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Livro “O remanescente” de Rafael Cardoso

Livro “O remanescente” de Rafael Cardoso
Livro “O remanescente” de Rafael Cardoso

Primeira publicação: 30 de Outubro de 2016

Editora: Companhia das Letras – 504 páginas

ISBN13: 9788535928136

Sinopse: Ao desmontar a casa dos avós, o autor descobre nas gavetas um arquivo de fotografias, cartas e documentos amarelados. Para sua surpresa, a papelada revela que a história de seus antepassados era bastante diferente da que ele conhecia. E esses vestígios são o ponto de partida de uma tortuosa arqueologia familiar que se torna matéria da ficção em O remanescente. Da alta sociedade da República de Weimar à fuga para o Brasil sob identidade falsa, passando pelas turbulências do nazismo, o leitor conhecerá a história de Hugo Simon — banqueiro, ministro das Finanças da Prússia e grande colecionador de arte — e de sua família, num percurso que é quase um paroxismo da diáspora causada pela Segunda Guerra.

 

Este é mais um livro enviado pelo Grupo Companhia das Letras, em sua parceria com meu blog. Ele foi lançado no dia 30 de outubro e chegou até mim no início de novembro. Imediatamente, comecei a ler. E a leitura envolvente faz com que não se tenha vontade de interromper.

O autor, Rafael Cardoso, nasceu em 1964, no Rio de Janeiro, mas viveu a maior parte de sua infância nos Estados Unidos. É historiador da arte e do design, com diversas obras publicadas na área. Estreou na ficção em 2000 com A maneira negra.

O Rafael descreve que seu avô morreu quando ele tinha 14 anos; após 5 anos, morreu sua avó, e, pouco tempo depois, foram sua tia-avó e seu pai. Nessa época ele tinha 23 anos. E ele foi o responsável por limpar a casa dos avós. Foi nessa arrumação que ele encontrou as fotos e documentos da família de seu pai, da época da Segunda Guerra, com os passaportes falsos que a família usou para fugir da Alemanha nazista. Até seus 16 anos, ele achava que sua família era francesa; apenas quando ele tinha esta idade, seus avós conseguiram reaver sua identidade alemã e ele soube sobre sua origem judaica.

Seu bisavô, Hugo Simon, era um judeu alemão e chegou a ser influente na política na época da República de Weimar. Ele era banqueiro, pacifista e socialista e foi ministro das Finanças do Estado da Prússia. Além disso, foi colecionador de arte, chegando a ser o proprietário da versão em pastel da obra O grito de Munch, entre 1926 e 1937. Era amigo de Albert Einstein e de Thomas Mann.

Quando Hitler subiu ao poder na Alemanha e começou a perseguir os judeus, eles migraram para a França, onde as filhas já moravam. Mas, em 1940, com a anexação da França pela Alemanha, o bisavô dele passou a ser perseguido. Hugo e a esposa adotaram identidades falsas (tchecas), enquanto as filhas e o genro adotaram identidades francesas. Todos conseguiram fugir da França através da Espanha e migraram para o Brasil.

O exílio os adestrara a aceitar o inaceitável. Não tinha sentido gastar energia debatendo como as coisas deveriam ser, ou não. Só existiam as coisas como eram, e o que podia ser feito de prático para se adequar a elas.

Este livro é o Volume Um da história dos antepassados do autor, e foi chamado de “O tempo no exílio”. Embora seja baseado nesta história verdadeira, como seus avós nunca contaram sobre o que viveram, o livro é uma obra ficcional. Rafael Cardoso conta um pouco sobre as pesquisas que fez e o livro relata vários eventos históricos importantes e reais. Ele realmente é bastante fiel a todo o período da Guerra e àquele que se seguiu. Mas não é uma biografia. É realmente um romance.

O mundo da produção em massa, dos meios irrestritos e do potencial ilimitado era perigoso ao extremo. Não existia nele lugar para divergir das metas e das cotas. Se algo contrariasse a lógica produtiva, fazia-se necessário esmagá-lo e descartá-lo, por questão de eficiência. A adoção do realismo socialista na União Soviética não deixava dúvida de que os comunistas teriam tão pouca simpatia por divergências das normas prescritas quanto a tiveram os nazistas.

O livro vai conquistando o leitor conforme ele vai se desenvolvendo. Entramos na história desta família que passa a viver com medo, desde a época da Guerra até ter segurança para ir atrás das identidades reais, sem medo de serem extraditados e mortos.

Eles abandonaram suas casas, todos os seus bens, de um dia para outro. Adotaram nomes falsos e aprenderam a adotá-los como se fossem reais. Fugiram para um país distante, enfrentaram um idioma desconhecido, a hostilidade de um governo ditatorial que tinha pontos em comum com o nazi-fascismo. Chegaram sem nada, sem conhecer ninguém, refizeram suas vidas. Os bisavós do autor moraram no Rio de Janeiro, em Penedo e em Barbacena. Os avós e a tia-avó (eles não podiam todos morar como uma família porque as identidades indicavam que não eram parentes) moraram no Rio de Janeiro, no Paraná, e terminaram a vida morando em São Paulo, na região de Interlagos.

Em Minas, logo viria a ser primavera. Tempo de plantar. Ajoelhar-se mais uma vez e aclimatar as mudas tenras ao solo. Cultivar significava o trabalho diário de resguardar a safra e o rebanho acumulados; consertar o que estava velho, construir o novo; preparar o terreno, plantar, capinar, colher, armazenar; e, ao final, recomeçar tudo.

É uma leitura bastante envolvente, muito rigorosa nos dados históricos, mas nunca sendo cansativa ou extremamente descritiva.

Recomendadíssima!

 

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1 Comment
  • Carlos Moya disse:

    Olá Sílvia é o primeiro que eu sei sobre um romance da Segunda Guerra Mundial visto do Brasil, é um magnífico avaliação. Um abraço.

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