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Livro “No coração da vida: Sabedoria e compaixão para o cotidiano” de Jetsunma Tenzin Palmo

Livro “No coração da vida: Sabedoria e compaixão para o cotidiano” de Jetsunma Tenzin Palmo
Livro “No coração da vida: Sabedoria e compaixão para o cotidiano” de Jetsunma Tenzin Palmo

Título original: Into the Heart of Life

Primeira publicação: 2011

Editora: Lúcida Letra (02-05-2014) – Kindle Edition, 172 páginas

Tradução: Jeanne Pilli Lúcia Brito

ASIN: B00K3T6IF4

Sinopse: Este não é um livro sobre práticas esotéricas ou métodos avançados de meditação. O conteúdo deste livro refere-se a praticantes comuns preocupados em traduzir as instruções do Dharma para uma experiência de vida em andamento. Um aspecto importante do Dharma trata da transformação de nossa mente e atitudes ordinárias em algo altamente positivo, que traga benefícios não só para nós mesmos, como para todos que tenham contato conosco. O problema básico que encaramos é como mudar uma mente cheia de pensamentos e emoções negativos – ganância, raiva, ansiedade, inveja e por aí vai – em uma mente mais pacífica e cordial, com a qual seja um prazer para todo mundo (inclusive nós mesmos) viver. Este livro estabelece de forma simples alguns indicadores para ajudar praticantes comuns a usar o Dharma para levar uma vida mais significativa.
Nossa mente, com seu fluxo incessante de pensamentos, memórias, opiniões, esperanças e medos, é nossa companhia constante, da qual não conseguimos escapar nem mesmo em sonhos. Assim, faz sentido cultivar para nossa jornada uma companhia de viagem que valha a pena.

 

O Budismo entrou na minha vida em meados de 2013. Passei por alguns problemas pessoais que me afetaram profundamente. A leitura dos ensinamentos de Buda, a aceitação do sofrimento como parte da nossa vida e a busca pelo caminho que pudesse aliviar as causas do sofrimento trouxeram um grande alívio frente a tudo o que eu tinha passado. Não me converti ao Budismo, mais por um comodismo meu de não ir atrás do caminho. Mas continuo procurando ler livros, textos, escutar palestras e sempre me sinto melhor.

O livro “No Coração da Vida” não é exclusivo para aqueles que querem seguir os ensinamentos de Buda. Jetsunma Tenzin Palmo aborda todos os temas ligados a melhorarmos como pessoas, nas relações com outras pessoas e nos caminhos que podem levar a essa melhora.

Jetsunma Tenzin Palmo é uma consumada praticante espiritual e professora do budismo tibetano. Ela nasceu na Inglaterra e interessou-se pelo Budismo aos 19 anos, quando viajou para a Índia para aprender mais. E, desde então, seguiu nesse caminho. Ela é, atualmente, a responsável por um mosteiro exclusivo para monjas.

O livro está dividido em 9 Capítulos com ensinamentos. Ele segue algo muito comum nos ensinamentos budistas: é composto de transcrições de palestras proferidas por Jetsunma Tenzin Palmo. Isso, a meu ver, traz vantagens e desvantagens; é bom ler uma linguagem mais simples e acessível a todas as pessoas, conhecedoras ou não de todo o Dharma. Mas sinto muita falta de uma estruturação adequada dos ensinamentos; talvez minha mente seja muito matemática e estruturada e fico esperando pontos enumerados para que eu possa fixar melhor os conceitos.

Não pretendo fazer apologia ao Budismo, nem gosto de mencionar ou discutir religião. A fé de cada um é particular. O mais importante é que seja algo que nos melhore como pessoas e possa melhorar o mundo em que vivemos.

O livro é interessante para todas as pessoas e vou deixar algumas citações contidas em cada um dos capítulos.

Os Capítulos:

1. Impermanência

Impermanência. Tentamos fazer com que as coisas fiquem do jeito que estão, nos agarramos à ideia de permanência. Normalmente, somos muito resistentes à ideia de mudança, em especial de mudança naquilo que prezamos. Claro que gostamos de que as coisas mudem, quando se trata de algo de que não gostamos; mas, quando é algo de que gostamos, seguramos.

