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Livro “Os Buddenbrook – Decadência de Uma Família” de Thomas Mann

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Livro “Os Buddenbrook – Decadência de Uma Família” de Thomas Mann
Livro “Os Buddenbrook – Decadência de Uma Família” de Thomas Mann

Título original: Buddenbrooks: Verfall einer Familie

Primeira publicação: 1901

Editora: Companhia das Letras (2016)

Edição atual: 1a. edição, capa dura, 712 páginas

Tradutor: Herbert Caro

ISBN13: 9788535926910

Sinopse: Primeiro romance de Thomas Mann, publicado em 1901, este livro monumental acompanha a saga dos Buddenbrook, uma família de comerciantes abastada do norte da Alemanha. Quatro gerações são retratadas na crônica familiar inspirada na linhagem do próprio escritor e situada numa cidade com todas as características de Lübeck, a terra natal dos Mann. Com personagens vívidos, diálogos brilhantes e elevada riqueza de detalhes, o autor lança um olhar preciso sobre a vida da burguesia alemã – entre nascimentos e funerais; casamentos e separações; desentendimentos e rivalidades; sucessos e fracassos. Esses acontecimentos sucedem-se ao longo dos anos, mas à medida que os Buddenbrook sucumbem à sedução da modernidade, o declínio moral e financeiro parece estabelecido. O leitor contemporâneo encontra intactos o frescor e o fascínio deste que é considerado um dos principais romances do século XX.

 

Meu blog foi selecionado como um dos parceiros do Grupo Companhia das Letras em 2016. A primeira publicação que eu recebi, referente ao mês de março, foi essa obra de Thomas Mann.

Esse foi o primeiro romance escrito por Thomas Mann. E é seu primeiro livro que eu tive o prazer de ler. De acordo com Helmut Galle, no Posfácio do livro:

Em 1900, ao terminar Os Buddenbrook, Thomas Mann contava apenas 25 anos de idade. Seu primeiro romance consagrou a fama do jovem escritor, concedeu-lhe o prêmio Nobel em 1929 e é, até hoje, seu livro mais popular, particularmente na Alemanha, com vendas de mais de 5 milhões de exemplares, quatro adaptações para o cinema e traduções em 42 línguas.

A história se passa, em sua maior parte, em Lübeck (Alemanha), cidade de origem do autor, e possui uma importante base autobiográfica. Ao longo das 700 páginas, ele narra a vida de 4 gerações da família Buddenbrook.

A forma como Thomas Mann descreve os personagens, os cenários, vestimentas, eventos é absolutamente impressionante. Fica muito fácil de visualizar todos os acontecimentos e percebemos a passagem do tempo para cada um dos protagonistas, sem que eles se descaracterizem. Ao final do livro, parece que conheci pessoas reais, com histórias de vida reais.

Como sou uma grande apaixonada por História e tento entender cada momento da forma como realmente foi, da forma como as pessoas viviam, hábitos e costumes, fiquei fascinada pela descrição da sociedade da metade do Século XIX. Particularmente, prende minha atenção a forma como as mulheres viviam, como eram tratadas, quais eram seus direitos e deveres. Por causa desse meu interesse por esse aspecto, a personagem que me conquistou e com quem me identifiquei ao longo de toda a história é a Antonie Buddenbrook, chamada de Tony.

No início da história, ela ainda é uma criança, mas sempre curiosa e com opiniões firmes e decididas. No meu ponto de vista, é a personagem mais forte da obra e exerce um papel central nos principais eventos que marcam a família. Ela educa-se, estuda, demonstra interesse e opiniões corretas nos negócios, mas, ainda assim, não pode participar diretamente de nada.

Apaixona-se ainda na juventude por um estudante de Medicina, mas não pode casar-se com ele por causa da posição inferior que o rapaz tinha nos meios sociais.

