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Livro “Darwin vai às compras: sexo, evolução e consumo” de Geoffrey Miller

W.B. Yeats
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Livro “Darwin vai às compras: sexo, evolução e consumo” de Geoffrey Miller
Livro “Darwin vai às compras: sexo, evolução e consumo” de Geoffrey Miller

Título original: Spent: Sex, Evolution, and Consumer Behavior

Primeira publicação: 2009

Editora: BestSeller (2012)

ISBN13: 9788576844228

Sinopse: “De Rolex a Rollerblade, de Prada a Escada, de MBAs a BMWs, cada vez mais somos consumidos pelo consumismo. Ocasionalmente, podemos até pensar que somos controlados por ferozes campanhas de marketing, capitaneadas pelos mais inescrupulosos homens do planeta – os marqueteiros. Porém a verdade é que estamos mais do que dispostos a sermos seduzidos pelos brilhantes e reluzentes objetos que eles, provocativamente, colocam diante de nossos olhos.”

 

Esse livro fez parte de uma leitura compartilhada com um amigo. Fomos lendo um capítulo ao dia e comentando a leitura, com nossas impressões. Já tínhamos partilhado a leitura de “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde, que foi uma experiência incrível. Continuamos com a parceria com um livro de não ficção.

Foi uma experiência enriquecedora, porque tivemos visões muito diferentes ao longo da leitura. E é interessante ver outros pontos de vista, muitas vezes totalmente discordantes do que pensamos; e é um grande aprendizado e algo enriquecedor, porque nenhum dos dois tentou impor sua opinião. Ambos respeitamos nossas divergências, as diferentes visões, e aprendemos com elas. Tenho certeza que nós dois crescemos.

Para ele, a leitura foi um pouco mais fácil do que para mim, porque ele já conhecia os conceitos de psicologia evolucionista e teorias do marketing. Eu só tinha escutado falar de filosofia darwinista, mas não entendia muito bem os conceitos envolvidos.

O primeiro capítulo traz várias daquelas perguntas que a gente se faz… afinal, qual o sentido dessa vida? Trabalhar muito para comprar o quê, já que as coisas mais importantes não podem ser compradas? Tudo o que compramos é, afinal, para impressionar os outros? Há algum prazer real em satisfazer nossos desejos consumistas?

 “Como amantes gentis, as empresas com melhor orientação de marketing nos ajudam a descobrir desejos que nunca soubemos ter e modos de satisfazê-los jamais imaginados antes.”
“Aqueles que manipulam esse mecanismo imperceptível constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder governante de um país.”

O autor traz algumas análises um pouco assustadoras, em alguns momentos, da sociedade atual e sobre nossa forma de consumo. “Pensar que existem poucas e poderosíssimas empresas cujo objetivo é reconhecer nossos desejos mais íntimos e primais e nos oferecer exatamente isso, me parece alienante e sem propósito a longo prazo. Não existe um provérbio que diz algo como “Se queres destruir um homem, dê-lhe tudo o que ele quer”? Imagine a humanidade inteira…” (A.O.)

Fiquei incomodada por algumas abordagens do Miller. Ele tende a generalizar e criar grupos muito amplos, assumindo verdades absolutas para todos os incluídos. Generalizações são sempre arriscadas (e erradas).

“Viver não custa caro, mas exibir-se, sim.”

E algumas colocações que são feitas no livro se aplicam muito bem aos países de primeiro mundo. Não a países em que há miséria e falta de infra estrutura básica, falta de educação e saúde públicas de qualidade.

A colocação que eu mais gostei não é desse autor, mas é uma citação de Thorstein Veblen de “A teoria da classe ociosa”:

“Os compradores de produtos de níveis mais elevados compreendem que o preço alto é um benefício, não um custo. Isso impede que os compradores mais pobres possam possuir o mesmo bem, garantindo assim a confiabilidade do produto enquanto indicador da riqueza e do gosto de seu proprietário.”

