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Livro “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” de Yuval Noah Harari

Livro “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” de Yuval Noah Harari
Livro “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” de Yuval Noah Harari

Título original: The History of Tomorrow

Primeira publicação: 2015

Editora: Companhia das Letras (19/10/2016) – 448 páginas

Tradutor: Paulo Geiger

ISBN13: 9788535928198

Sinopse: Neste “Homo Deus: uma breve história do amanhã”, Yuval Noah Harari, autor do estrondoso best-seller “Sapiens: uma breve história da humanidade”, volta a combinar ciência, história e filosofia, desta vez para entender quem somos e descobrir para onde vamos. Sempre com um olhar no passado e nas nossas origens, Harari investiga o futuro da humanidade em busca de uma resposta tão difícil quanto essencial: depois de séculos de guerras, fome e pobreza, qual será nosso destino na Terra? A partir de uma visão absolutamente original de nossa história, ele combina pesquisas de ponta e os mais recentes avanços científicos à sua conhecida capacidade de observar o passado de uma maneira inteiramente nova. Assim, descobrir os próximos passos da evolução humana será também redescobrir quem fomos e quais caminhos tomamos para chegar até aqui.

 

Yuval Noah Harari nasceu em Haifa, Israel, em 24 de Fevereiro de 1976, filho de pais judeus libaneses. Ele é um professor de História, lecionando no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, especializado em História medieval e História militar, antes de completar seu doutorado na Universidade de Oxford em 2002. Ele agora é especializado em História mundial e processos da macro-história.

 

No dia 11 de junho, publiquei sobre o livro “Sapiens” do mesmo autor. Sempre tenho um receio de ler os best sellers, porque, com muita frequência, acabo me decepcionando. Com “Sapiens”, isso não aconteceu. Achei o livro brilhante, especialmente na parte da história da humanidade, com a capacidade de Harari conseguir descrever o surgimento dos primeiros Homo, até o aparecimento do Homo sapiens e de como eles conseguiram se espalhar pelo mundo todo. E o melhor foi como ele mostrou a perspectiva dos milênios e de como a vida de cada um de nós representa nada na história da raça humana. Através da história e dos dados científicos e das pesquisas atuais, ele conseguiu nos dar um ponto de vista interessante do que pode ser nosso futuro como espécie. O livro é excelente, bem embasado e bastante envolvente.

Acabei cedendo à leitura de “Homo Deus”, basicamente por causa das críticas, que estavam boas. Mas não gostei tanto quanto “Sapiens”. Não que o livro seja propriamente ruim, mas “Homo Deus” parece mais do mesmo. Além de contar muito do que já estava presente em “Sapiens”, não fala tanto da parte histórica (que foi a minha favorita) e ele se perde mais na construção de uma visão absolutamente pessimista para o futuro, com a completa extinção da espécie humana. O autor acredita que surgirá uma nova “espécie”, totalmente baseada nos computadores e na Inteligência Artificial (AI). Não que eu ache que isso seja improvável. Apenas não comungo com a mesma visão tão terrível como aquela que Harari propõe no livro.

Mesmo assim, assinalei alguns trechos de que gostei e gostaria de compartilhar. Quem sabe pode estimular o interesse na leitura do livro ou, pelo menos, facilitar a decisão sobre lê-lo ou não.

Aproveito para nomear as partes e capítulos em que o livro está dividido.

1. A nova agenda humana

Pela primeira vez na história, hoje morrem mais pessoas que comeram demais do que de menos; mais pessoas morrem de velhice do que de doenças infecciosas; e mais pessoas cometem suicídio do que todas as que, somadas, são mortas por soldados, terroristas e criminosos.

Aproximadamente 2,8 milhões de franceses — 15% da população — morreram de fome entre 1692 e 1694, enquanto o Rei Sol, Luís XIV, flertava com sua amante em Versalhes. No ano seguinte, 1695, a fome assolou a Estônia e matou um quinto da população. Em 1696 foi a vez da Finlândia, onde entre um quarto e um terço da população morreu. A Escócia sofreu sob uma fome rigorosa entre 1695 e 1698, e alguns distritos perderam até 20% de seus habitantes.

Ondas maciças de fome ainda atingem algumas regiões de tempos em tempos, mas são exceções, quase sempre provocadas por políticas humanas e não por catástrofes naturais. Não ocorrem mais surtos de fome por causas naturais; há apenas fomes políticas.

