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Livro “Clarice,” de Benjamin Moser

Livro “Clarice,” de Benjamin Moser
Livro “Clarice,” de Benjamin Moser

Título original: Why this World

Primeira publicação: Janeiro de 2009

Tradutor: José Geraldo Couto

Editora: Companhia das Letras (01/03/2017) – 560 páginas

ISBN13: 9788535928501

Sinopse: Este livro, lançado originalmente em 2009, deu aos brasileiros uma nova imagem de Clarice Lispector e consagrou sua obra no exterior. Se hoje Clarice é uma figura mítica das letras brasileiras — bela, misteriosa e brilhante —, sua vida foi recheada de percalços que a tornam mais complexa do que mostra a imagem oficial. Ao empreender uma síntese inédita entre vida e obra de uma autora clássica, Benjamin Moser deu uma contribuição de extrema importância para a cultura brasileira. A edição da Companhia das Letras traz posfácio inédito de Michael Wood.

 

Benjamin Moser nasceu no Texas em 1976. Formou-se em História na Universidade Brown, nos Estados Unidos, e vive hoje em Utrecht, na Holanda. O interesse de Moser pela cultura brasileira nasceu quase por acaso. “Sou uma abelha, gosto de ir de flor em flor, meus interesses vão mudando”, descreve-se, ironicamente. Na época em que iniciou a faculdade, ele já falava, além de inglês, francês e espanhol, mas queria aprender uma nova língua. A princípio, pensou em estudar chinês. Mas logo pareceu complicado demais. Então resolveu partir para o português.

Entre os primeiros livros que lhe foram dados para ler, estavam “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” (1959) de Jorge Amado, e “A Hora da Estrela” (1977) de Clarice Lispector. “Foi aí que me apaixonei por Clarice”, confessa.

Desde 1995, quando começou a pesquisar a sério a autora brasileira nascida na Ucrânia, até 2009, quando publicou a biografia, Moser conta que foi entendendo melhor toda uma época do Brasil, e concluiu que nossa história, de certa forma, alterna euforia com grandes depressões. “Há momentos em que tudo está ótimo, e parece que vai dar tudo certo e amanhã os brasileiros vão acordar noutro país. Foi assim nos anos 50, pré-Brasília. Mas, depois, inevitavelmente, vem uma imensa decepção, porque os países são como as pessoas, não mudam muito. Só que o brasileiro se ilude demais, e se decepciona demais quando chegam esses momentos de baixa. Na época de Pelé, João Gilberto, as pessoas achavam que o Brasil atrasado tinha ficado para trás. Mas depois vem a conta e todo mundo fica com raiva. Talvez algo parecido tenha acontecido agora.”

Moser se diz feliz por ser hoje visto como uma espécie de “embaixador da Clarice Lispector” no mundo. E pretende seguir no posto. Mas não só por ela, o “título” o tem motivado, também, a criticar a falta de traduções de escritores de outras línguas para o inglês – hoje, apenas 3% dos livros publicados nos EUA e no Reino Unido são traduções.

Entrevista de Benjamin Moser à Revista Época.

 

Através das muitas facetas de sua obra – em romances, contos, cartas e textos jornalísticos, na esplêndida prosa – uma personalidade única é dissecada sem descanso e revelada de modo fascinante naquela que é talvez a maior autobiografia espiritual do século XX.

“Lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há o desejo intenso de me confessar em público e não a um padre.” Seu tipo de confissão dizia respeito às verdades interiores que ela desvelou com esmero ao longo de um vida de incessante meditação. (…) A exemplo do leitor de Santa Teresa d’Ávila ou de San Juan de la Cruz, o leitor de Clarice Lispector vê uma alma virada pelo avesso.

– Benjamin Moser

 

Este livro me foi enviado através da minha parceria com a Companhia das Letras, parceria que está chegando ao fim. Benjamin Moser publicou essa biografia em 2009 e ela logo foi traduzida para o português e lançada pela Cosac Naify. Alguns títulos da editora estão sendo relançados com o selo da Companhia das Letras.

Já de cara, achei curioso uma biografia tão detalhada da escritora brasileira lançada por um americano. Especialmente, porque ele não fica restrito aos acontecimentos de sua vida e dos eventos que aconteciam no Brasil e no mundo. Benjamin Moser consegue dissecar a alma de Clarice Lispector, como se a tivesse conhecido profundamente e relaciona os livros que a escritora escreveu à sua própria história. Benjamin Moser fala que os livros de Clarice Lispector representam “a maior autobiografia espiritual do século XX”.

