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Livro “Flores” de Afonso Cruz

Livro “Flores” de Afonso Cruz
Livro “Flores” de Afonso Cruz

Primeira publicação: 23-09-2015

Editora: Companhia das Letras (09-05-2016) – 1a. Edição – 272 páginas

ISBN 13: 9788535927252

Sinopse: “Flores” começa com uma perda, a perda do pai. E é a partir daí que o narrador, um jornalista que vive com a filha e a mulher numa relação cheia de incômodos, passa a notar seus vizinhos e a conviver com o senhor Ulme. Ulme sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o fato de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo – e constatar o quanto a sua vida se afastou dela – decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Ele visita a aldeia alentejana esquecida no tempo e vai aos poucos remontando a identidade de Manuel Ulme, homem que, pelos relatos, parece ter oscilado entre um bom samaritano e um perverso entregue aos prazeres da paixão. O contraste fica cada vez mais claro: enquanto um homem não tem passado e não se lembra do amor, o outro sofre com o presente e com a consciência da rotina que a cada dia destrói sua relação, quando um beijo já perdeu todo o encanto e se tornou tão banal quanto arrumar a cama.

 

Esse é o terceiro livro da minha parceria com o Grupo Companhia das Letras. É um dos lançamentos de maio.

Afonso Cruz nasceu em Figueira da Foz, Portugal, em 1971. Além de escritor, é ilustrador, cineasta e faz parte da banda The Soaked Lamb. É autor de obras como Os livros que devoraram o meu paiA boneca de KokoschkaPara onde vão os guarda-chuvas, Jesus Cristo bebia cervejaO pintor debaixo do lava-loiças. Recebeu o Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco, em 2009, e o European Union Prize for Literature, em 2012, entre outros.

Eu tenho um gosto particular por livros de escritores portugueses. Não sei explicar totalmente o motivo. Talvez ache a forma da escrita mais bonita. Talvez haja uma identificação pessoal com a forma de eles verem as relações, a vida, as alegrias e as tristezas. Ou pode ser apenas um amor inexplicável. O fato é que, com raras exceções, costumo gostar dos livros de autoria portuguesa. Esse foi o primeiro livro que li do Afonso Cruz.

De início, houve a opção da editora de manter o português original, da forma como escrito e falado em Portugal, seguindo o acordo ortográfico. Achei formidável essa decisão. Encontrei palavras no livro que eu desconhecia (acho que uma ou duas); há diferenças em relação à acentuação de alguns verbos e algumas colocações que são típicas do português falado em Portugal. Entretanto, estou acostumada a essa forma, porque compro muitos livros diretamente de Portugal. E não há nada na leitura que dificulte a compreensão.

Os capítulos são curtos e a leitura é rápida e prende muito o leitor.

O narrador da história é um jornalista que acabou de perder o pai. Já no início da narrativa, ele se mostra um personagem antipático; passei o livro todo sem conseguir gostar dele. É um homem egocêntrico, pouco interessado com as pessoas à sua volta (nem mesmo com sua filha) e muito individualista. Esse comportamento terá uma chance de melhorar ao longo da trama justamente por seu interesse pela história de vida do vizinho, o Sr. Ulme, que perdeu a memória após uma cirurgia para tratar um aneurisma cerebral.

Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, um dia olhamo-nos ao espelho e estamos transformados em estátuas, faz lembrar a mulher de Lot, quando ela e o marido saem de Sodoma, estando esta a ser destruída devido à iniquidade dos seus habitantes, e lhe dizem para não olhar para trás. (…) enfim, aquilo de olhar para trás era o pecado, a mulher de Lot não deveria ter qualquer desejo de regressar a uma vida absolutamente sedentária, desejar a rotina e execrar a mudança, uma vida nova, mas sei que isto nos acontece, queremos o conforto da banalidade, daquilo que conhecemos, sentarmo-nos num restaurante e pedir sempre o mesmo bitoque, olhar para a corrupção quotidiana como quem olha uma montra de um pronto-a-vestir, fazer sempre as mesmas maldades, dobrar as camisolas da mesma maneira, votar nos mesmos criminosos, saber que as meias estão na gaveta certa, ignorar a miséria e ter a certeza absoluta de que os chapéus não serão jamais pousados em cima da cama.