Embora centenas de milhões de pessoas ainda passem fome quase todos os dias, na maioria dos países o número de mortes por inanição é muito pequeno.

A pobreza certamente causa muitos outros problemas de saúde, e a má nutrição reduz a expectativa de vida até mesmo nos países mais ricos. Na França, por exemplo, 6 milhões de pessoas (cerca de 10% da população) padecem de insegurança nutricional.

Na verdade, na maioria dos países, o hábito de comer demais tornou-se um problema muito pior que o da fome.

Em 2010, fome e subnutrição combinadas mataram cerca de 1 milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou 3 milhões.

[…] a chamada Peste Negra, ou peste bubônica, teve início na década de 1330, em algum lugar da Ásia Central ou Oriental, quando a bactéria Yersinia pestis, que tinha a pulga como hospedeiro, começou a infectar os humanos que eram picados por esse inseto. De lá, montada num exército de ratos e pulgas, a peste espalhou-se rapidamente pela Ásia, Europa e pelo norte da África, levando menos de vinte anos para chegar às margens do oceano Atlântico. Entre 75 milhões e 200 milhões de pessoas morreram — mais de um quarto da população da Eurásia. Na Inglaterra, quatro em cada dez pessoas pereceram, e a população caiu de 3,7 milhões antes da peste para 2,2 milhões depois dela. A cidade de Florença perdeu 50 mil de seus 100 mil habitantes.

Em março de 1520, quando a esquadra espanhola chegou, o México abrigava 22 milhões de pessoas; em dezembro do mesmo ano apenas 14 milhões ainda estavam vivas. A varíola foi apenas o primeiro golpe. Enquanto os novos senhores espanhóis estavam ocupados enriquecendo e explorando os nativos, ondas letais de gripe, sarampo e outras doenças infecciosas, uma após a outra, varreram o país, até que em 1580 sua população fora reduzida a menos de 2 milhões de pessoas.

Epidemias continuaram a matar dezenas de milhões de pessoas em pleno século XX. Em janeiro de 1918, soldados nas trincheiras do norte da França começaram a morrer aos milhares de um tipo especialmente virulento de gripe, denominado “gripe espanhola”. […] No total, a pandemia matou entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas em menos de um ano. A Primeira Guerra Mundial matou 40 milhões de 1914 a 1918.

Durante o último século, a humanidade ficou ainda mais vulnerável a epidemias, graças à combinação de dois fatores: aumento da população e meios de transporte mais eficientes. […] Um vírus espanhol pode chegar ao Congo ou ao Taiti em menos de 24 horas.

Enquanto nas antigas sociedades agrícolas a violência humana foi a causa de 15% de todas as mortes, durante o século XX a violência provocou apenas 5% dos óbitos, e no início do século XXI foi responsável por cerca de 1% da mortalidade global. Em 2012, aproximadamente 56 milhões de pessoas morreram no mundo inteiro; 620 mil morreram em razão da violência humana (guerras mataram 120 mil pessoas, o crime matou outras 500 mil). Em contrapartida, 800 mil cometeram suicídio, e 1,5 milhão morreram de diabetes.

No entanto, o terrorismo é uma estratégia de fraqueza adotada por aqueles que carecem de acesso ao poder de fato. Ao menos no passado, seu funcionamento era resultado mais da disseminação do medo do que de danos materiais significativos. Terroristas normalmente não têm o poder de derrotar qualquer exército, de ocupar um país ou de destruir cidades inteiras.

Somos dotados da capacidade de fazer as coisas melhorarem e de reduzir ainda mais a incidência do sofrimento.

A reação mais comum da mente humana a uma conquista não é satisfação, e sim o anseio por mais. Os seres humanos estão sempre em busca de algo melhor, maior, mais palatável.

Grande parte de nossa criatividade artística, de nosso comprometimento político e de nossa fé religiosa é alimentada pelo medo da morte.

Na Grécia antiga, o filósofo Epicuro explicou que o culto a deuses é um desperdício de tempo, que não há existência após a morte e que a felicidade é o único propósito da vida.