Eu também sinto isso. Acho quase impossível um escritor colocar tamanha carga emocional em seus escritos sem que isso represente seus próprios sentimentos, mesmo que disfarçados por outros personagens.

Dadas as circunstâncias brutais da primeira infância de Clarice, seria difícil que ela pudesse chegar a uma conclusão diferente desta: a vida não é humana e não tem “valor humano” algum. Sua existência não tinha mais razão de ser do que a da barata. Pura sorte era a única razão pela qual sobrevivera aos horrores ucranianos enquanto tantos milhões de outros pereceram. A única conclusão lógica era que a natureza do mundo é aleatória e sem sentido, mas compreender a natureza animal e aleatória do mundo era necessariamente rejeitar a moral convencional, o que implicava atribuir significados humanos ao mundo inumano. Uma pessoa com a história de Clarice nunca poderia se satisfazer com a frágil ficção de um universo sujeito ao controle humano.

E Clarice coloca essa carga imensa emocional. Muitas vezes, ao ler seus escritos, tive a sensação de que as palavras dialogavam diretamente com a minha alma. Não são escritos para se ler e racionalizar. Não. Eles precisam ser sentidos.

Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.

– Clarice Lispector

Apesar de sempre ter tido uma grande atração pelas obras de Clarice, confesso que sabia muito pouco sobre sua vida. Sabia os fatos gerais, aqueles que podem ser encontrados na Wikipedia ou em qualquer site sobre escritores. O livro “Clarice,” possibilitou que eu conhecesse mais profundamente essa mulher excepcional, que esteve à frente do seu tempo, mas não soube soltar as rédeas das imposições da sociedade. Ela queria, mas não podia. E essa dificuldade fez com que ela apresentasse inúmeros quadros depressivos de maior ou menor intensidade e acabasse se tornando uma pessoa extremamente ansiosa e dependente de medicamentos tranquilizantes para dormir.

Tudo o que eu tenho é a nostalgia que vem de uma vida errada, de um temperamento excessivamente sensível, de talvez uma vocação errada ou forçada.

– Clarice Lispector

Ela foi incapaz de viver a vida superficial de esposa de diplomata. Tentou por muitos anos, piorando progressivamente seu quadro depressivo. Acabou voltando com os dois filhos para o Brasil, onde passou a criá-los sozinho, em uma época em que ainda não havia divórcio e em que as mulheres separadas não eram vistas com bons olhos. Como se não bastasse, seu filho mais velho desenvolveu um quadro de esquizofrenia e Clarice não conseguia lidar com o problema do filho, sentindo como uma falha sua.

Ela vivia em dificuldades financeiras, escrevendo artigos para jornais para garantir algum dinheiro, porque a venda de seus livros não lhe possibilitavam um ganho adequado (quase tudo ficava com as editoras), apesar de ela ter se tornado uma escritora conhecida desde o lançamento de seu primeiro livro, “Perto do Coração Selvagem”.

Pois não posso mais carregar as dores do mundo. Que fazer, se sinto totalmente o que as outras pessoas são e sentem?

– Clarice Lispector

Sei que eu não tenho o direito de me comparar a uma mulher como Clarice Lispector. Mas confesso que a leitura de sua biografia tenha feito com que eu me identificasse em muitos aspectos, tanto de experiência de vida, mas, principalmente, quanto aos sentimentos. Perdoem-me, caso alguém sinta que eu esteja cometendo uma heresia.

Minha comparação não é quanto á escrita. Mas quanto às sensações de uma mulher que não consegue se encaixar; uma mulher que precisa caber no mundo, tal como ele se apresenta, mas que não consegue; uma mulher que tenta cumprir o que esperam dela, mas que está constantemente insatisfeita por não poder ser ela própria, independente do que seja esperado.

Eu procuro fazer o que se deve fazer, e ser como se deve ser, e me adaptar ao ambiente em que vivo – tudo isso eu consigo, mas com o prejuízo do meu equilíbrio íntimo, eu o sinto. […] Passo épocas irritada, deprimida.

– Clarice Lispector

E outra coisa que chamou minha atenção é sobre a identificação de Clarice com uma artigo que descrevia pessoas “amplificadoras” e que, hoje em dia, diria respeito às Pessoas Altamente Sensíveis. Ela percebeu que aquela descrição a incluía entre essas pessoas que sentem demais e que sofrem demais com todos os estímulos à sua volta. Eu me enquadro entre esse tipo de pessoa também. E, o mundo atual, com a amplificação de sensações, faz com que a vida se torne sofrida e angustiante. Eu entendi o que deveria ser sua vida, no Rio de Janeiro dos anos 1950 e 1960, divorciada, tendo que cuidar dos dois filhos e um deles com uma doença que ela não entendia e para a qual não existia tratamento naquela época.

