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Livro “Crônicas da Guerra na Itália” de Rubem Braga

Livro “Crônicas da Guerra na Itália” de Rubem Braga
Livro “Crônicas da Guerra na Itália” de Rubem Braga

Primeira publicação: 1964

Editora: Record (Novembro de 2014) – 406 páginas

ISBN13: 9788501069382

Sinopse: Clássico de Rubem Braga há 18 anos fora de catálogo, este livro reúne crônicas de Rubem Braga para o Diário Carioca durante a Segunda Guerra Mundial. O autor não registra apenas o horror dos campos de batalha, o desespero dos soldados e o nazi-fascismo, mas também a beleza dos lugares em que passou, a primavera na Itália, as pessoas que conheceu, o sofrimento com a neve e o frio. “Observador sentimental”, como ele próprio se definiu, Rubem Braga nos apresenta relatos extremamente marcantes e belos sobre uma das mais terríveis épocas da humanidade. Rubem Braga começou a trabalhar em jornal quando estudante para o Diário da Tarde, em Belo Horizonte. Escreveu a partir de então para jornais e revistas em quase todo o Brasil. Durante a segunda guerra mundial, foi correspondente do Diário Carioca na Itália.

 

Um pouco sobre a biografia de Rubem Braga, publicada por Dilva Frazão no site E-Biografia.

Rubem Braga, (1913-1990) foi um escritor e jornalista brasileiro. Tornou-se famoso como cronista de jornais e revistas de grande circulação no país. Foi correspondente de guerra na Itália e Embaixador do Brasil em Marrocos.

Rubem Braga (1913-1990) nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, no dia 12 de janeiro de 1913. Seu pai, Francisco Carvalho Braga era proprietário do jornal Correio do Sul. Iniciou seus estudos em sua cidade natal. Mudou-se para Niterói, Rio de Janeiro, onde concluiu o ginásio no Colégio Salesiano.

Em 1929, escreveu suas primeiras crônicas para o jornal Correio do Sul. Ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em seguida transferiu-se para Belo Horizonte, onde concluiu o curso, em 1932. Nesse mesmo ano, iniciou uma longa carreira de jornalista, que começou com a cobertura da Revolução Constitucionalista de 32, para um jornal de Belo Horizonte.

Em 1936, lançou seu primeiro livro de crônicas, “O Conde e o Passarinho”. Foi casado com a militante comunista Zora Seljan, mas nunca se ligou ao partido. Vivia no Rio de Janeiro e trabalhava no “Diretrizes”, semanário de esquerda dirigido por Samuel Wainer. Foi preso duas vezes no Estado Novo, por suas crônicas contra o regime implantado no país. Em Porto Alegre, foi repórter do Correio do Povo e da Folha da Tarde.

Em 1944, Rubem Braga foi para a Itália, durante a II Guerra Mundial, quando cobriu como jornalista as atividades da Força Expedicionária Brasileira. No início dos anos 50 se separou de Zora, que lhe deu um único filho Roberto Braga. Entre os anos de 1961 e 1963, Rubem Braga foi embaixador do Brasil no Marrocos, na África.

Rubem Braga dedicou-se exclusivamente à crônica, que o tornou popular. Com cronista mostrava seu estilo irônico, lírico e extremamente bem humorado. Sabia também ser ácido e escrevia textos duros defendendo os seus pontos de vista. Fazia crítica social, denunciava injustiças e combatia governos autoritários. Foi investigado durante a ditadura militar por criticar a liberdade de imprensa e a violência praticada em nome da revolução.

Rubem Braga reunia em seus livros as diversas crônicas que escrevia, publicou: “O Morro do Isolamento” (1944), ”Ai de Ti Copacabana” (1960), “A Traição das Elegantes” (1967), “Recado de Primavera” (1984), “Crônicas do Espírito Santo” (1984), “O Verão e as Mulheres” (1986) e “As Boas Coisas da Vida” (1988), entre outros.

Rubem Braga adorava a vida ao ar livre, morava em um apartamento de cobertura, em Ipanema, onde mantinha um jardim completo, com pitangueiras, passarinhos, e tanques de peixes. Nos últimos tempos, publicava suas crônicas aos sábados no jornal O Estado de São Paulo. Foram 62 anos de jornalismo e mais de 15 mil crônicas escritas.

Rubem Braga faleceu, no Rio de Janeiro, no dia 19 de dezembro de 1990.

 

Eu já tinha lido “200 Crônicas Escolhidas” de Rubem Braga, uma coletânea de suas melhores crônicas. Apaixonei-me por sua escrita, por sua forma de descrever a sociedade da época e suas experiências pessoais.

Acabei me interessando por este livro depois de uma sugestão do site GoodReads. Nele, estão reunidas as crônicas que Rubem Braga escreveu enquanto correspondente de guerra na Itália do jornal Diário Carioca.