O teto de vidro da felicidade é mantido no lugar por dois pilares sólidos, um psicológico e outro biológico. No nível psicológico, a felicidade depende mais de expectativas do que de condições objetivas. Não ficamos satisfeitos com uma existência pacífica e próspera. Em vez disso, nosso contentamento resulta de a realidade corresponder a nossas expectativas.

No nível biológico, tanto nossas expectativas como nossa felicidade são determinadas mais pela bioquímica do que pela situação econômica, social ou política.

Há cerca de 2300 anos, Epicuro advertiu seus discípulos de que a busca sem moderação do prazer provavelmente os faria infelizes, e não o contrário. Alguns séculos antes, Buda fez uma declaração ainda mais radical, ao ensinar que a busca de sensações prazerosas é com efeito a verdadeira raiz do sofrimento. Essas sensações são apenas vibrações efêmeras e inexpressivas. Mesmo quando as experimentamos, não reagimos a elas com contentamento; em vez disso, ansiamos por mais. Não importa, portanto, quantas sensações de bem-aventurança ou excitação alguém possa experimentar — elas sempre serão insuficientes.

Companhias de seguro, fundos de pensão, sistemas de saúde e ministérios de Fazenda estão horrorizados com o salto na expectativa de vida humana. As pessoas estão vivendo muito mais do que se esperava, e não há dinheiro suficiente para pagar sua aposentadoria e os tratamentos médicos de que necessitam. Os setenta anos ameaçam tornar-se os novos quarenta, e especialistas defendem a elevação da idade de aposentadoria e a reestruturação do mercado de trabalho.

Como ninguém compreende o sistema como um todo, ninguém pode fazê-lo parar.

Segundo, se alguém de algum modo conseguir pisar nos freios, nossa economia vai entrar em colapso, assim como a sociedade.

Não existe uma linha que separa claramente a cura do aprimoramento. A medicina quase sempre atua salvando pessoas de se posicionarem abaixo dos padrões existentes, mas as mesmas ferramentas e o mesmo know-how podem mais tarde ser usados para elevá-los.

Esse é o paradoxo do conhecimento histórico. Conhecimento que não muda o comportamento é inútil. Mas aquele que muda o comportamento perde rapidamente a relevância. Quanto mais dados tivermos e quão melhor compreendermos a história, mais rapidamente a história alterará seu curso, e mais rapidamente nosso conhecimento se tornará obsoleto.

Hoje o conhecimento cresce a uma velocidade vertiginosa, e teoricamente deveríamos compreender o mundo cada vez melhor. Mas acontece exatamente o contrário. Nosso recém-descoberto conhecimento acarreta mudanças econômicas, sociais e políticas mais rápidas; ao tentarmos compreender o que está acontecendo, aceleramos o acúmulo de conhecimento; o que só gera reviravoltas mais rápidas e maiores. Consequentemente tornamo-nos cada vez menos capazes de fazer uma ideia do presente ou de prever o futuro.

Embora historiadores ocasionalmente arrisquem fazer profecias (sem muito sucesso), o estudo da história visa acima de tudo nos tornar cientes de possibilidades que talvez não levássemos em consideração. Historiadores estudam o passado não para poder repeti-lo, e sim para poder se libertar dele.

 

Parte I: O Homo sapiens conquista o mundo

2. O Antropoceno

3. A epifania humana

Em vez disso, o fator crucial de nossa conquista do mundo foi nossa capacidade de conectar muitos humanos uns com os outros.

Por tudo o que sabemos, somente os Sapiens são capazes de cooperar de modos muito flexíveis com um grande número de estranhos. Essa capacidade concreta — e não uma alma eterna ou algum tipo único de consciência — explica nosso domínio sobre o planeta Terra.

Sapiens não se comportam segundo uma lógica matemática fria, e sim de acordo com uma cálida lógica social. Somos governados por emoções.

Toda cooperação humana em grande escala baseia-se em última análise na nossa crença em ordens imaginadas. São conjuntos de regras que, a despeito de só existirem na nossa imaginação, acreditamos serem tão reais e invioláveis quanto a gravidade. […] Enquanto todos os Sapiens que habitam um determinado lugar acreditarem nas mesmas histórias, todos seguirão as mesmas regras, o que facilitará prever o comportamento de estranhos e organizar redes de cooperação massiva.

