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Livro “Os Diários de Victor Klemperer: Testemunho clandestino de um judeu na Alemanha nazista”

Livro “Os Diários de Victor Klemperer: Testemunho clandestino de um judeu na Alemanha nazista”
Livro “Os Diários de Victor Klemperer: Testemunho clandestino de um judeu na Alemanha nazista”

Título original: Ich will Zeugnis ablegen bis zum letzten: Tagebücher 1933-1945

Primeira publicação: 1995

Editora: Companhia das Letras (1999) – 896 páginas

Tradutora: Irene Aron

ISBN13: 9788571648791

Sinopse: Editados na Alemanha em 1995, estes Diários vão de 1933 a 1945. Descrevem a ação do nazismo no dia-a-dia e desmentem, por exemplo, que ninguém tivesse conhecimento de certas atrocidades: em 1942, havia indicações claras sobre os campos de extermínio. Victor Klemperer (1881-1960), judeu alemão convertido ao protestantismo, professor universitário de línguas e literaturas românicas, escreveu milhares de páginas sobre o tempo em que viveu. Pela honestidade intelectual, pelo senso humanístico e pela própria abrangência das anotações, seus Diários foram imediatamente acolhidos como um testemunho único. E há neles uma dramaticidade própria: o leitor sabe que o autor sobreviveu, mas Klemperer vive e fixa cada momento como se fosse o último.

Nota do editor: A edição alemã é uma versão abreviada do manuscrito original; os cortes foram feitos pelo editor alemão, Walter Nowojski. Para a edição brasileira (como, ademais, em outras edições da obra fora da Alemanha), considerou-se necessário realizar novos cortes, com o objetivo de reduzir a dimensão da obra e torná-la acessível a um público mais amplo. Os cortes realizados foram aprovados pela editora alemã.

 

Victor Klemperer nasceu em 9 de outubro de 1881 em Landsberg, na Alemanha. Seu pai era rabino. Ainda criança, sua família se mudou para Berlim. Ele estudou filosofia, filologia românica e germânica em Munique, Genebra, Paris e Berlim. Em 1906, casou-se com Eva Schlemmer (pianista e estudiosa de música), não judia. Ele foi voluntário na Primeira Guerra, na qual serviu no front. De 1920 a 1935, foi professor titular da Escola Técnica Superior de Dresden, da qual foi demitido quando começaram a ser instituídas as sanções aos judeus. Faleceu no dia 11 de fevereiro de 1960 em Dresden.

 

Depois de ter lido o livro “LTI (Lingua Tertii Imperii) – Linguagem do Terceiro Reich” de Victor Klemperer, fui pesquisar sobre ele e vi que ele escreveu um diário durante seus anos sob o Terceiro Reich e durante a Segunda Guerra. Consegui encontrar o livro em um sebo e acabei demorando muito para iniciá-lo por ser uma obra muito extensa: quase 900 páginas.

Victor Klemperer era filho de um rabino, mas ele, pessoalmente, não seguia a religião judaica. Ele era protestante, junto a sua esposa, uma mulher não judia. Mas isso não importava para o Terceiro Reich. Ele era considerado como judeu. E, dessa forma, desde o início do governo de Hitler, ele foi perdendo, progressivamente, todos os seus direitos.

Inicialmente, perdeu seu emprego e passou a viver de uma pequena pensão que não pagava todos os gastos da casa. Conseguia alguns empréstimos e, um de seus irmãos que era um médico reconhecido nos Estados Unidos enviava dinheiro de tempos em tempos.

Victor Klemperer não conseguiu emigrar da Alemanha. Acabou passando toda a guerra em seu país natal, mas que não o considerava um cidadão. Ele não foi morto nem enviado a um campo de concentração porque era casado com uma mulher ariana. A casa que eles possuíam lhes foi tomada, porque estava em nome de Victor. Eles foram enviados a uma casa destinadas a judeus.

Em suas descrições, que ele faz em minúcias, citando nomes, eventos e seus sentimentos, ele conta como tudo foi sendo retirado. Eles não podiam mais ter livros, nem usar a biblioteca pública; não podiam ter máquina de escrever ou qualquer equipamento ou maquinário; não podiam ter joias ou valores (tudo era confiscado); eram obrigados a dar seus casacos e melhores roupas. Ele relata como andava com as roupas quase esfarrapadas e os sapatos descolando; conseguia alguma coisa para substituir as coisas velhas quando algum judeu morria e ele herdava alguma roupa ou calçado.