A vida é insatisfatória, porque está sempre mudando. Não tem o cerne sólido que sempre esperamos agarrar. Queremos segurança e acreditamos que nossa felicidade reside em estarmos seguros.

Temos medo, medo de perder, e sentimos dor quando perdemos. Mas a natureza das coisas é vir a existir, durar por um tempo e então acabar.

Tudo é impermanente. E o que nos causa dor é a não aceitação disso.

A impermanência não é de interesse apenas filosófico. É de interesse pessoal. Somente quando aceitarmos e entendermos profundamente em nosso ser, que as coisas mudam de momento a momento e nunca param um instante sequer, só então conseguiremos soltar. E, quando realmente soltamos dentro de nós, o alívio é enorme.

Temos essa vida humana preciosa, e o que estamos fazendo com ela? Onde está a preciosidade? Nossa vida humana só é preciosa se a usamos de modo significativo. Do contrário, não é uma vida preciosa. Ela não é preciosa apenas por sermos humanos. Ela só é preciosa e rara se a usamos de modo significativo.

Quando as pessoas são más ou grosseiras conosco, ou nos enganam ou abandonam, temos a chance de enxergar isso.

De modo semelhante, não podemos nos livrar de todas as circunstâncias adversas e dificuldades do mundo. Existem bilhões de outras pessoas no mundo e somos apenas um. Mas não precisamos mudar todo mundo. Tudo o que precisamos transformar é a nossa própria mente. Quando nossa mente é transformada, tudo é transformado.

Precisamos desenvolver um coração realmente aberto, um coração generoso, um coração receptivo e paciente. Temos que ter uma conduta ética muito clara, viver nesse mundo de uma forma que jamais causemos dano aos outros de jeito algum, nem dano a nós mesmos. Devemos viver uma vida muito inofensiva, não pensando apenas em nós, mas cuidando dos outros, de modo que, ao encontrar cada ser, nosso primeiro sentimento seja: “Que você possa ficar bem e ser feliz.”

Depende de nós. Felicidade e infelicidade dependem do próprio indivíduo. O que fazemos com as circunstâncias que encontramos depende de nós.

Não sabemos quando vamos morrer. Cada respiração pode ser a última. Não sabemos. Quando acordamos de manhã, deveríamos dizer: “Que incrível não ter morrido durante a noite.” Quando vamos dormir à noite, deveríamos dizer: “Que incrível que durei todo esse dia e ainda não morri.” Quem sabe quando vamos morrer? Honestamente, ninguém sabe.

 

2. Carma ou Causa e Efeito

A Impermanência e o Carma foram os dois conceitos que mais mudaram minha vida.

Carma é intenção. Isso significa que cada ação intencional de corpo, fala ou mente planta sementes em nosso fluxo mental.

As três raízes negativas são os nossos velhos amigos – os três venenos. Ou seja, a delusão ou confusão, ganância ou desejo, e raiva ou ódio básicos. Toda ação que realizamos com uma motivação subjacente de delusão, ganância ou má vontade é negativa e resultará, ao final, em efeitos negativos. As ações que realizamos com as motivações opostas são tradicionalmente conhecidas como livres de delusão, de ganância e de má vontade. Significa que nos engajamos em ações com entendimento ou clareza da mente; com desapego ou generosidade (o oposto da ganância é a generosidade, o que significa querer compartilhar e doar, em vez de reter tudo para si mesmo); com bondade amorosa e compaixão. Essas três raízes virtuosas acabarão por trazer uma boa colheita.

 

3. Como criar felicidade

Pensamos que, se pudéssemos encontrar a relação ideal com a pessoa perfeita, que faça exatamente o que queremos que ela faça e que nos satisfaça completamente, em todos os sentidos, seríamos então perfeitamente felizes. Isso é muito revelador.