Mas ainda não queremos aceitar que nosso Deus, nossa nação, nossos valores são apenas ficção porque é isso que dá sentido a nossa vida. Queremos crer que nossa vida tem algum significado objetivo e que nossos sacrifícios têm importância para algo que está além das histórias em nossa cabeça. Na verdade, contudo, a vida da maioria das pessoas só tem significado dentro da rede de histórias que elas contam umas para as outras.

Mas no decorrer de décadas e de séculos a teia de significados se desfia e uma nova teia estende-se em seu lugar. Estudar história significa observar a tecedura e o desfazimento dessa teia e dar-se conta de que o que parece ser o que há de mais importante na vida de alguém em determinado período torna-se para seus descendentes algo totalmente desprovido de significado.

Os Sapiens governam o mundo porque somente eles são capazes de tecer uma teia intersubjetiva de significados: uma teia de leis, forças, entidades e lugares que existem unicamente em nossa imaginação comum.

 

Parte II: O Homo sapiens dá um significado ao mundo

4. Os contadores de histórias

A grande maioria das pessoas permaneceu iletrada até a era moderna, mas todos os administradores importantes tinham cada vez mais acesso à realidade por meio de textos escritos. Para essa elite letrada — tanto no Egito antigo como na Europa do século XXI —, tudo o que estiver escrito num pedaço de papel é tão real quanto as árvores, os bois e os seres humanos.

Na primavera de 1940, quando os nazistas invadiram a França pelo norte, muitas pessoas da população judaica tentaram fugir do país em direção ao sul. Para cruzar a fronteira, precisavam de vistos da Espanha e de Portugal. Com outros refugiados, dezenas de milhares de judeus cercaram o consulado português em Bordeaux numa tentativa desesperada de conseguir o pedaço de papel que salvaria suas vidas. O governo português proibiu que seus cônsules na França emitissem vistos sem a aprovação prévia do Ministério do Exterior, mas o cônsul em Bordeaux, Aristides de Sousa Mendes, decidiu desobedecer à ordem, jogando pela janela trinta anos de carreira diplomática. Enquanto tanques nazistas se fechavam sobre a cidade, Sousa Mendes e sua equipe trabalhavam sem parar durante dez dias e dez noites, quase sem dormir, emitindo vistos, carimbando pedaços de papel. Sousa Mendes emitiu milhares de vistos antes de desabar de exaustão.

O governo português — com pouca vontade de aceitar refugiados — enviou agentes para escoltar o cônsul desobediente de volta para casa e o exonerou do cargo. No entanto, funcionários que pouco ligavam para as aflições de seres humanos tinham, não obstante, profunda reverência por documentos, e os vistos que Sousa Mendes emitiu desobedecendo às ordens foram respeitados por burocratas franceses, espanhóis e portugueses, fazendo desaparecer mais de 30 mil pessoas da armadilha mortal nazista. Sousa Mendes, armado com pouco mais do que um carimbo de borracha, foi responsável pela maior operação de resgate realizada por um único indivíduo durante o Holocausto.

A linguagem escrita pode ter sido concebida como um meio poderoso de reformatar a realidade. Quando relatórios oficiais colidiram com a realidade objetiva, foi a realidade que teve de se render. Qualquer um que alguma vez teve de lidar com autoridades do fisco, com o sistema educacional ou com qualquer outra burocracia complexa sabe que a verdade quase nunca importa. O que está escrito no formulário é muito mais importante.

No final do século XIX, várias potências europeias reivindicaram territórios africanos. Temendo que reivindicações conflitantes pudessem levar a uma guerra europeia total, as partes envolvidas reuniram-se em Berlim em 1884 e dividiram o continente como se fosse uma torta. Naquela época, grande parte do interior africano era terra desconhecida para os europeus. Britânicos, franceses e alemães dispunham de mapas precisos das regiões costeiras da África e sabiam exatamente onde os rios Níger, Congo e Zambezi desaguavam no oceano. No entanto, tinham poucas informações sobre o curso desses rios no interior, sobre os reinos e tribos que viviam ao longo de suas margens e sobre a religião, a história e a geografia locais. Isso quase não interessava aos diplomatas europeus. Eles desenrolaram um mapa vazado da África, estenderam-no sobre uma mesa muito bem polida em Berlim, rabiscaram algumas linhas aqui e ali e dividiram o continente entre eles.

