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Livro “Bela do Senhor” de Albert Cohen

Livro “Bela do Senhor” de Albert Cohen
Livro “Bela do Senhor” de Albert Cohen

Título original: Belle du Seigneur

Primeira publicação: 1968

Editora: Nova Fronteira (1990) – 787 páginas

Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues

Sinopse: ‘Bela do Senhor’ é um dos romances mais importantes publicados na segunda metade do século XX. Estranha combinação de comicidade burlesca e de tragicidade, seu tema central é o vazio da existência, a transitoriedade de tudo, até mesmo do amor e da morte. Solal, o herói do livro, é perseguido pela angústia, provocada por sua busca de identidade e pela solidão intrínseca que nem a grande paixão consegue superar: é a ansiedade do homem só, que se afunda no nada. Essa visão trágica da condição humana é exposta em quatro planos: a narrativa propriamente dita, a descrição, o diálogo e o monólogo, constituindo este último o aspecto mais revelador da versatilidade de Albert Cohen: ele pode ser engraçado, dramático, onírico, objetivo ou delirante, e sempre num estilo que está mais próximo do barroco do que da escrita clássica.

 

Abraham Albert Cohen nasceu em Corfu, na Grécia, em 1895, membro de uma importante comunidade judaica sefardita na ilha. Os pais de Albert, que possuíam uma fábrica de sabão, se mudaram para Marselha, França, quando ele era criança. Albert Cohen relata esse período em sua novela Le livre de ma mère (O Livro de minha Mãe). Estudou em uma escola católica particular. Em 1904, ele começou o ensino médio no Lycée Thiers, e se formou em 1913.

Em 1914, deixou Marselha e partiu para Genebra, na Suíça, onde se matriculou na Faculdade de Direito. Graduou-se em 1917 em Direito e, em seguida, cursou Literatura de 1917 até 1919. Em 1919, tornou-se cidadão suíço. Nesse mesmo ano casou-se com Elisabeth Brocher. Em 1921, nasceu sua filha, Myriam. Em 1924, sua esposa morreu de câncer. Em 1925, Albert tornou-se diretor da Revue Juive (The Jewish Review), um periódico cujos escritores incluíam Albert Einstein e Sigmund Freud. Durante a ocupação alemã, em 1940, Albert fugiu para Bordeaux, depois para Londres. Em 1944, tornou-se advogado do Comitê Intergovernamental para os Refugiados. Em 1947, Cohen retornou a Genebra. Em 1957, ele recusou o cargo de embaixador de Israel para prosseguir sua carreira literária. Ele morreu em 1981, em Genebra, decorrente de complicações de uma pneumonia.

Sua obra mais importante foi Bela do Senhor, que recebeu o Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa.

Mais um livro que não está disponível no Brasil. Houve uma única edição, em 1990; comprei este livro em um sebo há alguns anos e eu tentava achar o tempo para dedicar à sua leitura. São quase 800 páginas de uma leitura bastante densa e eu sabia que não seria algo rápido.

Quando li A Delicadeza de David Foenkinos, a personagem principal, Nathalie, citava que Bela do Senhor era seu livro favorito. Por causa desta citação, procurei pelo livro e consegui achá-lo em um sebo.

Confesso que o livro é muito diferente do que eu esperava inicialmente; para melhor. Achava que iria ler um romance açucarado, uma história de amor intensa e cansativa. E o livro que encontrei foi uma crítica a muitos aspectos da sociedade, das relações humanas, da hipocrisia e falsidade das pessoas, dos jogos de interesses e da paixão idealizada que, ainda nos dias de hoje, vivemos, como se esta paixão pudesse persistir para o resto da vida de um casal.

A história contada no livro se passa na Europa (principalmente na Suíça e na França) por volta de 1935. Ariane Cassandre Corisande d’Auble é uma moça que ficou órfã e foi criada pela tia; seus irmãos morreram também e ela não tinha nenhuma família além desta tia solteirona e de seu irmão, um médico que fazia trabalho voluntário na África. Era descendente de uma família protestante bastante tradicional de Genebra.

Talvez, até mesmo por seu isolamento e carência, acabou se casando com Adrien Deume, também órfão, criado pelos avós. Não amava o marido, mas vivia sua vida confortável de classe média alta. O marido trabalhava na Liga das Nações (um órgão burocrático internacional, idealizada em 28 de abril de 1919, em Versalhes, onde as potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial se reuniram para negociar um acordo de paz. Sua última reunião ocorreu em abril de 1946), onde ganhava um bom salário para não fazer quase nada.