Ao longo de alguns capítulos, ele defende uma análise das características principais das pessoas em 5 Categorias principais, associada à Inteligência. É uma classificação bastante interessante, mas fiquei incomodada pela forma como ele passou a tratá-la como uma certeza e não pudesse haver opiniões contrárias à dele. Sempre fico desconfiada quando a pessoa precisa ficar insistindo demais que algum teste (ou coisa do gênero) é perfeito e superior a todo o resto e fica buscando justificativas conspiratórias para explicar o motivo pelo qual aquilo não é universalmente aceito. “Considero os Big Five com a medida de inteligência uma ferramenta que pode ajudar muito no autoconhecimento e no auxílio para tomadas de decisão que envolvam a necessidade deste autoconhecimento. Por outro lado, aplicar esses conceitos de modo macro, em por exemplo, políticas econômicas e legislação pode ser discriminatório. Adotar somente essa ferramenta pra rotular alguém não passa de preconceito, e é esse o tom do livro que me incomoda. (…) Mesmo assim, acredito que cabeças como a dele são muito importantes pro desenvolvimento da ciência, e porque não, da humanidade. Vozes dissonantes que questionam o status quo e tentam afirmar seu ponto de vista.” (A.O.)

“É interessante que nossa receptividade às ideias do livro seja diferente. Acredito que seja por causa das diferentes retaguardas de conhecimento. Tive maior facilidade de aceitar por causa da familiaridade com esse tipo de leitura. Todo autor cientista tende a ser muito assertivo em suas afirmações. A própria formação acadêmica os obriga a isso. Então, aprendi a ser ao mesmo tempo crítico e condescendente com esses autores. Quando ele diz “isso é uma verdade”, quando coloco uma lupa forjada na Ciência, leio “isso é o que penso, e assim será até que alguém me convença do contrário usando os mesmos métodos”. A ciência é incapaz de explicar tudo.” (A.O.)

Ele conclui o livro com uma ideia mirabolante (e a meu ver impossível) de criar impostos específicos que sejam capazes de reduzir o consumismo exagerado das pessoas e fazer com que aqueles que possam pagar e queiram ostentar arquem com valores maiores. “O consumismo desenfreado atual me incomoda bastante e a obsolescência programada é algo que quase me ofende.” (A.O.) A mim também!

É claro que ele, como um americano, sugere que as medidas extremas propostas no final do livro sejam implementadas em países emergentes, como a Índia e a China.

Concluindo, o livro trouxe muitas reflexões sobre nossa sociedade, as pessoas e os hábitos de consumo. Mas melhor do que o livro, o que realmente valeu a pena foi perceber uma amizade sendo construída e estreitada dia a dia através de uma leitura.

 

– Sílvia Souza

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5 Comments
  • laynnecris disse:

    Realmente Silvia, o consumismo desenfreado é algo assustador. São tantas coisas inúteis… Mas, a coisa que mais me irrita as vezes é o fato de as vezes a “indústria” e essa “máquina capitalista” impor que compremos coisas… Igual minha irmã… tem um celular que ela adora, está em perfeito estado… só que toda hora fica recebendo mensagem… não há mais atualização para este aparelho e uma porção de coisas foi desativada. Uma hora nem ligação faz mais. Ela está uma fera, já ligou várias vezes pra reclamar… diz que não quer um celular novo se o dela funciona.

    Na época que tinha messenger, nossa como me irritou ter que ser obrigada a migrar por skype e só por isso não gosto dele até hoje… rs E, entre outras coisas que hoje é criado já com prazo de validade curto.

    • Silvia Souza disse:

      Exatamente!
      Isso que você está relatando é um ponto bastante abordado no livro… Essa “obrigação” pra comprarmos algo mais atual, enquanto o antigo continua funcionando perfeitamente.

      • laynnecris disse:

        Isso mesmo! E se você não compra fica excluído. Por exemplo, teve um dia que não consegui usar o whatsapp porque minha versão era antiga… (nota- não fazia nem um mês que havia atualizado). E ai? Como faço se preciso dela? Isso na minha época de escola entrava em nossas discussões de monopólio, formação de cartéis e afins… Sei lá que nome se dá, mas pra mim é abuso de poder.

  • Silvia, eu gostaria muito que você ouvisse essa palestra quando você tiver um tempinho. Vem de um especialista na área. Acho que você vai gostar. https://www.youtube.com/watch?v=wstk2E3Y4xs

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