Pensamos na vida como algo muito estático e bastante seguro. Estamos sempre tentando manter o que temos, manter os nossos relacionamentos do jeito que são, a mesma aparência que tínhamos quando estávamos no nosso melhor momento. Negamos a realidade dos fatos da mudança e da impermanência, de que tudo muda a cada momento —as células no nosso corpo, os pensamentos na nossa mente. Tudo, em todos os lugares e em todos os momentos está em estado de fluxo. Mas tentamos nos segurar. Negamos continuamente o fato de que tudo está mudando, de que tudo está fluindo e de que encontros terminam em separações.

Agarrar-se a coisas e pessoas revela o nosso medo de perdê-los. E, quando de fato as perdemos, nós lamentamos. Em vez de segurar as coisas com tanta força, podemos segurar de leve. Assim, enquanto tivermos essas coisas, enquanto estivermos nessas relações, nós as apreciaremos. Nós as valorizaremos.

Pessoas mentalmente perturbadas gastam muito tempo pensando sobre si mesmas; ficam obcecadas com a sua própria felicidade e com o seu próprio sofrimento, e passam muito tempo, como muitos de nós, se perguntando: “Como faço para ser feliz?” Mas a ironia da situação é que, se pensamos menos sobre como podemos nos tornar felizes e mais sobre como podemos fazer os outros felizes, de alguma forma, nós mesmos acabamos sendo felizes. As pessoas que estão genuinamente preocupadas com os outros têm um estado mental muito mais feliz e pacífico do que as que estão continuamente tentando fabricar as suas próprias alegrias e satisfações.

Essa forma muito autocentrada de ver o mundo é uma das principais causas de nossa inquietação, porque o mundo é do jeito que é; o mundo nunca vai se encaixar em todas as nossas expectativas e em nossas esperanças irreais.

A verdadeira felicidade vem do coração. Vem de uma mente que se tornou mais estável, mais clara, mais presente no momento, uma mente aberta e que se preocupa com a felicidade dos outros seres. É uma mente que tem segurança interna, que sabe que pode lidar com o que quer que aconteça. É uma mente que não se agarra mais às coisas com tanta força; é uma mente que segura as coisas de leve. Esse tipo de mente é uma mente feliz.

Enquanto estivermos fixados em nós mesmos, em como podemos ser felizes, nunca seremos felizes. Apenas quando abrimos nosso coração para incluir todos os seres é que descobrimos, de repente, que essa alegria existe dentro de nós: começa como uma pequena nascente de água, livre da aridez dos nossos pensamentos de auto-apreço.

 

4. As oito preocupações mundanas

Essa tendência muito arraigada, de não ver as coisas como elas são, é algo que compartilhamos com praticamente todos aqueles que encontramos. E achamos que nosso ponto de vista deve ser verdadeiro, porque reflete a forma como todos nós vemos uns aos outros.

Querer ganhar;
Não querer perder;

Querer ser reconhecido;
Não querer ser ignorado.

Querer ser elogiado;
Não querer ser criticado;

Querer prazer;
Não querer dor.

 

5. Renúncia

Em nossa vida, precisamos definir valores. O que realmente importa para nós, nesta vida? Se não nos fazemos essas perguntas, ficamos apenas dando voltas, tentando apenas nos manter confortáveis. Para termos uma direção definida, precisamos definir um propósito para nós mesmos. Precisamos nos perguntar: o que seria uma vida bem vivida? Uma vez que tenhamos definido o nosso propósito, temos que descobrir quais coisas nos conduzem adiante nesse caminho e quais coisas são apenas distrações.

 

6. As Seis Perfeições

(…) as paramitas são traduzidas como as seis perfeições: generosidade, conduta ética, paciência, esforço entusiástico, meditação e sabedoria.

Tradicionalmente, existem três tipos diferentes de receptores de doações que nos são recomendados. Primeiro, pode-se doar para aqueles que de alguma maneira consideramos merecedores.

O segundo grupo de receptores pode incluir aqueles a quem doamos por gratidão, particularmente nossos pais. Também podem ser nossos professores e qualquer um que tenha nos ajudado de alguma forma.

Em terceiro lugar, podemos doar àqueles que estão em necessidade —os pobres e os doentes, ou qualquer um que tenha uma necessidade especial.

(…) a conduta moral baseia-se no princípio da inofensividade, de não ferir a si mesmo ou aos outros.