Os cupons de alimentação eram absolutamente escassos. Os arianos tinham um pouco mais, mas, mesmo assim, era muito pouco.

 

21 de fevereiro de 1933

Porém, minha amargura, mais profunda do que jamais poderia imaginar senti-la, esta sim quero deixar anotada. É uma vergonha que a cada dia se torna pior. E todos se calam e baixam a cabeça, principalmente os judeus e sua imprensa democrática. (…) O que mais perturba é nossa cegueira diante dos acontecimentos, e como ninguém tem noção da verdadeira divisão do poder. (…) Será o terror tolerado? E por quanto tempo? Ninguém é capaz de fazer uma previsão.

O fato de ter lido este livro tantos anos depois dos eventos terem acontecido e de saber o que de fato se passou com tantos judeus e não judeus durante a guerra fez com que eu tivesse até mesmo um desprezo por Victor Klemperer e suas queixas de quem estava mal acostumado, sabendo que havia tantas pessoas em condições tão piores. Ele se queixa da falta de máquina de lavar roupa, o que fazia com que eles acumulassem pilhas de roupas sujas. É algo fútil em uma guerra. Mas o fato é que tudo vai sendo retirado deles pouco a pouco. E eles não sabiam de fato o que estava acontecendo. A imprensa do Terceiro Reich publicava apenas o que interessava.

 

02 de outubro de 1938

A política tornou-se mais do que nunca o jogo secreto de poucas pessoas que decidem por milhões de outras e afirmam personificar o povo. Desespero gramaticalizado, desespero inconsciente. Cito, porém, Bernardin de Saint-Pierre: “Quando o governo é corrupto, então a culpa é do povo corrompido”.

Os judeus podiam ser tratados apenas por médicos judeus. Victor Klemperer desenvolveu um diabetes, ficou quase cego de um dos olhos e sofria de uma angina que lhe dava dores constantes. Mas a presença de suas doenças graves e que não podiam ser tratadas acabou ajudando e, talvez, até salvando sua vida; ele acabava sendo dispensados dos trabalhos mais pesados por causa de seus graves problemas de saúde.

 

06 de julho de 1941

Tento desenvolver à máquina a pavorosa semana de prisão, não, oito dias, de 23 de junho até 1º. de julho, seguindo palavras-chave. Exausto desde o retorno na terça-feira, atordoado, feliz, incapaz de fazer qualquer coisa. Talvez tenha sido o lado bom desses dias de sofrimento o fato de que tomamos nova consciência de nossa união, de nossa felicidade, da absoluta insignificância de todas as coisas além desta nossa convivência.

Ele chegou a passar um tempo na prisão. E sofria, com muita frequência, maus tratos de guardas que faziam revistas nas casas. Eles eram tratados com imenso desprezo, especialmente pelas crianças e jovens, que tinham sido educados no nazismo e na juventude hitlerista. Quanto aos arianos mais velhos, muitos demonstravam compaixão e se diziam contrários à guerra e a tudo o que estava acontecendo.

 

CELA 89, 23 DE JUNHO – 10 DE JULHO DE 1941

[…] Posso conceder-me uma atenuante, nessa luta com meu medo, não terei eu talvez sofrido com sua tristeza tanto quanto você? Ou seriam apenas evasivas? Os católicos é que são felizes, eles buscam absolvição. Qualquer um que pode buscar perdão em algum lugar é feliz. Mas, quando se faz um ajuste de contas consigo mesmo, o perdão é auto-ilusão. Vale alguma coisa a intenção de fazer tudo melhor no futuro? Em primeiro lugar, é mais do que duvidoso se possuo ainda algum futuro (aos sessenta anos e nas garras do Terceiro Reich), em segundo lugar, fazer melhor não apaga o que um dia foi feito errado, e, em terceiro lugar, sempre disse que o contrário de qualquer provérbio também está certo […], mas um deles, aquele das boas intenções das quais o inferno está cheio, está absolutamente correto.

