Now reading

Livro “O último verão de Klingsor” de Hermann Hesse

Livro “O último verão de Klingsor” de Hermann Hesse
Livro “O último verão de Klingsor” de Hermann Hesse

Título Original: Klingsors letzter Sommer

Primeira Publicação: 1919

Tradutor: Pinheiro de Lemos

Editora: Record (2003)

ISBN13: 9788501002402

Sinopse: O último verão de Klingsor é uma reunião de três pequenas obras-primas escritas na mesma época em que Hermann Hesse produziu duas de suas mais celebradas criações – Demian e Sidarta. 

O primeiro dos contos, Alma de criança, explora a gênese do sentimento de culpa e da angústia, através do relato das emoções de um garoto em relação ao pai. “Todos esses sentimentos de manifestavam no coração da criança da mesma forma que permaneceram: dúvida do meu valor pessoal, indecisão entre a auto-estima e o desânimo”. Como um Kafka às avessas, o autor constrói uma narrativa extremamente delicada, analisando o confronto entre o estranhamento, a mentira e a autoridade. 

Com o segundo episódio, Klein e Wagner, o que parece uma incursão de Hesse no gênero policial, mostra-se um mergulho ainda mais profundo nos temas já sugeridos a primeira narrativa, com uma história complexa de crime, castigo e redenção. “Sempre houve dois Friedrich Klein, um visível, outro secreto, um funcionário público e um criminoso, uma pai de família e um assassino”. Aqui o autor analisa a angústia, a culpa e o estranhamento conjugando a saga de um fugitivo com passagens de clássicos da filosofia de Schopenhauer e das obras de Goethe. 

Hesse oferece-nos uma alegoria repleta de discussões sobre o amor, a representação do mundo, a arte, a posteridade e a magia em O último verão de Klingsor. O autor narra os últimos meses de vida de um pintor expressionista, considerado por muitos como um retrato literário da natureza do escritor. É um ponto de partida para um relato que une a sabedoria de poetas chineses com a angústia de um artista diante das vicissitudes de sua vida e do legado de sua obra.

 

Apesar de Hermann Hesse ter sido Nobel de Literatura em 1946, apenas vim a conhecê-lo em 2013. Pode ser que tenha lido alguma citação sua antes disso, mas tenho que reconhecer minha ignorância sobre esse escritor.

De certa forma, acho que isso foi uma coisa boa. Afinal, acredito que Hermann Hesse tenha entrado na minha vida no momento correto, estando eu já pronta para assimilar tudo o que ele escreveu em suas obras. Aconteceu a mesma coisa com outros grandes escritores, que chegaram no tempo certo; mas sobre os outros, contarei em outras oportunidades.

Eu passava por um problema de saúde e um enorme sofrimento emocional. Tentava buscar conforto em algumas leituras indicadas. Uma amiga tinha sugerido a leitura de “Amor em Minúscula” de Francesc Miralles. Foi uma leitura maravilhosa e que me apresentou a inúmeros outros escritores, além de me levar através de uma história de amor impossível (mostrando que eu não era a única que sofria por amores impossíveis).

No livro, Francesc Miralles coloca algumas citações de obras de Hermann Hesse que me trouxeram boas sensações. Fui atrás das obras do escritor e comprei “O Lobo da Estepe”, “Demian” e “Sidarta”. Foi um amor imediato!

Passei a procurar todas as publicações de Hermann Hesse em português, sendo que alguns livros de contos encontrei apenas em sebos; alguns se desfazendo de tão antigos. Li absolutamente tudo o que encontrei. Faltava esse livro e um último que está aguardando na minha estante, chamado “Felicidade”.

O livro “O último verão de Klingsor” é composto de 3 contos:

  1. Alma de Criança
  2. Klein e Wagner
  3. O último verão de Klingsor

Os contos desse livro são diferentes de outros contos dele que eu já tinha lido. Eles trazem um grande componente do egoísmo dos homens, do lado vil e mesquinho. Mas associado a esse componente, vem a percepção do errado e a culpa que castiga; aquela sensação de que alguém nos olha de forma estranha, quando somos nós mesmos que estamos nos sentindo errados perante nossa consciência.

Em “Alma de Criança”, ele conta a história de um menino que rouba alguns doces de uma gaveta do pai, quase como uma peraltice. Mas ele se nega a reconhecer o ato quando questionado e vai aumentando seu pecado ao inventar inúmeras mentiras na tentativa de escapar do crime. O grande cerne do texto é que o menino sabe que errou e que está errando sucessivamente e se condena enormemente por isso.

Os atos de nossa vida, que julgamos bons e dos quais falamos sem reservas, são quase todos daquela primeira categoria “fácil” e facilmente os esquecemos. Outros atos, dos quais temos dificuldade em falar, nunca mais os esquecemos; são de certo modo mais nossos do que os outros e projetam longas sombras sobre todos os dias de nossa vida.

Em “Klein e Wagner”, há mais uma história de um delito, cometido por um homem que está em sua fuga da Alemanha para a Itália. Ele tenta levar uma vida normal, tenta se aproveitar do fruto de seu crime. Mas sua consciência vai sugando suas atitudes para um fim do qual ele não consegue escapar.

Sim, era melhor dirigir por si mesmo e com isso ficar reduzido a cacos do que ser sempre conduzido e dirigido pelos outros.