Temos poucas informações do nosso exército durante sua participação na Segunda Guerra Mundial. Sei que nossa importância foi mínima e que fomos praticamente forçados a assumir uma posição e a entrar no conflito. Mas não podemos simplesmente ignorar os milhares de soldados que foram enviados para lutar na Itália, em condições inadequadas e sem preparo suficiente, e, ainda assim, lutaram bravamente. Muitos morreram lá. E, aprendi no livro de Rubem Braga, o governo brasileiro só trouxe os corpos dos soldados mortos na década de 1960, mais de 15 anos após o final da Segunda Guerra.

Ao transcrever alguns trechos deste livro maravilhoso, quero deixar minha homenagem aos nossos pracinhas.

 

MINAS

Novembro, 1944.

[…] O instinto mais sadio do homem se nega a crer nas minas. Mas ouvimos uma explosão, e sabemos que um homem morreu, e seu tronco foi lançado a uma distância de 15 metros, dentro do campo minado. Essa morte é a mais repugnante de todas: o assassino está longe, a uma distância de meses e quilômetros. Morre-se como um rato. E essa arma traiçoeira é privilégio do inimigo, porque é ele que se retira, fazendo essas semeaduras de morte para retardar o avanço e causar baixas. […]

 

NOSSA GENTE

Dezembro, 1944.

Em seu discurso na solenidade de 15 de novembro, o ministro Vasco Leitão da Cunha fez referência ao fato de submarinos italianos terem afundado navios brasileiros quando o nosso país ainda era neutro.

Por mais que isso possa parecer estranho aos brasileiros, a verdade é que essa afirmação constitui, ainda hoje, para a grande maioria dos italianos, uma verdadeira surpresa. Centenas de italianos com quem tenho conversado – homens de todas as classes sociais e níveis de cultura, inclusive jornalistas políticos – ignoravam completamente a covarde ação dos submarinos italianos que afundaram nossos navios, matando assim homens, mulheres e crianças de um país neutro. A censura fascista escondeu completamente esse fato. Segundo a propaganda fascista, o Brasil entrou na guerra obrigado pelos Estados Unidos. As grandes manifestações de protesto do povo brasileiro em seguida ao torpedeamento de nossos navios por submarinos alemães e italianos não foram, como é fácil imaginar, noticiadas aqui.

Uma vez que o Brasil declarou guerra, a maquinaria de propaganda de Mussolini passou a se interessar mais positivamente pelo nosso país. Ao mesmo tempo que a entrada de nosso país no conflito era ridicularizada da maneira mais baixa – com ataques que se dirigiam não somente à atitude do governo, mas também ao nosso próprio povo – foram inventadas histórias de milhares de imigrantes italianos sofrendo horrores nas prisões e campos de concentração do Brasil.

É fácil imaginar o efeito que não teriam essas notícias sobre os italianos que têm parentes em nosso país. Os dois milhões de italianos natos que vivem no Brasil têm, certamente, aqui, milhões de parentes e amigos. Para esses, os italianos do Brasil estariam sofrendo toda classe de humilhações e padecimentos físicos.

Proibindo a verdade – com a mais negra das censuras – e espalhando a mentira – com a mais audaciosa das propagandas – o Fascismo procurava incutir ódio e paixões guerreiras.

Eis um belo exemplo dos que culpam a imprensa de males que muitas vezes são frutos exclusivos da falta de liberdade da imprensa. Atualmente, no setor em que se acham, os brasileiros só enfrentam alemães, soldados duros, mas em nada superiores aos nossos homens, que já estão perfeitamente habituados a bater-se com eles, sem nenhum temor das virtudes guerreiras do “soldado incomparável” que a propaganda dos pró-nazistas brasileiros ajudou a exaltar. É preciso conversar com os nossos pracinhas que estão na linha de frente para ver como é que essa nossa gente do povo, esses nossos brancos, mulatos, pretos e caboclos de qualquer canto do Brasil se adaptam a tudo, aguentam tudo, e riem quando a gente diz, para provocar, que o soldado alemão das tropas de assalto é o melhor do mundo.

— É o melhor lá para as negras dele — me disse outro dia um cabo brasileiro. — Para mim, não.

E riu com prazer, mostrando os dentes que a cor mulata da cara fazia mais brancos. Essa risada de um homem que enfrenta uma guerra dura, em condições de clima que jamais suportou na vida — isso quer dizer alguma coisa. Não quer dizer que nosso homem seja melhor do que qualquer outro do mundo. Quer dizer que é capaz de lutar tão bem quanto qualquer outro — e não acredita na legenda dos “super-homens” que — dá vergonha dizer — tem sido defendida, no Brasil, por “sociólogos” nacionais, alguns (que eu conheço) de composição racial “inferior”.

Aqui na Itália, lutam, nos exércitos aliados, homens de todas as raças. Encontrei, um dia destes, em uma cidade da retaguarda, alguns soldados judeus. São homens — todos eles, sem exceção, voluntários — que saíram da Palestina para lutar contra os nazistas. Os soldados “arianos” de Hitler que em algum setor do front enfrentam essas dezenas de milhares de excelentes soldados judeus não terão — eu garanto — muita disposição para ouvir as histórias da “covardia” dos semitas, que “só sabem ganhar dinheiro e viver no mole”.

