Now reading

Livro “O filho de mil homens” de Valter Hugo Mãe

Livro “O filho de mil homens” de Valter Hugo Mãe
Livro “O filho de mil homens” de Valter Hugo Mãe

Primeira publicação: Janeiro de 2011

Editora: Cosac Naify (Abril de 2012) – 208 páginas

ISBN13: 9788540501768

Sinopse: Novo romance do escritor português Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens narra a história do pescador Crisóstomo, “um homem que chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter tido um filho”. Com vontade imensa de ser pai, o protagonista conhece o órfão Camilo, que um dia aparece em sua traineira. Ao redor dos dois, outros personagens testemunham a invenção e construção de uma família em vinte capítulos, escritos com rara delicadeza. Mãe, ao falar de uma aldeia rural e dos sonhos anulados de quem vive nela, atravessa temas como solidão, preconceitos, vontades reprimidas, amor e compaixão.

 

Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos. Ele nasceu em Saurimo, Angola, em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e, atualmente, vive em Vila do Conde. Além de escritor, é editor, artista plástico e cantor.

É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Vencedor do Prêmio José Saramago no ano de 2007. É autor dos livros de poesia: Livro de Maldições (2006); O Resto da Minha Alegria Seguido de a Remoção das Almas e Útero (2003); A Cobrição das Filhas (2001); Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde e Três Minutos Antes de a Maré Encher (2000); Egon Shiele Auto-Retrato de Dupla Encarnação (Prêmio de Poesia Almeida Garrett) e Entorno a Casa Sobre a Cabeça (1999); O Sol Pôs-se Calmo Sem Me Acordar (1997) e Silencioso Sorpo de Fuga (1996). Escreveu romances e livros infantis.

Uma coisa que me agrada muito nos textos de Valter Hugo Mãe é sua escrita intimista e quase poética. É uma leitura que dá prazer não só pela história, mas pela combinação das palavras, pela beleza da escrita em si, como forma além de conteúdo. É daqueles escritores que sentimos felicidade de termos tido a chance de conhecer, de entrar em contato.

O livro O filho de mil homens é de uma beleza única. Ele conta a história de várias pessoas, inicialmente sozinhas, cujas vidas vão sendo, pouco a pouco, entrelaçadas. E mais do que a história destas solidões, o que comove no livro é a crítica à intolerância em suas várias formas. E não é uma crítica aberta, frontal, explícita. Não. Há inclusive momentos em que ele mesmo parece assumir uma atitude intolerante, por causa do uso das palavras, cruas, cruéis. Mas é justamente essa forma dolorosa que ele usa para nos mostrar o absurdo de julgarmos os outros, de assumirmos verdades baseados apenas nas aparências, de criticarmos os outros e jogarmos para baixo do tapete nossos próprios problemas.

Os personagens são Crisóstomo, Camilo, Antonino, Isaura, Maria, Matilde, Rosinha… são vários personagens que aparecem independentes no início do livro. Os primeiros capítulos são como contos isolados, em que cada personagem é apresentado. No início, eu realmente não sabia se era um livro de contos ou se haveria um cruzamento da vida dos personagens.

Aos pouquinhos, as conexões vão sendo construídas. E cada solidão vai se ligando a outra solidão… e as pessoas sensíveis e tão pouco enquadradas na sociedade mesquinha e hipócrita vão aprendendo a encontrar pessoas semelhantes e acabam encontrando pessoas para amar e que as amem também.

Eu não queria escrever demais sobre a história, porque a forma linda como Valter Hugo Mãe apresenta cada personagem e como vai construindo estas pontes entre eles merece ser lida no livro e não ser contada por mim, que certamente não conseguirei manter a poesia e o lirismo com que o livro nos encanta.

Eu gostaria muito de que as pessoas lessem esse livro, que conta uma história de amor, aceitação, perdão, amizade, tolerância.

O que eu gostaria é de deixar alguns trechos, poéticos, reflexivos, maravilhosos.

Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz.

Ela olhou por sobre o muro e percebeu que, mínima e a diminuir, estava a trancar-se cada vez mais, como a fugir por dentro, para longe, para um lugar tão distante que podia existir só dentro das pessoas.

Amanhecera vazia, sem ninguém dentro de si mesma, e foi como se encheu com a ideia de afinal ser impossível esquecer o amor. Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. (…) Ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de um modo impossível o futuro. Disse: eu pensava que o amor era bom.

Era uma mulher carregada de ausências e silêncios.

Ser o que se pode é a felicidade.

(…) Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.

O Antonino explicou-lhe que não queria ser mulher e que gostava de mulheres e lhes prestava atenção. Disse que admirava a liberdade que tinham para a expressão da sensibilidade, achava que era como uma permissão para ter a alma à solta, autorizada a manifestar-se pela beleza ou pelo espanto de cada coisa. Estava autorizada à sensibilidade que fazia da vida uma travessia mais intensa. As mulheres, pensava ele, eram mais intensas.

Hoje é do que mais tenho saudade. Desse sentimento, que na sua plenitude talvez se reserve às crianças, de acreditar que alguém cuida de nós segundo o nosso mérito. Quando se perde essa convicção, fica-se irremediavelmente sozinho. Os pais e os filhos são o único modo de interferir positivamente nessa solidão.

 

Written by

2 Comments

Instagram
  • #albertcamus #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #lamatseringeverest #citações #budismo #reflexõesdesilviasouza
  • #honorédebalzac #citações #trechosliterarios #amulherdetrintaanos #reflexõesdesilviasouza
  • #edmundburke #citações #reflexõesdesilviasouza
  • #rubemalves #citações #reflexõesdesilviasouza