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Livro “Memórias do Subsolo” de Fiódor Dostoiévski

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Livro “Memórias do Subsolo” de Fiódor Dostoiévski
Livro “Memórias do Subsolo” de Fiódor Dostoiévski

Título Original: Записки из подполья

Primeira Publicação: 1864

Tradutor: Boris Schnaiderman

Editora: Editora 34 (2000)

ISBN13: 9788573261851

Sinopse: Escrito na cabeceira de morte de sua primeira mulher, numa situação de aguda necessidade financeira, “Memórias do subsolo” condensa um dos momentos mais importantes da literatura ocidental, reunindo vários temas que reaparecerão mais tarde nos últimos grandes romances do escritor russo. Aqui ressoa a voz do “homem do subsolo”, o personagem-narrador que, à força de paradoxos, investe ferozmente contra tudo e contra todos – contra a ciência e contra a superstição, contra o progresso e contra o atraso, contra a razão e a desrazão-; mas investe, acima de tudo, contra o solo da própria consciência, criando uma narrativa ímpar, de altíssima voltagem poética, que se afirma e se nega a si mesma sucessivamente. Não é por acaso que muitos acabaram vendo neste livro uma prefiguração das ideias de Freud acerca do inconsciente. O próprio Nietzsche, ao lê-lo pela primeira vez, escreveu a um amigo: “A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”.

A cada novo livro de Dostoiévski que leio, mais aumenta minha admiração por esse escritor russo. Suas obras são repletas de questionamentos de todos os tipos: sociais, pessoais, íntimos, sobre o comportamento das pessoas. São obras com enorme cunho filosófico, mas são obras de ficção; a filosofia e as análises psicológicas estão contidas nos personagens através de seus discursos ou do comportamento dos mesmos.

Inicialmente foi “Crime e Castigo”. Depois, “Os Irmãos Karamázov”, uma obra-prima. Agora, “Memórias do Subsolo”. E já incluí toda a produção literária de Dostoiévski na minha lista de leitura.

Em “Memórias do Subsolo”, a narrativa em primeira pessoa é altamente reflexiva. Muito mais do que contar eventos, na maior parte do tempo, o personagem analisa de forma muito dura e crítica seu comportamento e sua dificuldade de se relacionar com as outras pessoas. Essas análises mostram vários pensamentos contraditórios, o que é muito típico das pessoas que se questionam muito. Ao mesmo tempo em que ele sabe que é mais inteligente que a maioria das pessoas e que seus colegas, e tem nesse aspecto um discurso prepotente, ele é inseguro e se inferioriza em relação a todos por não ganhar muito, ter as roupas surradas e não participar da vida social.

Ele mantém durante toda a narrativa essa oscilação de opiniões, análises e comportamentos.

Já foi dito: o homem se vinga porque acredita que é justo. Quer dizer que ele encontrou a causa primeira, o fundamento: a justiça. Isto é, como ele está tranquilizado por todos os lados, vinga-se calmamente e com êxito, convicto de que pratica uma ação honesta e justa. Mas eu não vejo nisso justiça nem qualquer espécie de virtude; se começar a vingar-me, será unicamente por maldade.

O livro é dividido em duas partes. A primeira parte fica restrita ao monólogo, às suas lembranças, às dificuldades de se colocar em grau de igualdade com os outros. É uma parte tortuosa, da mesma forma como são tortuosos os nossos pensamentos. E ele assume coisas que são verdadeiras para todos, mas que a maioria das pessoas faz questão de negar ou, simplesmente, assume uma posição condescendente consigo mesmo, criando uma motivação positiva para alguma atitude mesquinha ou tirânica.

Pois o homem é estúpido, de uma estupidez fenomenal.

A segunda parte descreve uma narrativa de quando ele era mais novo, um encontro com colegas (com quem nunca teve bom relacionamento) e a conclusão da noite em um bordel clandestino e elegante. As conversas com os amigos e com a prostituta acontecem não só como diálogos entre os personagens, mas com toda a carga do diálogo íntimo que ele trava consigo mesmo, com sua insegurança e contradição.

Mas, ainda que não seja estúpido, é monstruosamente ingrato! É ingrato numa escala fenomenal. Penso até que a melhor definição do homem seja: um bípede ingrato. Mas isto ainda não é tudo, ainda não é tudo, ainda não é o seu maior defeito; o seu maior defeito é a sua permanente imoralidade. (…) A imoralidade e, por conseguinte, também a falta de bom senso, pois há muito tempo se sabe que esta provém unicamente da imoralidade.

O quanto efetivamente compreendemos dos nossos sentimentos? Quanto compreendemos das nossas reais motivações para cada uma das nossas atitudes? Quanto conseguimos filtrar das interferências das outras pessoas, dos fatos, dos artifícios que nosso próprio cérebro usa para sejamos condescendentes conosco?

Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui. Pelo menos, eu mesmo só recentemente me decidi a lembrar as minhas aventuras passadas, e, até hoje, sempre as contornei com alguma inquietação. Mas agora, que não apenas lembro, mas até mesmo resolvi anotar, agora quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral?

Definitivamente, Dostoiévski está na categoria de autores que admiro mais a cada livro lido. Ele não dá respostas. Mas existem respostas definitivas para alguma coisa?

– Sílvia Souza

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