– Não, mas realmente: perguntei sem a mínima intenção! – Tony, de tão confusa, por um momento deixou de comer. – Bancar o importante! Como pode dizer uma coisa assim?… Eu gostaria de aprender muito… Sou apenas uma tola, sabe? Meu Deus, na escola de Sesemi Weichbrodt sempre estava entre as mais preguiçosas. E acho que o senhor sabe tanta coisa… – No fundo do coração ela pensava: bancar o importante? Em companhia de estranhos, cada um gosta de mostrar suas qualidades; nós todos nos esforçamos para falar com prudência e para agradar… Claro…

Ela mantém-se sincera e um pouco ingênua durante o passar do tempo, fazendo o que se espera dela, o que a família deseja, tentando não ser um peso, mas tentando manter a postura que julga correta, não se rebaixando, mesmo que acabe se colocando em posição de ser julgada pela sociedade e sofrer preconceito e rejeição das antigas colegas.

E essa pequena recordação abalou-a. Apertou-se o seu peito de dor e saudade e, sem resistência, deixou jorrarem as lágrimas… Estreitando-se no seu cantinho, cobriu o rosto com o lenço e chorou amargamente.

É algo que eu não conseguiria imaginar na minha própria vida: um casamento baseado única e exclusivamente na conveniência, interesses econômicos e dentro de uma mesma classe socioeconômica. Os dois irmãos mais velhos precisaram fazer sacrifícios e abrir mão de pessoas de quem gostavam por causa dos interesses da família e daquilo que se esperava deles. E o pai de mulheres ainda tinha que ter dinheiro suficiente para pagar pelo dote da filha: pagava ao futuro marido para que ele aceitasse desposá-la… e tudo ocorria exatamente como em um contrato comercial.

(…) – E estas coisas não duram muito tempo – recomeçou ele depois de alguns minutos. – Isto passa. A gente esquece…

– Mas é que, justamente, não quero esquecer! – gritou Tony completamente desesperada. – Esquecer… será que esquecer consola?

O mais importante nessa sociedade descrita na obra (que retrata com realismo a sociedade do Século XIX) é aquilo que se mostrava aos outros. A opinião sincera e o desejo real não podem ser revelados. Nem mesmo entre marido e mulher há a liberdade de se mostrar de verdade. A postura correta deve ser mantida sempre.

Realmente! A existência de Thomas Buddenbrook já não era senão a de um ator – de um ator para quem a vida inteira, até as mínimas e mais triviais bagatelas, se tornou mera representação que, exceção feita de algumas breves horas de solidão e descanso, constantemente lhe exigia e devorava todas as forças… Faltava-lhe por completo um interesse sincero e nervoso que o ocupasse; na sua alma reinava empobrecimento e ermo – ermo tão forte que, quase sem cessar, pesava sobre ele uma mágoa indeterminada: ligavam-se a isso, de modo inexorável, a obrigação íntima e a decisão tenaz de exibir-se dignamente, custasse o que custasse, de esconder, com todos os meios, a sua debilidade e de guardar os dehors. Este reforço ininterrupto conduzira-lhe a existência àquele ponto em que ela se tornava artificial, consciente e constrangida, fazendo com que, na presença de outras pessoas, cada palavra, cada gesto, a mais insignificante ação chegassem a ser um trabalho de ator, penoso e exaustivo.

Em oposição aos irmãos Thomas e Antonie, que sempre fizeram o que era esperado que fizessem, surge o terceiro, Christian, que vive como quer, sem se prender a nada, mas sem contar com o apoio da família e sem direito à sua herança, que o irmão tenta controlar. Não havia espaço para a posição do meio, que conciliasse liberdade para tomar as próprias decisões sem precisar adotar uma postura de rebeldia.

Muito mais difícil parecia-lhe conservar a soberania de si próprio quando se achava sentado sem fazer nada. Então levantavam-se nele fadiga e tédio, turvando-lhe os olhos e roubando-lhe o domínio dos músculos em só desejo: ceder ao desespero surdo, fugir para casa, às escondidas, e deitar a cabeça sobre uma almofada fria.

É impossível fazer uma crítica a uma obra maravilhosa e consagrada como essa. Ela me valeu quase como um livro de História, mas não da história apenas recheada de nomes famosos e de eventos importantes; é a história das pessoas desconhecidas, de sua forma de viver, de como tinham que se portar, dos sofrimentos íntimos e secretos, dos laços que não podia ser rompidos, do poder do dinheiro, da imobilidade dos estratos sociais.

Eu realmente fiquei apaixonada pela obra e já incluí outros livros de Thomas Mann na minha lista de futuras leituras.

– Sílvia Souza

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