Quando oportunamente penetraram no interior da África, armados com seu mapa consensual, os europeus descobriram que muitas das fronteiras desenhadas em Berlim dificilmente correspondiam à realidade geográfica, econômica e étnica do continente. Contudo, para evitar divergências renovadas, os invasores mantiveram o acordo, e essas linhas imaginárias tornaram-se as fronteiras efetivas das colônias europeias. Durante a segunda metade do século XX, à medida que os impérios europeus desmoronavam e suas colônias ganhavam independência, os novos países aceitavam as fronteiras coloniais, temendo que uma alternativa levasse a guerras e conflitos sem fim. Muitas das dificuldades que os países africanos enfrentam atualmente derivam do fato de que suas fronteiras não fazem muito sentido. Quando as fantasias escritas pelas burocracias europeias depararam com a realidade africana, a realidade foi obrigada a se render.

Abraham Lincoln disse que não se pode enganar todo mundo o tempo todo. Bem, isso é uma ilusão. Na prática, o poder das redes de cooperação humana depende de um equilíbrio delicado entre a verdade e a ficção. Se você distorce demasiadamente a realidade, isso vai enfraquecê-lo, e você não será capaz de competir com rivais que tenham uma visão mais clara. Por outro lado, você não vai conseguir organizar massas de pessoas sem se apoiar efetivamente em alguns mitos ficcionais. Se ficar agarrado à realidade pura, sem misturar nela alguma ficção, poucos o seguirão.

Ao se examinar a história de qualquer rede humana, é recomendável parar de vez em quando e olhar as coisas da perspectiva de alguma entidade real. Como se sabe se uma entidade é real? Muito simples — apenas pergunte a si mesmo: “Ela é capaz de sofrer?”. Quando pessoas derrubam e incendeiam o templo de Zeus, Zeus não sofre. Quando o euro se desvaloriza, o euro não sofre. Quando um banco vai à bancarrota, o banco não sofre. Quando um país é derrotado na guerra, o país na verdade não sofre. É só uma metáfora. Em contraste, quando um soldado é ferido em combate, ele sofre.

Por exemplo, a crença em mitos nacionais e religiosos pode provocar a eclosão de uma guerra na qual milhões de pessoas perderão suas casas, seus membros e até suas vidas. A causa da guerra é ficcional, mas o sofrimento é inteiramente real. É por isso que deveríamos nos empenhar em distinguir ficção de realidade.

Ficção não é algo ruim. Sem as histórias comumente aceitas sobre dinheiro, Estados ou corporações, nenhuma sociedade humana complexa poderia funcionar. […] Mas as histórias são apenas ferramentas. Elas não deveriam se tornar nossos objetivos, ou nossos parâmetros. Quando esquecemos que são mera ficção, perdemos o contato com a realidade. Depois começamos a fazer guerras “para fazer muito dinheiro para a corporação” ou “para proteger o interesse nacional”. Corporações, dinheiro e nações existem apenas em nossa imaginação. Nós os inventamos para nos servirem; por que chegamos a sacrificar nossas vidas a seu serviço?

 

5. O estranho casal

Entretanto, a religião é criada por humanos, e não por deuses, e é definida por sua função social, e não pela existência de deidades. Religião é qualquer coisa que confira legitimidade sobre-humana a estruturas sociais humanas. A religião legitima normas e valores humanos ao alegar que eles refletem leis sobre-humanas.

A religião afirma que nós humanos somos sujeitos a um sistema de leis morais que não foi inventado por nós e que não podemos mudar.

A afirmação de que a religião é uma ferramenta utilizada para preservar a ordem social e organizar uma cooperação em grande escala pode aborrecer aqueles para a qual ela representa um caminho espiritual. Contudo, assim como a brecha entre religião e ciência é mais estreita do que em geral se pensa, da mesma forma a brecha entre religião e espiritualidade é muito mais ampla. Religião é um trato, enquanto espiritualidade é uma jornada.

Essas jornadas são fundamentalmente diferentes de religiões porque estas buscam consolidar o mundano, enquanto a espiritualidade busca fugir dele. Com frequência, uma das mais importantes obrigações dos errantes da espiritualidade é desafiar as crenças e convenções das religiões dominantes.

Para as religiões, a espiritualidade é uma ameaça perigosa. Tipicamente, as religiões empenham-se para controlar as buscas espirituais de seus seguidores, e muitos sistemas religiosos são desafiados não por pessoas laicas preocupadas com comida, sexo e poder, e sim por buscadores da verdade espiritual que esperavam mais do que esses lugares-comuns.

