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Livro “O Som e a Fúria” de William Faulkner

A Festa
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Livro “O Som e a Fúria” de William Faulkner
Livro “O Som e a Fúria” de William Faulkner

Título Original: The Sound and the Fury

Primeira Publicação: 1929

Tradutor: Paulo Henriques Britto

Editora: Cosac Naify (2012)

ISBN: 8540502364 (ISBN13: 9788540502369)

Sinopse: Este livro narra a agonia de uma família da velha aristocracia sulista, os Compson, entre os dias 2 de julho de 1910 e 8 de abril de 1928. Um apêndice, acrescentado pelo escritor em 1946, fornece outras informações sobre a história dos Compson entre 1699 e 1945. “O Som e a Fúria” é a tragédia da família Compson, apresentando algumas das personagens mais memoráveis da literatura: a bela e rebelde Caddy, Benjy, que tem uma deficiência, o assombrado e neurótico Quentin; Jason, o cínico brutal, e Dilsey, representando os criados negros. Com as suas vidas fragmentadas e atormentadas pela história e pela herança, as suas vozes e ações enredam-se para criar o que é, sem dúvida, a obra-prima de Faulkner e um dos maiores romances do século XX. William Faulkner afirmou muitas vezes que “O Som e a Fúria” era o romance mais próximo do seu coração porque era o que lhe tinha causado mais sofrimento e angústia a escrever. Neste magnífico romance, publicado pela primeira vez em 1929, Faulkner criou a «menina dos seus olhos», a bela e trágica Caddy Compson, cuja história nos conta através dos monólogos separados dos seus três irmãos: Benjy, o idiota; Quentin, o suicida neurótico; e o monstruoso Jason. “O Som e a Fúria” é o seu quarto romance e a primeira das suas obras primas indiscutíveis, aquela que, mais do que qualquer outra, confirmou Faulkner como figura central da literatura do século.

 

Na época em que tentei organizar minhas leituras e pensei em ler um exemplar de cada ganhador do Nobel de Literatura, acabei não lendo nada de Faulkner. Deixei algumas obras suas na minha lista para algum dia…

Até o momento em que, ao ler um dos livros de Mario Vargas Llosa (por quem tenho uma admiração enorme), ele mencionou que o escritor que mais admirava era William Faulkner. Quando li aquilo, acendeu em mim uma chaminha desconfortável: era uma necessidade de ler algum livro de Faulkner. Não sei o que se passou comigo, mas era como se eu fosse ficar mais perto de Vargas Llosa se eu compartilhasse as mesmas leituras.

Propus a leitura à Laynne Cris do Blog Meu Espaço Literário, já que queríamos seguir com a nossa experiência de leitura simultânea. Ela aceitou. E iniciamos nossa empreitada no início de 2016.

Na fase preparatória e de início da leitura, a Laynne compartilhou comigo alguns vídeos que falavam sobre a obra, inclusive uma aula maravilhosa da professora Munira Hamud Mutran, do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Esse vídeo foi essencial para a compreensão da obra em uma primeira leitura.

 

 

O livro é dividido em 4 capítulos, melhor denominados 4 partes. Cada parte é nomeada por uma data e é narrada por uma pessoa diferente, sendo as 3 primeiras narradas por personagens da história e a última narrada em terceira pessoa, mas focando na Dilsey, que é a criada da família.

A história não tem nenhuma linearidade e a compreensão total acontece apenas com a conclusão da leitura e do Apêndice, que explica em mais detalhes a história da família Compson.

Mais do qualquer reflexão que eu pudesse fazer sobre o conteúdo da obra, o maior desafio nessa leitura é a construção literária que Faulkner faz. É uma coisa brilhante e enlouquecedora para o leitor desavisado. Muitas vezes, a mudança do tempo que está sendo narrado, do passado para o presente (e vice-versa), é marcado apenas pela letra em itálico. É algo muito sutil. Há um trecho de cerca de 4 páginas de diálogo entre pai e filho e não há um único sinal de pontuação. Depois de um tempo, a cadência da leitura permite identificar quem está falando.

A primeira parte é narrada por Benjy, que é justamente o filho que tem um retardo mental e não consegue entender bem os fatos. As narrativas são fragmentadas e muito confusas.

(Apenas para dificultar ainda mais, há um dos filhos que se chama Quentin, que é o mesmo nome da neta, filha da Caddy; além disso, o pai e um dos filhos têm o mesmo nome: Jason).

Um exemplo da narrativa de Benjy:

“Oi, Benjy.” disse Caddy. Ela abriu o portão e entrou e se abaixou. Caddy tinha cheiro de folha. “Então você veio me esperar.” disse ela. “Você veio esperar a Caddy. Por quê que você deixou ele ficar com as mãos frias, Versh.”

“Eu mandei ele botar as mão no bolso.” disse Versh. “Ele cismou de pegar no portão.”

“Você veio esperar a Caddy.” disse ela, esfregando as minhas mãos. “O que foi. O que é que você está querendo contar pra Caddy.” Caddy tinha cheiro de árvore e de quando ela diz que a gente estava dormindo.