Albert Cohen descreve com muitos detalhes a burocracia excessiva e a falta de comprometimento dos funcionários públicos que eram efetivados em seus cargos. Adrien Deume fazia o possível para melhorar o contato com os superiores, aqueles que poderiam dar-lhe uma promoção; apenas não pretendia conquistá-la através do seu empenho e dedicação.

Ele se orgulhava de ter como esposa Ariane, uma mulher bonita e que sabia se portar em eventos sociais. Mas não tinham um casamento sincero e Ariane fazia tudo o que podia para evitar o marido, que acabava fazendo todas as suas vontades.

É uma vergonha esse conceito de casamento! A mulher, propriedade do marido! Não lhe dão nem mesmo o direito de usar o próprio nome! Carrega, marcada a ferro em brasa na testa, a marca de propriedade do marido! Como um animal!

Em suas descrições bastante detalhadas, Albert Cohen faz inúmeras críticas a essas relações superficiais e pautadas pelo interesse. Em um dos eventos sociais da Liga das Nações que descreve, fez questão de emitir sua opinião:

Nenhum daqueles mamíferos vestidos a rigor e portadores de polegares opostos estava à procura de inteligência ou sentimento. Todos buscavam ardentemente importâncias medidas pelo número e pela qualidade das relações. Assim, um judeu convertido e homossexual (que conhecia os parentescos, as alianças e as doenças de tudo o que contava na alta sociedade europeia, onde conseguira finalmente entrar, depois de vinte anos de estratégias, lisonjas e sapos engolidos) anotava mentalmente, com arrebatamento, que seu interlocutor fora recebido por uma rainha exilada “tão adorável e tão musical”. Tendo situado o novo conhecido e considerando-o proveitoso, e por conseguinte digno de ser convidado, ele o convidava. É com essas ninharias que passam o tempo esses infelizes, que muito em breve estarão mortos e putrefatos, fedendo sob a terra.

(…)

Chega, chega dessa corja, estou farto dela.

Ele descreve as reuniões entre os superiores da Liga das Nações, reuniões onde muito se falava, onde todos faziam questão de emitir sua opinião, mas de onde não se extraía nada concreto, nenhuma ideia real.

E assim por diante, todas as vozes entremeadas de proposições confusas e contraditórias, conscienciosamente anotadas pela estenógrafa, que não compreendia coisa alguma, pois era inteligente.

Mas a história central do livro é a paixão (e o romance decorrente dela) entre Ariane e Solal. Solal é o Sub Secretário Geral da Liga das Nações, um dos cargos mais importantes. E Adrian Deume faz tudo para conquistar sua amizade e subir na carreira. Solal é um judeu, de origem grega, naturalizado francês e que vive sozinho; é descrito como um homem bonito e interessante e acaba despertando o desejo de muitas mulheres. Mas ele se apaixona por Ariane e tenta de tudo para conquistá-la.

Ele consegue uma promoção para Deume e consegue que ele seja enviado para uma missão internacional que vai durar 3 meses. Com a ausência do marido, ele conquista Ariane e eles vivem meses intensos de paixão.

Quando o marido dela volta, ele sugere que Ariane saia de casa e fuja com ele. E ela atende ao pedido do amante.

Deste ponto em diante, a história foca completamente na história dos dois; e de forma superficial, somos notificados do que aconteceu com Solal na Liga das Nações. Ele tenta propor um plano na Liga para estimular os países membros a aceitarem os refugiados judeus que estavam sendo perseguidos na Alemanha. Mas a Liga se recusou a adotar tal plano, por achar que aumentaria o sentimento anti-semita nos países que recebessem os refugiados. Em vista da insistência de Solal, ele é demitido da Liga e, por fatores que não são bem explicados, sua naturalização francesa é cancelada devido a alguma irregularidade. Solal passa a ser um homem sem pátria, sem trabalho e excluído de todos os meios que costumava frequentar.

Mas ele tinha conseguido fazer fortuna e vai viver uma vida confortável com Ariane em uma cidade próxima a Cannes, na França. Embora não tenham problemas financeiros, vivem 24 horas de amor, todos os dias da semana, sem pausas. Ele não trabalha e ela não pode ter uma vida social, já que é uma mulher que vive com o amante e não é aceita na sociedade. Então, os dois vivem intensamente, apenas entre eles. No início, como em toda paixão, aquela vida é maravilhosa. Mas chega o momento em que não há mais assunto, o desejo já não é tão intenso e eles não têm como fugir daquela vida.