A pesquisa mostrou que os mesmos eventos físicos são percebidos por algumas pessoas como se fossem mais ruidosos, brilhantes, rápidos, odoríferos ou coloridos do que para os outros […]. Em algumas pessoas, o volume é elevado ao máximo, amplificando a intensidade de todas as experiências sensoriais. Essas pessoas são chamadas de “amplificadores”. […] Um nível que provoca leve desconforto em “amortecedores” pode significar intenso sofrimento para “amplificadores”. […] No outro extremo, o “amplificador” é um introvertido que evita a existência agitada do “amortecedor”. Ele é do tipo que se queixa do volume do rádio, do tempero da comida, do caráter berrante do papel de parede. Se puder escolher, ele prefere ficar sozinho, quieto, em ambientes desertos.

– Trecho de um artigo de jornal intitulado “Volume no cérebro” sublinhado por Clarice

Tudo me atinge – vejo demais, ouço demais, tudo exige demais de mim.

– Clarice Lispector

Você sabe, nas cidades grandes todos sabem que em cada apartamento existe uma espécie de solidariedade, pois em cada apartamento mora uma pessoa infeliz.

– Clarice Lispector

Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver.

– Clarice Lispector

Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar.

– Clarice Lispector

A solidão passou a constituir o único meio de furtar-se à sensação opressiva de estar constantemente falhando, por não saber viver como os outros viviam.

– Elisa Lispector

Uma pessoa simplesmente não pode sobreviver sem ceder um pouco de sua liberdade e aceitar os laços necessários que a unem aos outros.

– Benjamin Moser

Não, não quero mais gostar de ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de ninguém que me é caro. Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas – e eu não posso perdê-las sem me perder.

– Clarice Lispector

Uma das coisas que me deixam infeliz é essa história de monstro sagrado: os outros me temem à toa, e a gente termina se temendo a si própria. A verdade é que algumas pessoas criaram um mito em torno de mim, o que me atrapalha muito: afasta as pessoas e eu fico sozinha. Mas você sabe que sou de trato muito simples, mesmo que a alma seja complexa.

– Clarice Lispector

E, no final, ela pedia para morrer. Ela achava que teria um câncer. Ela falava a respeito anos antes de ter o conhecimento de sua doença. Uma mulher triste, sozinha, com muitas dores físicas (ela ficou com sequelas de uma queimadura grave que sofreu em sua casa) e espirituais.

“eu pedi a Deus que desse a Ângela um câncer e que ela não pudesse se livrar dele”. Porque a Ângela não tem coragem de se suicidar. Ela precisa, porque ela diz “Deus não mata ninguém. É a pessoa que se morre”. Clarice dizia também que cada pessoa escolhe a maneira de morrer.

– Olga Borelli

Independentemente de se gostar ou não dos escritos de Clarice Lispector, essa biografia é maravilhosa com todos os dados históricos do Brasil e do mundo, além dos aspectos culturais e literários das décadas em que Clarice escreveu. E a vida difícil de uma mulher nascida na Ucrânia, que se considerava brasileira e que colocava todo o seu sentimento em seus escritos.

No final do livro, Benjamin Moser cita um único vídeo que existe da escritora, que foi de uma entrevista gravada na TV Cultura, às pressas, já que não havia nada marcado. Ela passou por lá para buscar algo e foi convidada para a entrevista, à qual ela, de forma surpreendente, concordou. Eu assisti ao vídeo e deixo o link aqui no texto para quem tiver a curiosidade de vê-la falando, poucos meses antes de sua morte.

 

 

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4 Comments
  • Marcia Reis disse:

    Que bom que vc leu a bio de Clarice. Acho extremamente necessário para quem lê seus escritos.
    Acredito que acaba por ser um complemento em nossa saga de leitura dos contos.

    Hug 😀

    • Silvia Souza disse:

      Fiquei impressionada como um americano conseguiu entender tão bem a Clarice Lispector e fazer uma construção tão boa entre suas obras e o momento histórico, político e social que envolvia sua escrita.
      Imagino que ele tenha tido um trabalho enorme.
      Beijo grande!

  • Marcia Reis disse:

    A paixão com que ele fala de Clarice é nítida. Então é fácil entender o outro, quando nos interessamos de fato.
    Eu fiquei emocionada quando o vi falando nossa língua e era apenas para compreender a autora.

    Muito lindo esse Benjamin, um cara sensível.

    • Silvia Souza disse:

      São aquelas empatias inexplicáveis…
      Você viu alguma entrevista?

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