De uma perspectiva histórica, a jornada espiritual é sempre trágica, pois é um caminho solitário apenas para indivíduos e não para sociedades inteiras. A cooperação humana requer respostas firmes e não somente perguntas justas, e aqueles que se enfurecem contra estruturas religiosas insensatas frequentemente acabam forjando novas estruturas em seu lugar. Isso aconteceu com os dualistas, cujas jornadas espirituais se tornaram estamentos religiosos. Isso aconteceu com Martinho Lutero, que, depois de desafiar as leis, as instituições e os rituais da Igreja católica, escreveu novos livros de leis, fundou novas instituições e inventou novas cerimônias. Isso aconteceu até mesmo com Buda e Jesus. Em sua busca intransigente da verdade, eles subverteram as leis, os rituais e as estruturas do hinduísmo e do judaísmo tradicionais. No entanto, ulteriormente mais leis, mais rituais e mais estruturas foram criados em seu nome do que em nome de qualquer outra pessoa na história.

[…] a ciência sempre precisou da ajuda da religião para criar instituições humanas viáveis. Os cientistas estudam como o mundo funciona, mas não há um método científico para determinar como os humanos devem se comportar.

A religião está interessada acima de tudo em ordem. Tem como objetivo criar e manter uma estrutura social. A ciência está interessada acima de tudo no poder. Por meio da pesquisa, tem como objetivo adquirir o poder de curar doenças, fazer guerras e produzir alimento. Como indivíduos, cientistas e sacerdotes podem atribuir imensa importância à verdade, mas, como instituições coletivas, a ciência e a religião preferem respectivamente ordem e poder acima da verdade. Por isso eles são bons companheiros. A busca inabalável da verdade é uma jornada espiritual, que raramente pode ficar confinada aos estamentos religiosos ou científicos.

 

6. A aliança moderna

O gênero humano foi salvo não pela lei da oferta e da procura, e sim pela ascensão de uma nova e revolucionária religião — o humanismo.

 

7. A revolução humanista

Não só temos muito mais poder como também, contra todas as expectativas, a morte de Deus não nos levou a um colapso social. No decorrer da história, profetas e filósofos alegaram que, se os humanos deixassem de acreditar num grande plano cósmico, toda lei e toda ordem iriam desaparecer. Hoje, porém, quem representa a maior ameaça à lei e à ordem globais são exatamente aqueles que continuam a acreditar em Deus e em todos os Seus planos abrangentes.

O antídoto para uma existência sem sentido e sem lei foi fornecido pelo humanismo, um novo e revolucionário credo que conquistou o mundo nos séculos mais recentes. A religião humanista cultua a humanidade e espera que esta assuma na peça o papel que era de Deus no cristianismo e no islamismo e que cabia às leis da natureza no budismo e no taoismo. […] De acordo com o humanismo, os humanos devem extrair de suas experiências interiores não apenas o significado da própria vida, mas também o significado de todo o Universo. Este é o mandamento primário que o humanismo nos deu: criem um significado para um mundo sem significado.

Portanto, o cerne da revolução religiosa da modernidade não foi perder a fé em Deus, e sim adquirir fé na humanidade.

Rousseau afirma que, ao buscar as regras de conduta na vida, ele as encontrou “nas profundezas de meu coração, traçadas pela natureza em caracteres que ninguém pode apagar. Só preciso consultar a mim mesmo a respeito do que quero fazer; o que sinto que é bom é bom, o que sinto que é ruim, é ruim”.

O humanismo nos ensinou a pensar que algo só pode ser ruim se fizer com que alguém se sinta mal.

[…] todo ano a comunidade LGBT israelense realiza uma parada gay nas ruas de Jerusalém. É um dia singular de harmonia nessa cidade assolada por conflitos, porque é a única ocasião em que judeus, muçulmanos e cristãos religiosos têm uma causa comum — todos estão de acordo em sua fúria contra a parada gay.

Se eu acredito em Deus afinal, foi opção minha acreditar. Se meu eu interior me diz para acreditar em Deus — então eu acredito. Acredito porque sinto a presença de Deus, e meu coração me diz que Ele está presente. Mas, se não mais sentir a presença de Deus, e se meu coração subitamente me disser que Deus não existe — deixarei de acreditar. Seja como for, a fonte real de autoridade são os meus sentimentos. Assim, mesmo quando digo que acredito em Deus, a verdade é que tenho uma crença muito mais forte na minha voz interior.