Aí ficam essas melancólicas considerações sobre a propaganda, seus crimes e ridículos. Para acabar, devo dizer que causou má impressão, entre homens da FEB com quem conversei, a notícia de uma manchete de um jornal brasileiro que exagerava a atuação de nossas forças. Os nossos homens que estão na frente não apreciam essas coisas. Eles sabem que são uma parte muito pequena de uma guerra muito grande. Não sei como poderia ter surgido essa manchete. Nenhum dos correspondentes acreditados junto às forças brasileiras — e no momento eles são os do Correio da Manhã, O Globo, BBC, Em Guarda, Associated Press, Reuters, e este vosso pobre criado do Diário Carioca (além do dos Diários Associados, que mais comumente está em Roma) — tem disposição para exagerar ou inventar coisas — muito menos um avanço espetacular.

Nossos homens têm, de um modo geral, avançado. Às vezes são obrigados a parar, às vezes sofrem contra-ataques — e depois avançam outra vez — tudo isso lentamente, como não pode deixar de ser, em virtude da relação de forças e da natureza montanhosa do terreno. Esses homens que estão na frente não pretendem ser bichos sobrenaturais, nem pensam em derrotar os nazistas a gritos ou a pelego. Eles lutam. Não são muitos, mas lutam — e lutam honradamente, lutam direito, lutam dia e noite, ao frio e à chuva, uma luta penosa. Não precisam que ninguém — aqui ou aí — exagere o que fazem, em trá-lá-lás patrioteiros. Eles não são monstros: são lavradores, trabalhadores de vários ofícios, estudantes, moços de escritório, simples filhos de família — são rapazes brasileiros que foram mandados para aqui ou vieram como voluntários.

E eles dão conta do seu recado.

 

PLANTAÇÕES

8 de fevereiro, 1945.

[…] O fascismo é uma praga difícil de exterminar. É o preço que os povos pagam pela própria desídia. É a defesa frenética dos privilegiados. E contra ele só há um remédio verdadeiro: conquistar e manter a todo custo a liberdade do homem, e só há liberdade entre os homens quando cada um vale pelo seu trabalho — e não pelo seu nascimento nem pelos seus privilégios. Ninguém se iluda: acabar com as injustiças nacionais e sociais, que são o caldo de cultura do fascismo e das guerras, será uma luta muito dura, uma grande luta do povo. […]

 

TEXTO PARA O “CADERNO DE GUERRA” DE DESENHOS DE CARLOS SCLIAR

Rio, agosto de 1945.

[…] Lembro-me da tristeza de um velho poeta italiano. Ele falava da desgraça de seu povo, a gente estraçalhada nas explosões, o número de crianças miseráveis soltas pela rua, o crescimento assustador da tuberculose, a fome de tantos homens, a prostituição de tantas mulheres. Falava com amargura e humilhação. Depois disse dos tesouros de arte roubados, das obras de arte destruídas pelos bombardeios e pela dinamite. […]

 

VOLTANDO À ITÁLIA 25 ANOS DEPOIS DA GUERRA

(Reportagem para a revista Realidade)

[…]

Em Pistoia

“Esta terra sagrada foi sepultura dos soldados brasileiros mortos no campo da honra pela dignidade da pessoa humana.”

Assim está escrito no monumento aos soldados brasileiros mortos na campanha da Itália, no lugar que foi o nosso cemitério militar, um campo entre oliveiras, perto da Igreja de San Rocco, em Pistoia.

A terra sagrada escapou de virar plantação de cebolas ou campo de futebol porque, depois que os corpos foram transladados para o Rio, em dezembro de 1960, houve um período de incertezas; diante da inação de nossas autoridades, é natural que alguém em Pistoia reivindicasse o terreno para outros usos. E a ideia de um monumento foi, entretanto, avante, e em boa hora o projeto foi encomendado ao arquiteto Olavo Redig de Campos, que fez um trabalho expressivo, mas sóbrio.

[…]

Não mandamos à Itália 25.334 anjos em 1944. A nossa tropa, como toda tropa de ocupação em país estrangeiro, e mesmo em seu próprio país, praticou abusos e crimes. Mas eles foram raros, e foram punidos sempre que descobertos, e não é a eles que está associado, na memória e no sentimento do povo italiano da Toscana e da Emilia, o nome de brasiliano. Sempre que, notando meu italiano precário e bárbaro, alguém perguntou minha nacionalidade e ouviu esta palavra — brasiliano senti que dissera uma senha de amigo: era uma porta e uma alma que se abriam. A FEB era bem um resumo do povo do Brasil, não só porque tinha soldados de todos os seus Estados e de todas as classes sociais e níveis de cultura, como porque levava todos os seus defeitos e improvisações, todas as suas incoerências e mitos, todas as falhas e virtudes desse povo. Pois estou convencido de que, dentro da modéstia de nossas forças, o pracinha brasileiro deu o seu recado, cumpriu sua missão. E a sua melhor vitória me parece a ressonância de afetos e de saudades que ainda guarda, entre as paredes de pedras dessas casas isoladas da montanha, no coração da gente simples e boa da Itália, esta palavra: brasiliano.

 

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