a respeito. E a verdade é que cada relacionamento tem suas particularidades e é muito difícil se basear apenas em exemplos de livros para corrigir aquilo que não está indo bem.

O amor gosta de saber tudo sobre você; o desejo precisa de mistério. O amor gosta de encurtar a distância que existe entre mim e você, enquanto o desejo é energizado por ela. Se a intimidade cresce com a repetição e a familiaridade, o erotismo se embota com a repetição. O erotismo gosta de mistério, novidade, surpresa. Amor tem a ver com ter; desejo, com querer. Sendo uma manifestação de anseio, o desejo exige uma intangibilidade constante. Está menos interessado em onde já esteve do que para onde ainda pode ir. Mas, muitas vezes, quando se acomodam nos confortos do amor, os casais deixam de abanar a chama do desejo. Esquecem-se de que fogo precisa de oxigênio.

Um trecho do livro que me chamou a atenção e me chocou um pouco é quando ela conta sobre a filha de uma conhecida, uma universitária com quem vai conversar. A moça era uma excelente aluna de uma das grandes universidades americanas e conta que não tem tempo de namorar. Então, ela e todos os colegas da universidade procuram sexo sem compromisso uns com os outros nos finais de semana, regado a muita bebida alcoólica, para que não se lembrem dos detalhes. A autora faz uma crítica severa a esse tipo de comportamento, sem qualquer envolvimento emocional e que nem pode ser julgado como sendo apenas realizado pelo prazer, porque eles simplesmente bebem para apenas ter a relação sexual. É algo quase animal, no meu ponto de vista, mas sem nenhum propósito. Transcrevi abaixo uma pequena parte das colocações da estudante:

– Não temos muito tempo para namorar. Então a solução é a ficada de sábado ou domingo. Você vai a uma festa ou a um bar; todo mundo toma um porre. E todo mundo pega alguém. E já está tudo acabado segunda-feira, depois de todos contarem suas ficadas no almoço. “Ficar” é um termo amplo que cobre tudo, desde um simples amasso até sexo oral ou sexo com tudo a que se tem direito. (…) Há uma tentativa deliberada de não deixar as emoções entrarem no sexo, e não só para os garotos. (…) Compromisso significa sacrificar seus próprios objetivos e ambições por algo que não se pode controlar e em que se corre o risco de fracassar. Pelo menos é assim que pensamos nisso agora. Os relacionamentos íntimos são uma perda de independência. Ao deixar outra pessoa entrar em sua vida, romanticamente, você fica com menos espaço para si mesma.

A autora faz muitas críticas a este comportamento. Transcrevi um trecho em que fala sobre a forma como os jovens entendem o sexo antes e depois do casamento hoje em dia.

Consideram sexo antes do casamento e sexo depois do casamento duas realidades completamente distintas. Não se supõe que a vida de solteiro vá preparar você para a vida sexual de casado. Aquela é vista até como a gandaia final antes do declínio inevitável.

Fiquei imaginando qual será o futuro destes jovens do ponto de vista emocional. Eles serão capazes de construir relacionamentos baseados em troca e confiança? Não me parece e isso é muito preocupante. Vamos cada vez mais construindo sociedades sem vínculos, onde cada um quer viver apenas para si mesmo. Será que este tipo de comportamento acontece apenas nos Estados Unidos? Ou será algo disseminado por outros países? Meus filhos não estão nessa idade ainda, mas me preocupa.

Um saudável sentimento de que se tem direito ao erotismo baseia-se numa atitude relaxada, generosa e livre em relação aos prazeres do corpo – algo com que a nossa cultura puritana continua brigando.

O melhor tipo de contato sexual é aquele que acontece entre pessoas que se conhecem e têm uma grande intimidade e uma relação de entrega sem receios. Como construir algo assim com contatos superficiais e egoístas? E mesmo quando duas pessoas se amam profundamente, construir uma família com filhos implica em abrir mão de muitas coisas. Os jovens serão capazes de construir famílias saudáveis?

Abaixo, transcrevi um trecho que fala sobre os filhos e como eles interferem na relação:

Ter um filho é uma revolução psicológica que muda nossa relação com quase tudo e todos, desde nossa noção de identidade a nossas relações com parceiros, amigos, pais e parentes afins. Nossos corpos se transformam. Nossas finanças e nossas vidas profissionais também. As prioridades mudam, os papeis são redefinidos e o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade sofre um remanejamento colossal. Literalmente nos apaixonamos por nossos bebês e, como já havíamos constatado com nossas caras-metades, a paixão é um assunto de uma intensidade total que faz com que deixemos de lado tudo o mais. A constituição de uma família pede uma redistribuição de recursos e, por algum tempo, parece haver menos para o casal: menos tempo, menos comunicação, menos sono, menos dinheiro, menos liberdade, menos contato, menos intimidade, menos privacidade. Embora falem de quão felizes são como uma família em crescimento e quão realizados são individualmente, os casais descrevem essas mudanças como difíceis para sua relação.

A infância é, de fato, um estágio crítico da vida que inevitavelmente moldará o futuro da criança. Mas as últimas décadas marcaram o início de uma ênfase na felicidade infantil que faria nossos avós estremecerem. A infância foi tão santificada que já não parece ridículo um adulto se sacrificar inteiramente, a fim de promover um desenvolvimento perfeito e indolor de seu filho – dedicando-se em tempo integral exclusivamente ao trabalho de cuidar de criança.

Não só queremos ser os pais perfeitos e dar tudo a nossos filhos; queremos também que nossas relações conjugais sejam felizes, realizadas, sexualmente excitantes e emocionalmente íntimas.

E ela fala um pouco sobre relações extraconjugais que também interferem nos relacionamentos.

Os casos têm sua própria marca de paixão. Mistério, angústia, culpa, transgressão, perigo, risco e ciúme são altamente inflamáveis, um coquetel molotov, uma explosão erótica ameaçadora demais numa casa com filhos.

Resumindo, é um livro que vale a pena ser lido por quem se interesse bastante pelo tema, por quem vive problemas no relacionamento ou que tenha que lidar com pessoas que possam vivenciar dificuldades na vida conjugal.

Como escrevi antes, não é uma leitura essencial.

 

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