Solal usa estratégias (das quais não se orgulha), como provocar ciúmes ou agredir Ariane, em tentativas desesperadas de tentar reavivar a paixão que havia entre eles. São capítulos longos em que Albert Cohen descreve em detalhes essa decadência da paixão, no casal que não manteve outros estímulos para reavivar o interesse. Como se não bastasse, Ariane fazia questão de manter a perfeição na relação: não podia ser vista após acabar de acordar, tinha que estar penteada, limpa e vestida; nada podia fugir do ideal de beleza. Mas é claro que uma relação mantida desta forma, dia após dia, por meses, não permite uma relação verdadeira; acaba sendo construída sobre alicerces falsos, afinal ninguém se mantém belo e perfeito todo tempo.

Dia após dia, aquela lúgubre avitaminose de beleza, aquele solene escorbuto de paixão sublime e sem trégua. Aquela vida falsa que ela desejara e organizara, para preservar os altos valores, como ela dizia, essa triste farsa de que ela era autora e diretora, corajosa farsa da paixão imutável, a pobrezinha acreditava piamente nela, representava-a de todo o coração, e ele se apiedava, e admirava.

Até por causa de todas estas exigências, Solal não tinha coragem de contar à Ariane que não trabalhava mais na Liga das Nações. Mantinha a mentira e fazia tudo o que podia para afastá-la de qualquer relação social que poderia magoá-la ainda mais.

Eu tentava imaginar onde iria terminar esta história, já que não era um conto de fadas, mas uma descrição real do nascimento, ascensão e queda de uma relação apaixonada. E Albert Cohen manteve-se coerente à história que vinha descrevendo. A vida deles acabou da única forma que era possível acabar: suicidaram-se ambos, juntos, para colocar um fim àquele sofrimento mantido da relação desgastada, na qual nenhum dos dois era capaz de dar um passo em direção à mudança ou ao reconhecimento do esgotamento daquela história de amor.

Transformadas em protocolo e fórmulas rituais de polidez, as palavras de amor deslizavam sobre o linóleo do hábito. Matar-se para acabar com tudo? Mas como, deixá-la sozinha?

(…) Era porque não se amavam mais, diriam os idiotas. Ele os fulminou com os olhos. Não era verdade, eles se amavam, mas estavam juntos o tempo todo, sozinhos com o seu amor.

O livro é repleto de ironias e críticas sociais; e estes aspectos são os que mais me fascinaram. A hipocrisia das pessoas, a falsidade das relações, os abusos das relações hierárquicas… O pior é que, quase 100 anos depois, a maior parte destes problemas continua até hoje.

Assim que o homenzinho saiu com a última leva de pratos e talheres, as duas senhoras passaram a falar sobre diversos assuntos interessantes. Primeiro sobre uma senhora encantadora que tinha uma casa encantadora num parque imenso e encantador; em seguida, sobre a ingratidão dos pobres, que raramente reconheciam tudo o que se fazia por eles, que sempre queriam mais, que não sabiam receber com um pouco de humildade; depois sobre a insolência das empregadas domésticas da nova geração, “essas moças exigem agora uma tarde livre além do domingo, embora não tenham as mesmas necessidades que nós temos, e quando se pensa no trabalho que temos para ensiná-las, e estão ficando cada vez mais raras, mais difíceis de encontrar, elas preferem trabalhar nas fábricas, não têm a vocação do amor ao próximo, pois afinal uma pessoa de bem, que moralmente precisa ser servida, também é o próximo, ao que me consta”.

Respirou profundamente de prazer enquanto naquele mesmo momento um tal Louis Bovard, operário de setenta anos, que não tinha piano nem tapete persa, muito velho para arranjar emprego e sozinho no mundo, atirava-se ao lago de Genebra, sem sequer admirar suas cores delicadas e sutis harmonias.

É uma pena que o livro não esteja mais disponível. É uma leitura bastante interessante e que mostra a realidade em toda a sua crueza e hipocrisia.

 

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2 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Olá Sílvia parece uma novela importante que investiga a sociedade durante o período entre guerras. 800 páginas dar muitos detalhes, talvez os casamentos de conveniência eram comuns naquela época. Eu acho que você escreveu uma grande revisão. Um abraço.

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