Por quê que você está chorando, disse Luster. Você vai ficar vendo eles de novo quando a gente chegar no riacho. Toma. Toma esse estramônio. Ele me deu a flor. Passamos pela cerca, para o terreno

Nessa primeira parte, os personagens são apresentados dessa forma, os do passado com os do presente, sem que saibamos quem é quem, nem seu papel no desenrolar da narrativa.

A segunda parte é narrada por Quentin, um dos filhos, que teve o privilégio de estudar em Harvard. Ele narra um dia de sua vida, com muitas lembranças do passado, e é o dia em que ele planejou seu suicídio. Ele vive atormentado por vários problemas da família, por ciúmes da irmã, por cobranças da família. Foi a parte que me fisgou completamente e que fez com que eu me apaixonasse pelo livro.

Algumas citações da segunda parte:

Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada.

cada homem é árbitro de suas próprias virtudes você considerar o ato corajoso ou não é mais importante que o ato em si

cada homem é árbitro de suas próprias virtudes mas homem algum deve prescrever o que é bom para outro homem

A terceira parte é narrada por Jason (o filho) e o momento temporal volta a ser o da primeira narrativa. Essa parte esclarece muito das relações familiares, dos acontecimentos desde a infância até aquele ponto da história e, mais do que isso, mostra o caráter cruel de Jason. Ele guarda um enorme ressentimento por todas as pessoas da família, como se todos fossem culpados pela decadência financeira pela qual eles passaram e que exigiu que ele tivesse que trabalhar para garantir o sustento de todos. Mas ele é mesquinho e desonesto, trata as mulheres com desprezo, maltrata a sobrinha e a irmã, de quem extorque dinheiro.

Embora essa parte seja essencial na compreensão do enredo da obra, ela revolta e angustia por causa desse comportamento desumano do Jason.

Um exemplo:

Com mulher é assim que se deve fazer sempre. Para ela ficar sempre na expectativa. Se você não conseguir encontrar nenhuma outra maneira de surpreendê-la, dê-lhe um soco na cara.

Rasguei a carta e queimei na escarradeira. Por regra, jamais guardo nenhum pedaço de papel escrito por mulher, e nunca escrevo para mulher nenhuma.

A quarta (e última) parte é narrada em terceira pessoa. Ela faz um fechamento da história e mostra a rotina da Dilsey, que é a criada negra e que é a base de sustentação de toda a família. Ela criou as 4 crianças e cria a filha da Caddy. Ela trabalha exaustivamente, quase sem reconhecimento, cuidando de absolutamente tudo. E é o personagem mais íntegro, sensato e justo.

Nem todos os detalhes são esclarecidos na história. Há algumas passagens que são deixadas em aberto, para cada leitor tirar suas próprias conclusões. Isso aproxima o livro da vida real, onde nem sempre entendemos tudo o que vemos e interpretamos à nossa maneira.

É uma obra maravilhosa. Um exemplo de uma escrita bem construída, não no sentido da clareza e nexo, mas justamente porque ela parece mostrar as tortuosidades dos nossos pensamentos.

– Sílvia Souza

 

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9 Comments
  • laynnecris disse:

    Realmente a leitura desse livro vai ser difícil ser superada. Adoro a parte que citou quando a Caddy fala com o Benjy. Meu coração se cortou quando o Jason revela o que fizeram a ele. Enfim, não tenho como deixar de agradecer-te por tão maravilhosa experiência.

    E, vamos agora entrar no universo de “TERRA DOS HOMENS” e conhecer a criação de um grande escritor que só conheço sua obra mais famosa – Antonie de Saint-Exupéry.

    Beijão

    • Silvia Souza disse:

      Foi uma experiência incrível mesmo, Laynne… e um grande desafio… não foi nada fácil…
      Acho que foi o livro mais difícil que li até hoje…
      Um beijo grande!

    • Silvia Souza disse:

      Tentando de novo…

      Foi uma experiência incrível mesmo, Laynne… e um grande desafio… não foi nada fácil…
      Acho que foi o livro mais difícil que li até hoje…
      Um beijo grande!

  • Silvia amei sua resenha, ela consegue atiçar a curiosidade dos leitores e dá um incentivo para àqueles que não temem as obras que exige do leitor uma dedicação maior.

    Hug

    • Silvia Souza disse:

      Oi, Marcia!!!
      Fico lisonjeada com seu comentário!
      A craque nas resenhas aqui é você…
      Espero conseguir fazer algo bom com a nossa leitura…
      Beijo!

      • Sou craque nada , pará de me gozar rs.

        Mas sério, imagino que este livro deve ter sido bem difícil de resenhar.
        Vi ao vídeo que vc compartilhou juntamente com a resenha, isso acabou por dar um papo de fundo muito legal para os futuros leitores da obra.

        E estou ansiosa para ler sua resenha sobre a maça no escuro.
        Ah tenha um pouco de paciência comigo, logo pego a maça e finalizo e podemos conversar.
        Sei que vc já terminou a leitura né.

        Hug

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