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Livro “Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios e outras sandices crônicas” de André J. Gomes

Livro “Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios e outras sandices crônicas” de André J. Gomes
Livro “Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios e outras sandices crônicas” de André J. Gomes

Primeira publicação: 2014

Editora: Nova Alexandria

ISBN13: 9788574923987

Sinopse: “A bordo dessas ‘sandices’, vamos adentrar no mundo ‘sonhado’ por André J. Gomes, onde ainda podemos enxergar rostos no desenho dos ladrilhos, pular poças de água, apertar campainhas e fugir correndo. Nesse mundo, a passagem da juventude é um anoitecer de domingo, as pessoas voltam ao interior de seus parênteses, a fábrica de encontros e desencontros gera poesia, os velhos se instalam no conforto de suas meias, o silêncio é doce e bom.” (João Anzanello Carrascoza)

 

André J. Gomes é jornalista pós-graduado em Gestão Estratégica da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA-USP. Com 20 anos de experiência profissional, produziu conteúdo editorial e publicitário para inúmeros clientes em diversos segmentos. É redator em agência de propaganda e professor da Escola Superior de Administração, Marketing e Comércio – ESAMC em Sorocaba e colunista da Revista Bula, onde foram publicados originalmente todos os textos deste livro.

 

Sempre gostei muito dos textos de André J. Gomes. Atualmente, seus artigos não são mais publicados na Revista Bula, mas ainda podem ser lidos através de sua página no Facebook.

Este livro reúne várias de suas crônicas que tinham sido publicadas na Bula. Muitas delas eu já conhecia. Mas é sempre uma satisfação poder lê-las novamente.

Transcrevi abaixo a minha preferida entre as que estão reunidas no livro.

 

A ESPERANÇA É UM ATO DE RESISTÊNCIA. RESISTA.

 

Você que de quando em vez chora à noitinha, na solidão da alcova. Você que se arrebenta no cumprimento das obrigações. Que perde um tempo danado desviando das porradas de todo dia.

Você que tem medo do arrependimento um minuto depois de tomar uma decisão. Você que esconde seu pavor de morrer só, de não ter onde cair morto, de lhe faltar um gato para puxar pelo rabo.

Você que ainda tem avós mas que pouco os vê. Que tem saudade da infância, que sente culpa por não telefonar mais seguido a seus pais. Você que já não tem pais e nem avós e quase só usa o telefone para pedir comida e responder que não, não quer assinar jornal nenhum.

Você que tem uma inveja inofensiva das pessoas que demonstram afeto. Você que queria ter mais irmãos, você que tem irmãos distantes, você que não tem irmão nenhum.

Você que ainda corta a carne no prato do filho ou da filha. Que tem criança pequena e conhece o medo doloroso de lhe faltar.

Você que se deu conta de que nunca será um astronauta, um campeão olímpico, um astro do rock. Que acha superficial e cínico quem defende que não se deve dar esmolas, quando a quem pede esmolas nada se faz para ajudá-lo a seguir outro caminho.

Você que olhou nos olhos de um mendigo e sentiu um calafrio em algum lugar insuspeitado da alma.

Você que sentiu culpa por estar ocupado demais para ouvir um amigo quando ele mais honestamente precisou falar.

Você que já passou horas deitado no sofá de barriga para baixo, cutucando com a unha a sujeira leve que pousa e se instala impertinente nas ranhuras do chão. Você que enxerga rostos nos desenhos dos ladrilhos. Que observou a poeira flutuando contra a luz do sol e lembrou de um amor antigo. Você que não sabe lidar com um amor novo.

Você que, no mais das vezes, das conversas do dia a dia não ouve nada senão relinchos, cacarejos e conversas para boi dormir entupidas de preconceito e burrice.

Você que já se perguntou onde repousam as borboletas, enquanto imaginava sua vida secreta, e esse foi seu único instante de paz no dia confuso. Você que descobriu espantado que as baratas, quando esmagadas pelo chinelo da gente, liberam ovos que se transformarão em novas baratas que sobreviverão à hecatombe nuclear.

Você que já pediu a Deus um tempo para viajar a um lugar distante e ver o sol nascer de outro canto, na tentativa honesta de lavar com sabão e esponja a sua alma cheia de borras e sentimentos esverdeados, envelhecidos. Depois estendê-la no varal de um dia inteiro e deixá-la ali secando ao sol.

Você que já teve a impressão de que, se não fizer alguma coisa, a vida periga se transformar em um eterno domingo à noite.

Você…

Seja bem-vindo. Bem-vinda. Dá cá um abraço. Viver dói e se dói é porque você vive. Resista, deixe estar.

E acredite: para cada angústia há uma desforra gloriosa, esperando sua vez de vir ao mundo.

 

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1 Comment
  • carlos disse:

    Sílvia Olá, eu acho que é uma história que chama a realidade da vida cotidiana para a maioria das pessoas. Mas esplendidamente feita. Um abraço.

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