Em “O último verão de Klingsor”, conto que dá nome ao livro, Hermann Hesse nos fala sobre um pintor expressionista, já consagrado, que começa a demonstrar algum cansaço com a vida, uma vida onde ele não se encaixa mais. Ele vive cercado de pessoas, amigos, mulheres, mas não consegue mais sentir uma harmonia entre suas ideias e aquelas das pessoas à sua volta.

Por que existia o tempo? Por que tinha de haver sempre essa idiota sucessão de uma coisa a outra e não uma simultaneidade ardente e capaz de saciar?

Gostei muito dos 3 contos. Foi um livro de leitura agradável, muitas reflexões, muitos ensinamentos… tudo o que eu gosto.

– Sílvia Souza

Written by

2 Comments
  • claudio kambami disse:

    Bom né quando estamos amadurecidos ao ponto de entendermos as informações que nos chegam. Isso não ocorre apenas com você, eu também muitas vezes leio algo e por mais que pense ter assimilado toda informação ali contida, com o tempo percebo que mais informações ocorrem a cada vez que releio ou assisto a um filme.
    Por esse motivo, aprendi a dar tempo ao tempo e nunca brigar com o mesmo.
    Penso mais que assimilo as coisas, analiso demais e mesmo após tudo estar comprovado, ainda assim refaço todo meu pensar procurando por falhas. Antes acreditava ser algum problema, mas não, percebi tantos outros relatarem/descreverem a mesma coisa, foi quando me aquietei um pouco.
    Muitas vezes leio frases do tipo, “fora de meu tempo”, e me vejo muito nisso, sempre crendo que nasci na época errada, ora adiantado demais, ora atrasado ao ponto de me constranger perante a facilidade e entendimento que outros conseguem e eu não, rsss.
    A mente Silvia é algo muito interessante e comecei a perceber isso quando em aula uma vez me deparei com um aluno que tinha um pouco de altismo, era espetacular em coisas que os ditos “normais” levavam uma vida inteira para realizar ou aprender.
    Essa massa cinzenta que carregamos dentro de nosso crânio não é algo que podemos afirmar com toda propriedade que entendemos, apenas aprendemos a cada dia com as situações que nos são apresentadas.
    Complexo a coisa. Vi na Faculdade que muitos que estudam essa área também em alguns momentos necessitam de um acompanhamento profissional para não pirar e não entrar em depressão.
    Na época de meu pai não sei mas me parece que a Psicologia não era vista como a Psiquiatria que hoje faz até uma certa parceria. Antes parece que somente os Psiquiatras eram médicos e os Psicólogos apenas pessoas que davam consultas. Hoje os estudos avançaram tanto que apenas estagiar não basta, o estudo deve ser constate. Acredito que a cada dia novas situações aparecem e enriquecem esse conhecer, assim como o entendimento de um livro que muitas vezes lemos e não chegamos nas entrelinhas.
    Conheço e me reconheço no que descreveu sobre o que o autor descreve, mas como experiência de vida, logo, achei super interessante essa “trilogia”.
    Assim que puder, irei conversar com as ondas do mar, quem sabe se delas não decifro um pouco mais da vida humana.
    É uma forma de relaxar, pensar, refletir, em silencio, apenas ouvindo as ondas e delas decifrar o que tanto buscamos. Obrigado por essa resenha. Beijos meu anjo! <3 🙂

    • Olha, Claudio, bateu uma invejazinha aqui em mim por você poder conversar com as ondas do mar… São Paulo não está tão longe da praia, mas também não é aqui…
      Também gosto muito do som, da calma, da energia… o mar parece que nos abençoa… Um dia, quem sabe, ainda realizarei meu sonho de viver à beira mar, em um lugar bem tranquilo, onde eu possa apenas pensar na vida, ler e escrever…
      Sobre o que você escreveu de tirar ensinamentos novos de livros ou filmes já conhecidos, eu concordo totalmente. Na verdade, acho que a bagagem que vamos acumulando na vida, nossas vivências, experiências, alegrias e tristezas, fazem com que mudemos nossas percepções e nossa capacidade de extrair algo do que está à nossa volta.
      Eu tenho um exemplo muito significativo na minha vida. Quando estava me separando e tentando entender todos os sentimentos que eu vivia naquele momento (mágoas, revoltas, tentativa de superação, perceber que eu não era uma fracassada pelo fato do meu casamento ter dado errado, etc), passei a ler os livros da Martha Medeiros e ela escrevia muito sobre o que eu precisava “ouvir”. Foi de enorme ajuda. Atualmente, não consigo sentir mais a mesma coisa. O momento passou. Eu tenho minhas próprias conclusões de todo o processo. Amadureci. E passei a buscar outras leituras, mais maduras, mais espirituais, mais filosóficas… não sei ao certo… algo que se encaixe ao meu novo momento… E assim segue a vida…
      Fico muito feliz de você voltar a deixar seus comentários aqui…
      Um beijo grande, com todo meu carinho!

Instagram
  • #patríciareis #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #marcoaurélio #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #joséluíspeixoto #citações ##abraço #reflexõesdesilviasouza
  • #fernandopessoa #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #fernandopessoa #citações #reflexõesdesilviasouza