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Livro “Autobiografia: O Mundo de Ontem” de Stefan Zweig

O ex da minha vida
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Livro “Autobiografia: O Mundo de Ontem” de Stefan Zweig
Livro “Autobiografia: O Mundo de Ontem” de Stefan Zweig

Título original: Die Welt von Gestern: Erinnerungen eines Europäers

Primeira Publicação: 1942

Tradutora: Kristina Michahelles

Editora: Zahar (27-11-2014)

ISBN13: 9788537813522

Sinopse: Stefan Zweig em suas próprias palavras, sem mediações ou intérpretes, em um dos melhores perfis que escreveu. Um vívido retrato de seu tempo. “Só um livro que a cada folha mantém o ritmo e arrebata o leitor até a última página me proporciona um deleite completo”, diz Zweig. Este, sem dúvida, é um deles. Como austríaco, judeu, escritor, humanista e pacifista, Stefan Zweig esteve sempre onde os incontáveis abalos que atingiram seu tempo foram sentidos de maneira mais violenta. Perdeu a Viena de sua juventude para a Primeira Guerra Mundial, a Áustria de sua maturidade para Hitler, a Europa de sempre para a Segunda Guerra. Exilado no Brasil, definitivamente arrancado de tudo o que fora e formara seu mundo, ele faz dessas memórias um retrato lúcido e comovente de uma geração. Com sua lucidez habitual e uma dose extra de emoção, Zweig oferece um guia para se entender o presente e perceber os contornos do futuro.

 

Poucos livros tiveram a mesma capacidade de fazer com que eu tivesse prazer de degustar a história como esse. Não desejei ler com pressa, porque o desenlace eu já conhecia. Apenas procurei ler com calma, apreciar cada descrição histórica, não apenas das guerras, mas de todos os costumes sociais das 6 décadas retratadas. É claro que é uma descrição da sociedade europeia. Mas, naquela época, a Europa era o centro intelectual e artístico do mundo.

Stefan Zweig nasceu na Áustria em 1881. Era judeu, proveniente de uma família com posses, mesmo que não estivesse entre as mais ricas de Viena. Pôde estudar em boas escolas e ter uma formação bastante privilegiada para a época. Cedo, adquiriu o gosto pela escrita e ainda era novo quando publicou seu primeiro livro de poesias.

Eu sei que uma autobiografia não é absolutamente fiel à verdade. É a verdade filtrada pelos olhos do escritor muitos anos depois. Há o risco de ele ser muito condescendente com suas ações passadas ou, ao contrário, de ser muito crítico e autopunitivo. Nesse livro, talvez haja um pouco dos dois, dependendo do momento. E ainda vale lembrar que Zweig escreveu toda a autobiografia morando nos Estados Unidos, expatriado, e partiu sem levar nenhum dos apontamentos que tinha feito durante sua vida.

Ele começa descrevendo sua vida no liceu, suas amizades, as motivações dos meninos na época (final do Século XIX). Ele consegue ser muito detalhista nas descrições dos hábitos e costumes, sobre as roupas usadas por homens e mulheres, como se portavam e quais eram os valores mais considerados.

Quando estava na Faculdade (e já dedicando seu tempo para escrever quase na integralidade), mudou-se para Berlim, que na época era menor e mais provinciana que sua cidade de origem. Ele descreve todos os contatos que vai travando com escritores, pintores, escultores ao longo da sua vida e conta a emoção de conhecer cada um dos grandes nomes ou destaques das artes em cada uma das fases que viveu. Fiquei contente ao perceber que não sou a única a me emocionar ao travar contato com um ídolo.

De forma muito precisa, descreve a década de ouro da Europa, que antecedeu a Primeira Guerra: como as mentes começaram a se abrir, os costumes evoluíram, as mulheres ganharam espaço, as relações ficaram menos superficiais. Essa descrição acabou me levando à obra “O Amante de Lady Chatterley”, que faz descrições muito semelhantes do mesmo momento histórico. Um livro que li recentemente (“Uma Princesa em Berlim”) usa muitas informações e detalhes da obra de Zweig na construção de sua trama.

Ele conta a forma como a Primeira Guerra estourou, transformando a Europa totalmente. Era algo em que ninguém acreditava ou via possibilidade de acontecer e, mesmo assim, veio por ganância e interesses econômicos. Ele se questiona, em vários momentos do livro, quais eram os financiadores das guerras e de onde surgia todo o dinheiro que comprava ou produzia os armamentos.

É muito interessante a descrição do momento entre as Guerras: o surgimento do fascismo na Itália, a inflação monstruosa na Alemanha e na Áustria, o descaso da França e da Inglaterra que achavam impossível que a Alemanha pudesse se reerguer e se armar para um novo confronto.

É muito triste sua descrição de se tornar uma pessoa sem pátria, proveniente de uma nação que não era mais reconhecida pelos países livres; ele deixou de ter um passaporte austríaco e recebeu, por um ato de bondade, um documento de identidade emitido pelo governo inglês.

O final de sua vida foi no Brasil, em Teresópolis e Petrópolis, onde se suicidou, juntamente com sua mulher, em 1942, ainda antes do final do conflito que fez com que ele sofresse tanto.

Alguns trechos do livro:

(…) pois é justamente o apátrida que se torna livre em um novo sentido, e só quem não está mais preso a nada pode se dar ao luxo de não ter que levar mais nada em consideração. Por isso, espero cumprir pelo menos uma das principais condições de qualquer descrição adequada da contemporaneidade: sinceridade e imparcialidade.

As massas que mudas e obedientes, durante décadas haviam deixado a soberania para a burguesia liberal, de repente se agitaram, organizaram-se e passaram a exigir seus direitos.

Aquilo que os homens da SA fizeram para o nacional-socialismo, dissolvendo reuniões a golpes de cassetetes, assaltando os adversários à noite e derrubando-os com pancadas, as corporações estudantis resolviam para os pangermanistas. Protegidos pela imunidade acadêmica, esses estudantes instauraram um terror de espancamento inigualado, e compareciam a toda ação política militarmente organizados.

Provocando sem cessar, espancavam ora os estudantes eslavos, ora os judeus, ora os católicos, ora os italianos, expulsando os indefesos da universidade.

Nós, jovens, no entanto, enredados por completo em nossas ambições literárias, pouco notávamos essas perigosas transformações na nossa pátria.

Mas era assim que a sociedade de então queria a jovem, tola e inexperiente, bem-educada e ingênua, curiosa e envergonhada, insegura e sem prática e de antemão destinada por essa educação alheia à vida a ser moldada e conduzida pelo homem no casamento, sem vontade própria.

A todas as pessoas que gostem de história, que se interessem pelas Guerras Mundiais e como elas moldaram nossa história, esse livro é mais que recomendado. Ele se tornou um dos meus livros favoritos!

– Sílvia Souza

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