(…) esses cinco preceitos éticos básicos são: não tirar vidas; não tomar o que não for dado; não mentir; não se envolver em má conduta sexual; e não usar álcool ou drogas que intoxiquem a mente.

Qualquer tipo de atividade sexual que cause danos de qualquer forma a alguém não é saudável. A atividade sexual deve ser uma expressão de carinho, de amor, e não apenas um canal para a luxúria, a ganância e a exploração.

O preceito seguinte para contemplarmos é não mentir. E mentir não significa apenas dizer inverdades: na realidade inclui todas as falas não virtuosas. A fala hábil e sadia deve ser verdadeira, gentil e prestativa. Tem muita gente que se orgulha de ter uma fala honesta e afirma que diz o que vem à mente. Mas é surpreendente o quanto essa abordagem pode ser apenas um canal ou abertura para a expressão de negatividades —a raiva, a má vontade e o ciúme da mente. Temos que ter muito cuidado, porque o nosso discurso realmente influencia outros.

Os tibetanos também têm um ditado: “Espadas podem ferir apenas a carne, mas palavras duras podem partir o coração de um homem em pedaços.” Isso é verdadeiro.

Precisamos estar conscientes do nosso tom de voz, da nossa forma de agir, da nossa linguagem corporal. E precisamos prestar atenção à forma como nos relacionamos com as crianças, pois isso pode afetar a forma como as crianças se relacionam consigo mesmas —tudo está interconectado. Esse é o nosso campo de prática. E onde precisamos nos transformar.

 

7. Lojong e bodhichitta

Colocar os outros antes de si mesmo é uma atitude chamada de treinamento da mente no budismo Mahayana, ou lojong em tibetano.

 

8. Fé e Devoção

Portanto, não somos hereges se não temos fé cega e uma crença em dogmas. Não é assim. A cada passo do caminho, temos que saber onde estamos colocando os pés. Temos que entender os significados. Temos que questionar. Temos que, de fato, investigar e usar a nossa inteligência.

 

9. Como praticar o bom coração

Temos que nos tornar amigos de nós mesmos e nos encorajar. Temos que nos lembrar de nossa bondade e também considerar o que pode ser preciso melhorar. Temos que nos lembrar, em especial, de nossa natureza essencial. Ela está encoberta, mas a sabedoria e a compaixão estão sempre presentes.

 

Eu evito bastante falar sobre religião. Novamente, não tenho o intuito de mudar a fé de ninguém. Apenas gosto de pessoas que falam do bem, de como podemos melhorar e ajudar outras pessoas a melhorarem também. É a única forma do mundo ter um futuro.

 

– Sílvia Souza

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6 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Olá Sílvia. São propostas muito interessantes, que eu gostarei ler novamente. Eu não tenho nenhuma dúvida de que a esta existência um vêm com nada e a deixamos sem bagagem nenhuma, eu acho que um bom prêmio é deixar as melhores recordações. Um abraço

    • Olá, Carlos!
      É isso mesmo… O que deixamos são as lembranças daqueles que nos amaram…
      E o que levamos (se é que levamos algo) são nossas vivências… Essa é minha crença.
      O que eu comprovei por minhas próprias experiências é que realmente colhemos o que plantamos…
      Um beijo grande!

  • claudio kambami disse:

    Bom saber que tenha gostado Silvia. Quanto ao entender de imediato não se assuste não és única e nem por ser matemática, lembre-se que estamos falando de uma filosofia oriental onde o entendimento ocidental fica bem aquém. O Budismo deve ser assimilado devagar, com compreensão profunda e não como uma regra decorada, dai a necessidade de meditações o que para muitos é difícil pela própria vida que levam. Beijos! <3

    • Eu incorporei a meditação à minha vida e é uma coisa maravilhosa. O problema é que as pessoas não querem nem mesmo tentar e já falam que são incapazes de meditar ou de esvaziar a mente…
      Como tudo na vida, meditar exige treino e prática diária…
      Eu gosto demais da filosofia budista (e de outras filosofias orientais); ela me traz paz.
      Um lindo domingo!
      Beijo!

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