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Livro “Mulheres de Cinzas” de Mia Couto

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Livro “Mulheres de Cinzas” de Mia Couto
Livro “Mulheres de Cinzas” de Mia Couto

Primeira publicação: 17-10-2015

Editora: Companhia das Letras (16-11-2015) – 344 páginas

ISBN13: 9788535926620

Sinopse: Primeiro livro da trilogia “As Areias do Imperador”, “Mulheres de cinzas” é um romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane (ou Gungunhane, como ficou conhecido pelos portugueses), o último dos líderes do Estado de Gaza – segundo maior império no continente comandado por um africano. Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado ao vilarejo de Nkokolani para a batalha contra o imperador que ameaçava o domínio colonial. Ali o militar encontra Imani, uma garota de quinze anos que aprendeu a língua dos europeus e será sua intérprete. Ela pertence à tribo dos VaChopi, uma das poucas que ousou se opor à invasão de Ngungunyane. Mas, enquanto um de seus irmãos lutava pela Coroa de Portugal, o outro se unia ao exército dos guerreiros do imperador africano. O envolvimento entre Germano e Imani passa a ser cada vez maior, malgrado todas as diferenças entre seus mundos. Porém, ela sabe que num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar despercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas. Ao unir sua prosa lírica característica a uma extensa pesquisa histórica, Mia Couto construiu um romance belo e vívido, narrado alternadamente entre a voz da jovem africana e as cartas escritas pelo sargento português.

 

Mia Couto nasceu em 1955, na Beira, Moçambique. É biólogo, jornalista e autor de mais de trita livros, entre prosa e poesia. Seu romance Terra sonâmbula é considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX. Recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o Camões em 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o Neustadt International Prize em 2014, e foi indicado para o Man Booker International Prize de 2015.

 

— Você não entende uma coisa, meu filho. Não é a guerra que pede armas. É o contrário, as armas é que fazem nascer a guerra.

Mulheres de cinzas é o primeiro volume da trilogia As areias do imperador, onde Mia Couto pretende contar uma parte da história de Moçambique.

Existe uma alternância entre dois narradores: Imani, uma jovem de 15 anos da tribo VaChopi, e Germano de Melo, um sargento português recém enviado a Moçambique. Imani foi educada por padres, aprendeu a ler e a escrever em português, além de ter recebido os ensinamentos religiosos. Como sua pronúncia da língua portuguesa é perfeita, ela é enviada pelo pai para ajudar o sargento, sendo sua intérprete e ajudando em algumas tarefas domésticas.

Mesmo tendo sido alfabetizada dentro de uma língua europeia, Imani é uma jovem nascida no final do Século XIX na África e criada dentro de todos os costumes, folclores, lendas e crenças de sua tribo. E, na minha opinião, a beleza do livro está justamente neste contraste entre colonizador e colonizado.

Mia Couto usa sua escrita sensível e poética para descrever os costumes de cada um dos povos descritos no livro, suas superstições, crenças, guerras e amores.

Os imperadores têm fome de terra e os seus soldados são bocas devorando nações. Aquela bota quebrou o Sol em mil estilhaços. E o dia ficou escuro. Os restantes dias também. Os sete sóis morriam debaixo das botas dos militares. A nossa terra estava a ser abocanhada. Sem estrelas para alimentar os nossos sonhos, nós aprendíamos a ser pobres. E nos perdíamos da eternidade. Sabendo que a eternidade é apenas o outro nome da Vida.

Eu tenho uma admiração profunda pela escrita de Mia Couto há vários anos; desde que entrei em contato com sua obra. Ele sempre incorpora o folclore de Moçambique em seus textos e valoriza muito sua terra natal. Para esta trilogia, ele fez um extenso levantamento histórico, no qual se baseou para escrever essa obra de ficção.

A nossa terra, porém, era disputada por dois pretensos proprietários: os VaNguni e os portugueses. Era por isso que se odiavam tanto e estavam em guerra: por serem tão parecidos nas suas intenções.