No decurso de nossa vida, magoamos pessoas e pessoas nos magoam, agimos compassivamente e outros demonstram compaixão para conosco. Se prestarmos atenção, nossa sensibilidade moral se aguçará, e essas experiências podem se tornar uma fonte de valioso conhecimento ético sobre o que é bom, sobre o que é correto e sobre quem realmente eu sou.

Assim, o humanismo vê a vida como um processo gradual de mudança interior, que parte da ignorância e chega à iluminação por meio de experiências. O mais alto objetivo de uma vida humanística é desenvolver completamente seu conhecimento mediante uma grande variedade de experiências intelectuais, emocionais e físicas.

Nenhuma cultura na história jamais deu tanta importância aos sentimentos, desejos e experiências humanos. A visão humanística da vida como uma sequência de experiências tornou-se o mito que fundamenta numerosas indústrias modernas, do turismo à arte.

O foco humanista em sentimentos e experiências, e não em feitos, transformou a arte. Wordsworth, Dostoiévski, Dickens e Zola pouco se importaram com cavaleiros corajosos e sua bravura; sua escrita se centrava no que sentiam pessoas e donas de casa comuns.

O humanismo divide-se em três ramos principais. O ramo ortodoxo afirma que todo ser humano é um indivíduo único possuidor de uma voz interior que o distingue e de uma sequência irreproduzível de experiências. Cada ser humano é um raio de luz singular, que ilumina o mundo de uma perspectiva diferente e que acrescenta colorido, profundidade e significado ao Universo. Por essa razão, devemos dar a máxima liberdade a cada indivíduo a fim de que experimente o mundo, siga sua voz interior e expresse sua verdade mais íntima. Seja na política, seja na economia ou na arte, a livre vontade individual deveria ter muito mais peso do que interesses de Estado ou doutrinas religiosas. Quanto mais liberdade as pessoas usufruírem, mais belo, rico e cheio de significado será o mundo. Devido a essa ênfase na liberdade, o ramo ortodoxo do humanismo é conhecido como “humanismo liberal” ou simplesmente “liberalismo”.

Durante os séculos XIX e XX, à medida que ganhava crescente credibilidade social e poder político, o humanismo fazia brotar duas ramificações muito diferentes: o humanismo socialista, que abrangia uma série de movimentos socialistas e comunistas, e o humanismo evolucionário, cujos mais famosos defensores foram os nazistas.

 

Parte III: O Homo sapiens perde o controle

8. A bomba-relógio no laboratório

9. O grande desacoplamento

No auge do imperialismo europeu, conquistadores e mercadores compravam ilhas e países inteiros em troca de contas coloridas. No século XXI, nossos dados pessoais são provavelmente o recurso mais valioso que ainda temos a oferecer, e os entregamos aos gigantes tecnológicos em troca de serviços de e-mail e de vídeos com gatos engraçadinhos.

No artigo que escreveu para o New York Times, Angelina Jolie referiu-se aos altos custos dos testes genéticos. Atualmente, os testes feitos por Jolie custam 3 mil dólares (sem incluir o preço da mastectomia, da reconstrução cirúrgica e dos tratamentos relacionados). Isso em um mundo no qual 1 bilhão de pessoas ganham menos de um dólar por dia, e outros 1,5 bilhão ganham entre um e dois dólares diários. Mesmo que trabalhassem duro durante toda a vida, nunca poderão financiar um teste genético de 3 mil dólares. E a brecha econômica está crescendo. No início de 2016, as 62 pessoas mais ricas do mundo valiam tanto quanto os 3,6 bilhões de mais pobres! Como a população mundial é de cerca de 7,2 bilhões, isso significa que os 62 bilionários juntos detêm tanta riqueza quanto toda a metade de baixo do gênero humano.

 

10. O oceano da consciência

11. A religião dos dados

No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século XXI, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante. Não sabemos mais a que prestar atenção e frequentemente passamos o tempo investigando e debatendo questões secundárias. Em tempos antigos ter poder significava ter acesso a dados. Atualmente ter poder significa saber o que ignorar.

 

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