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Livro “Guerra em surdina” de Boris Schnaiderman

Livro “Guerra em surdina” de Boris Schnaiderman
Livro “Guerra em surdina” de Boris Schnaiderman

Primeira publicação: 1964

Editora: Cosac & Naify (2004 – 4a. edição)

ISBN13: 9788575033357

Sinopse: Em 1944, mais de 20 mil brasileiros foram convocados pelo governo Vargas para lutar ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Entre os escolhidos estava Boris Schnaiderman, o grande intérprete da literatura russa no Brasil, que realiza, a partir desta experiência como “pracinha” na campanha italiana, uma tradução de outra ordem. Em seu único livro de ficção, Schnaiderman constrói a trajetória dos combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), desde a convocação repentina até a volta para o Brasil. O percurso é trabalhado a partir de perspectivas individuais frente às catástrofes da guerra, compondo uma prosa em surdina e intimista, ainda que em múltiplas vozes.

 

Boris Schnaiderman é um tradutor e escritor brasileiro. Ele nasceu em Uman, na Ucrânia, em 1917 (ano da Revolução Russa). Em seguida, seus pais mudaram-se para Odessa e vieram para o Brasil quando Boris tinha 8 anos. Ele foi o primeiro professor de literatura russa na Universidade de São Paulo, a partir de 1960, apesar de ser formado em agronomia. Ele traduziu grandes escritores e poetas russos: Dostoiévski, Tolstói, Chekhov, Gorky, Babel, Pasternak, Pushkin e Mayakovsky. Ele naturalizou-se brasileiro em 1941 e lutou na Segunda Guerra com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que o inspirou a escrever o romance “Guerra em Surdina”. Na época da Ditadura Militar, ele foi preso enquanto dava aulas, devido ao seu posicionamento contra a repressão e por possuir um passaporte soviético. Em 2003, ele recebeu o Prêmio de Tradução, oferecido pela Academia Brasileira de Letras. Ele foi o primeiro a traduzir os clássicos russos para o português diretamente do idioma original. É considerado um dos maiores especialistas na cultura russa no Brasil e um dos principais tradutores.

Eu não sabia da existência desse livro até que minha amiga Márcia, sabendo do meu interesse na Segunda Guerra, sugeriu a leitura simultânea para que conhecêssemos alguma coisa sobre a campanha brasileira junto aos Aliados.

A Márcia não gostou muito da leitura. Pelo que ela me contou, imaginou que seria uma autobiografia sobre as vivências do autor na Itália. E não é o caso.

Ele transformou as próprias vivências em um romance, onde surgem vários personagens, geralmente soldados, que foram convocados para a Guerra. Há um aspecto que torna a leitura bastante confusa: cada capítulo tem um narrador diferente e nem sempre fica clara a mudança ou quem está narrando ou qual a perspectiva que ele pretende dar à narrativa. E, talvez até por ter narradores diferentes, o estilo da escrita muda muito a cada capítulo.

Excluindo-se esse aspecto, eu gostei bastante da história. Ele conta sobre a convocação súbita dos soldados, sem preparo ou treinamento, sendo patrocinados pelo governo dos Estados Unidos. Esses soldados dirigem-se para a Europa, para combater governos fascistas e ditatoriais, sendo que o Brasil vivia a ditadura da era Vargas.

Ia-se lutar pela democracia, mas, para efetivá-lo, sair-se-ia de um país submetido à ditadura. Falava-se em aliados, mas o que os homens do povo viam era o soldado estrangeiro pisando o território da sua pátria, numa condição quase de ocupante, fazendo ressaltar a fartura da sua terra ante a miséria do país ocupado.

Nenhuma programação era passada aos soldados. Eles não sabiam para onde iam, nem quando iriam combater. Passaram um tempo em treinamento, sob as orientações do exército americano. Nessa fase, o autor descreve a destruição da Itália, a miséria da população, a mendicância por alimentos enlatados que os soldados recebiam. É deprimente a sociedade degradada, que perde todo seu orgulho e decência.

Sou apenas um homem em face da montanha. Fui me despojando de outros atributos, simplificando-me ao extremo, até ficar reduzido a esta condição. As formalidades e injustiças da vida militar; a promiscuidade do navio-transporte, com suas filas, seus catres com gente vomitando, com as latrinas em que os homens se sentavam frente a frente; as impressões de guerra e de miséria, a prostituição e a mendicância exercidas em profusão; os extremos de degradação tornando-se fato normal e cotidiano; tudo isso me reduziu a mero espectador, mecânico e passivo, cuja vida se limita a calcular tiros que serão enviados contra a montanha.

Os soldados, em sua maioria pessoas de origem humilde no Brasil, passam a enfrentar o inverno italiano, a neve e o frio, sem roupas apropriadas. Vão sendo expostos a situações extremas, ao confronto com a morte, os tiros, as emboscadas, sem que nem mesmo entendam o motivo daquela guerra.

O capitão sente um asco invencível por toda aquela podridão. Os olhos se acostumam, os ouvidos também, mas alguma coisa sempre fica a protestar no íntimo, a reclamar, a dizer que a vida não pode ser vilipendiada com tanta naturalidade, com tamanha despreocupação.

Quando voltam ao Brasil, saudados como heróis, o que as pessoas mais perguntam é se eles mataram muitos alemães. E o autor nos choca com o absurdo dessa colocação, onde se questiona quantas vidas humanas foram retiradas; afinal, os soldados alemães eram homens miseráveis e famintos naquele final de guerra, uma guerra que a eles também passou a ser absurda.

As mocinhas da sacada de uma das casas puxam conversa.

– Você matou muito alemão?

Como se matar gente fosse um esporte muito interessante!

E, no Brasil, aqueles que lutaram custaram a receber o salário do período e foram descontados por cada pequena coisa que foi perdida ou deteriorada durante a guerra. Muitos não conseguiam voltar para casa por falta de dinheiro. Os heróis de guerra foram rapidamente esquecidos e tiveram que enfrentar a dura realidade do retorno à rotina, da perda de namoradas e noivas (que não esperaram pelo retorno) e da falta de objetivo e de ajuda do governo brasileiro.

– Sílvia Souza

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2 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Eu não sabia nada deste capítulo na história do Brasil, a guerra abre a porta para uma época cheia de loucura do terreno em que se instala e quando termina. Queremos esquecer o que aconteceu e que participaram na mesma. Eu vou olhar para esse livro. Um abraço

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