Envolvendo-se em decifrar essa história e reconstruir o passado do homem, ele vai traçando paralelos com sua própria vida, o que o ajuda a repensar muitas das suas atitudes. Além disso, o Sr. Ulme é um homem que escuta muito os outros e presta atenção a tudo o que se passa; rapidamente, conquista a confiança da filha do vizinho, estreita as relações de amizade com o próprio vizinho e faz pequenas observações com relação às suas condutas como pai e como marido.

(…) a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é o que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador que nos acorda para a inevitabilidade dos nossos erros.

Outro dado que achei muito interessante na construção da história é o fato de que, ao entrevistar antigos contatos do Sr. Ulme, o jornalista encontra opiniões completamente antagônicas. Isso cria uma confusão na sua cabeça, sem conseguir fazer uma imagem real de quem ele foi. Mas isso não seria de fato o que aconteceria com qualquer pessoa? A vida de cada um de nós, se tiver que ser comentada por um amigo, um familiar, um conhecido distante, não será descrita de uma forma diferente? Existirão aqueles que se ressentem de algo, outros que nos admiram, outros que serão indiferentes.

Porque viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.

O escritor mantém o leitor interessado até o final. Até mesmo cheguei a pensar que ele não conseguiria dar o desfecho, porque via as poucas páginas que faltavam e achava que ainda havia muita história para ser contada. Mas ele faz a conclusão no tempo exato; não é prolixo e mantém um texto enxuto e envolvente.

A única coisa que interessa saber é que vivemos numa tapeçaria e que, por mais longe que estejamos uns dos outros, somos a mesma história, fazemos parte do mesmo tapete, a morte de uns é o nascimento de outros, a face da nossa vitória é a derrocada de alguém.

Gostei muito. Mais um escritor português que conquistou minha admiração.

Era a tua mãe que gravava dentro da alma tudo o que testemunhava, e ela vai continuar a guardar essas memórias até morrer. As mães são as fiéis depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida. Por isso, trata-a bem.

 

– Sílvia Souza

 

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6 Comments
  • Juliana Lima disse:

    Nunca tinha ouvida falar desse Silvia, mas parece bem interessante.
    Adorei sua resenha, bem detalhada.
    Abraços,
    Juliana.
    http://www.fabulonica.com

    • Olá, Juliana!
      Que coisa boa te ver por aqui!
      O livro acabou de ser lançado aqui no Brasil.
      Obrigada pelo elogio! Fico feliz que tenha gostado (e aceito sugestões para poder melhorar…).
      Beijo grande!

  • Carlos Moya disse:

    Você o resume tão bem, que já entrou em mim querer ler este trabalho, acho que um enredo muito original. Posso ler diretamente em Português sem encontrar grandes dificuldades. Como realmente gosto de livros de segunda mão. um costume estranho e um desafio epistolar, eu volto para a associação de alfarrabistas de Portugal. Um abraço.

    • Bom dia, Carlos!
      Eu também costumo comprar livros de segunda mão… principalmente edições raras e antigas. Esse livro foi lançado em Portugal um pouco antes do que aqui no Brasil, creio que em 2015.
      Abraço!

  • Bis Perez disse:

    “Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte…” … ” viver é… aquilo que não fazemos todos os dias…” Sivinha, acredito que vou adorar ler este livro “Flores”… é de uma sensibilidade que me toca profundamente. Sempre resumindo bem e me deixando com vontade de devorar a obra… Obrigada querida, bjs

    • Obrigada, Bia… Estou aprendendo a escrever melhor essas resenhas…
      O que mais me admira nos escritores portugueses é justamente a sensibilidade com que eles descrevem coisas até banais…
      Espero que goste do livro como eu gostei.
      Beijo!

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