A maioria dos conhecidos de Victor Klemperer foi enviada a campos de concentração de onde nunca voltaram ou se suicidaram com o uso de Veronal. Ele descreve um número enorme de suicídios e que não eram evitados por ninguém.

 

30 de maio de 1942

Conversamos hoje durante o café da manhã sobre a incrível capacidade humana de sofrimento e adaptação. O horror fantástico de nossa existência: medo da campainha, maus-tratos, humilhação, perigo de vida, fome (fome verdadeira), sempre novas proibições, sempre uma escravidão mais pavorosa, proximidade diária do perigo de morte, diariamente, novas vítimas ao nosso redor, absoluto desamparo – e, todavia, ainda horas de prazer, durante as leituras em voz alta, durante o trabalho, durante as refeições cada vez mais parcas, e sempre ir vegetando e sempre tendo esperanças.

Ninguém tinha notícias precisas sobre os acontecimentos, sobre as baixas dos soldados alemães, especialmente no front com a União Soviética. Nada era informado de forma clara.

Mesmo quando Hitler se suicidou, seguido de Goebbels, as notícias chegavam como boatos. Vários dias transcorreram até que eles soubessem de fato o que tinha acontecido.

 

24 de outubro de 1944

No domingo à noite, Konrad esteve por alguns minutos aqui. Expressou-se – com toda probabilidade, o resultado de suas suposições e estimativas – de maneira terrivelmente pessimista sobre o destino dos judeus à mercê de Hitler, dos judeus poloneses, húngaros, da região dos Bálcãs, dos judeus alemães deportados para o leste e de outros judeus do oeste. Acredita (segundo relatos de soldados) que foram todos assassinados antes da retirada dos alemães, que nunca mais veremos ninguém de novo, que de seis a sete milhões de judeus (dos cerca de quinze milhões existentes anteriormente) teriam sido massacrados (mais precisamente, fuzilados e mortos com gás).

Em muitos momentos do diário, Victor Klemperer fala dos bombardeios sobre as cidades e das sirenes avisando os ataques aéreos. E ele sempre dizia que mais uma vez, Dresden tinha sido poupada.

Até que nos dias 13 e 14 de fevereiro de 1945, Dresden foi absolutamente destruída por ataques aéreos dos aliados. Um número enorme de pessoas morreu e os prédios e casas vieram abaixo. Victor e sua esposa Eva acabaram se separando e não sabiam o que tinha acontecido com o outro, até se reencontrarem no final dos ataques.

Uma coisa que sempre preocupou Victor foi na forma de salvar seu diário e seus manuscritos. Eles eram levados, periodicamente, à casa de uma médica ariana, amiga deles, e que escondeu tudo. Ele contou com muita sorte, já que nunca nada foi encontrado pela polícia nazista. Mesmo durante a destruição de Dresden, ele fugiu com seus escritos e construiu esse relato detalhado da vida na Alemanha durante a Segunda Guerra.

 

16 de janeiro de 1945

Ouvi quando Berger contou a algumas pessoas mais à frente o que tinha sido publicado num jornal alemão a respeito da característica neutralidade suíça. Uma esquadrilha americana. As baterias antiaéreas suíças avisam pelo rádio: “Vocês se encontram sobre solo suíço”. Resposta dos americanos: “Sabemos disso”. “Se vocês não retornarem, vamos atirar.” “Sabemos disso.” As baterias atiram. A esquadrilha avisa pelo rádio: “Vocês estão atirando baixo demais”. Os suíços respondem: “Sabemos disso”. (17 de novembro de 1944)

No Posfácio, Walter Nowojski cita um trecho que Victor Klemperer escreveu em seu livro “LTI (Lingua Tertii Imperii) – Linguagem do Terceiro Reich”:

“Nas horas da repugnância e da desesperança, na esterilidade infinita do mecânico trabalho na fábrica, junto a leitos de doentes moribundos, junto a sepulturas, em momentos de aflição pessoal, de extrema humilhação, com o coração fisicamente doente – esta exigência sempre prestou uma ajuda a mim mesmo: observe, estude, grave na memória o que ocorre – amanhã tudo será diferente, amanhã você sentirá tudo de maneira diferente, retenha o que se revela justamente agora e exerce influência”.

E Walter Nowojski complementa:

Justamente por esta espontaneidade, os diários de Klemperer são um documento de máxima autenticidade.

 

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