Imani é uma menina que nos cativa desde o início. Ela tinha duas irmãs que morreram e foi a única filha que permaneceu viva; e tem dois irmãos: o mais velho escolheu lutar pelo guerreiro africano, inimigo de Portugal e o mais novo resolveu defender os colonizadores. Em sua narrativa, Imani tem uma sabedoria enorme, não faz julgamentos, tenta compreender os pontos de vista de cada um de seus familiares e mostra de forma explícita as diferenças entre as culturas que nos são apresentadas.

Há, em Nkokolani, um provérbio que diz o seguinte: se quiseres conhecer um lugar fala com os ausentes; se quiseres conhecer uma pessoa escuta-lhes os sonhos. Pois esse era o único sonho de nossa mãe: voltar ao lugar onde fôramos felizes e onde vivêramos em paz. Aquela saudade era infinita. Haverá, a propósito, saudade que não seja infinita?

O sargento Germano, recém chegado de Portugal, não nos é apresentado como os outros portugueses; ele se recusa a ser carregado nas costas de um dos moradores do local, coisa que era costume acontecer. Ele trata as pessoas das terras conquistadas quase como iguais e não como seres inferiores. E, desde o primeiro contato, ele se encanta com Imani e com a pronúncia perfeita do seu português.

Ele se apaixona pela menina e ela está sempre presente em seus sonhos, mas ele não tem coragem de demonstrar seus sentimentos. A menina também gosta do sargento. Mas eles vivem a guerra e Portugal não defende a região como os moradores esperam. Em uma das batalhas, um grande número de pessoas morre; é um massacre.

Durante meia dúzia de anos saboreámos a Paz pensando que duraria para sempre. Mas a Paz é uma sombra em chão de miséria: basta o acontecer do Tempo para que desapareça.

O descumprimento de promessas do sargento feitas ao povo faz com que Imani perca sua confiança nele e acabe se desiludindo. Mas o livro não é sobre a história de amor. É sobre uma história de muito sofrimento de um povo que vive entre dois poderes que desejam as terras onde eles vivem. E não existe felicidade em meio à guerra e ao sofrimento.

Sorte a dos que, deixando de ser humanos, se tornam feras. Infelizes os que matam a mando de outros e mais infelizes ainda os que matam sem ser a mando de ninguém. Desgraçados, enfim, os que, depois de matar, se olham ao espelho e ainda acreditam serem pessoas.

A história é triste. Mas o texto é belíssimo. Ainda não li os outros dois volumes da trilogia para saber como será a continuação. Uma coisa que me deixa feliz é ver que o texto não passou por nenhuma adaptação para se adequar ao português do Brasil. Ele permanece original, da forma como foi escrito por Mia Couto.

Fica a dica de um escritor que vale a pena conhecer.

No silêncio que se seguiu fui estudando a melhor maneira de anunciar a minha retirada. A minha timidez ensinava-me que os tímidos e os invisíveis se tornam insuportavelmente expostos quando se despedem. Era noite e eu era apenas uma mulher entre estranhos.

– Sílvia Souza

 

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3 Comments
  • carlos disse:

    Olá Sílvia parece uma leitura emocionante. As guerras em África têm sido escondido sob as lutas entre os europeus, eu vou esperar o seu comentário sobre as outras partes dis antes de escrevê-las na lista. Um abraço.

    • Silvia Souza disse:

      Bom dia, Carlos!
      Tudo bem?
      Você já leu algum texto do Mia Couto?
      Ele tem alguns contos lindos… Se tiver chance, vale a pena.
      Beijo!

      • carlos disse:

        Olá Silvia, Tudo anda bem. Ainda não ler qualquer livro dela, eu tenho uma lista enorme de leituras que cresce a cada semana que passa. Mas eu vou considerar a sua recomendação.Um abraço.

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