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Livro “Atlas de Nuvens” de David Mitchell

Livro “Atlas de Nuvens” de David Mitchell
Livro “Atlas de Nuvens” de David Mitchell

Título original: Cloud Atlas

Primeira publicação: Março de 2004

Tradutor: Paulo Henriques Britto

Editora: Companhia das Letras (25 de Julho de 2016) – 544 páginas

ISBN13: 9788535927580

Sinopse: Neste que é um dos romances mais importantes da atualidade, David Mitchell combina o gosto pela aventura, o amor pelo quebra-cabeça e o talento para a especulação filosófica e científica na linha de Umberto Eco, Haruki Murakami e Philip K. Dick. Conduzindo o leitor por seis histórias que se conectam no tempo e no espaço — do século XIX no Pacífico ao futuro pós-apocalíptico e tribal no Havaí — Mitchell criou um jogo de bonecas russas que explora com maestria questões fundamentais de realidade e identidade.

 

David Mitchell nasceu em 1969, em Southport, na Inglaterra. Ele se formou em Literatura Inglesa e Americana na Universidade de Kent. “Atlas de Nuvens” foi seu terceiro livro.

Eu recebi este livro da Companhia das Letras, relativo à parceria do meu blog com a Editora, como um lançamento do mês de julho.

O autor faz um trabalho muito interessante na construção do livro. Ele narra 6 histórias diferentes que se passam em lugares e tempos diferentes, mas que se relacionam de alguma forma. A comparação com bonecas russas realmente é muito feliz, porque ele realmente vai colocando uma história dentro da outra até o desfecho final.

E tenho que deixar aqui minha admiração pelo trabalho do tradutor. A linguagem segue a época descrita; uma linguagem mais antiga na narrativa que se passa em 1850. A evolução da linguagem com o tempo. E nas duas histórias que se passam no futuro, entram inúmeros neologismos; e imagino que compreender e traduzir de forma adequada estes neologismos, mantendo a forma que o autor quer deixar, não deve ter sido algo simples de se fazer.

 

1. Diário de viagem ao Pacífico de Adam Ewing

Um advogado americano aguarda numa ilha do Pacífico enquanto o navio em que viaja passa por reparos. O ano é 1850, e Adam registra os acontecimentos em um diário. Acaba fazendo amizade com um médico inglês que encontra na ilha e que acaba sendo convencido a seguir viagem junto deles em direção ao Havaí e à Califórnia, terra onde mora Adam. Em um momento de compaixão, ele troca olhares com um escravo que está sendo açoitado. Esse escravo acaba se escondendo no navio quando este parte e pede a ajuda de Adam para que o aceitem a bordo em troca do seu trabalho. Ao longo da viagem, o advogado vai ficando cada vez mais fraco por causa de uma “verminose cerebral”, doença essa diagnosticada pelo médico, que se encarrega do tratamento ao longo dos dias.

Algumas palavras próprias da época, a descrição da ocupação das ilhas do Pacífico pelos religiosos ingleses, a catequização dos nativos, os preconceitos, os abusos, tudo vai sendo abordado nessa primeira história que foi, na minha opinião, aquela de que eu mais gostei.

 

2. Cartas de Zedelghem

Um jovem músico, o inglês Robert Frobisher, troca cartas com um antigo colega de escola, Sixsmith, que foi o grande amor da sua vida. O ano é 1931. Frobisher fora deserdado pela família e foge de Londres em dificuldade financeira. Acaba indo procurar um músico belga famoso que estava doente e não conseguia mais compor. Frobisher se oferece para ser amanuense do músico, já cego. Essa história se passa em Zedelghem, na região de Bruges.

Frobisher acaba aceito e passa a receber um salário por sua ajuda. No tempo livre, ele trabalha em sua própria obra, o Sexteto Atlas de Nuvens. Acaba complicando sua situação na casa ao se envolver com a esposa do músico, Jocasta, e se apaixonar pela filha, Eva, achando que era correspondido.

Ele busca na casa livros raros, para tentar ganhar dinheiro com a venda, e encontra o “Diário de viagem ao Pacífico de Adam Ewing”, pelo qual se interessa e guarda para si.

 

3. Meias-vidas: O primeiro romance policial da série Luisa Rey

Luisa Rey trabalha em uma revista sensacionalista, mas não é feliz com o tipo de reportagem que faz. Seu pai tinha sido um jornalista famoso e ela tem sempre essa sombra em seu passado. Ela acaba entrando em contato com Rufus Sixsmith, um famoso físico nuclear, que denunciou um grave problema em uma usina nuclear na Califórnia. A história de passa em 1975.

Sixsmith é assassinado e Luisa passa a buscar o relatório que ele deixou denunciando o risco. E também acaba tendo acesso às cartas de Robert Frobisher, que Sixsmith manteve guardadas por toda sua vida.

Ela tenta resolver toda a história que envolve muita gente poderosa e tem que enfrentar vários atentados à sua vida.

 

4. O pavoroso calvário de Timothy Cavendish

Timothy Cavendish é um editor que nunca teve muito sucesso. Por um golpe de sorte, um dos livros que ele editou começou a vender muito, depois do autor ter matado um crítico que tentou difamá-lo.

Mas os irmãos do autor vão atrás do editor para ter acesso aos rendimentos do livro. Timothy já tinha gastado tudo por causa de dívidas antigas. Em sua fuga, seu irmão sugere que ele vá a um “hotel” que ele indica. Mas chegando lá, após se hospedar, Timothy percebe que é um asilo de idosos e não se permite que ele saia mais de lá.

Ele vai buscar formas de tentar fugir do lugar. E em suas noites solitárias, o único livro que ele levou consigo foi um manuscrito recebido imediatamente antes de sua partida de Londres, “Meias-vidas: O primeiro romance policial da série Luisa Rey”.

 

5. Uma rogativa de Sonmi~451

No próprio livro (não me lembro em que momento), o autor descreve sua admiração por “1984” de George Orwell e por “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Esta história lembra muito estas obras distópicas.

Sonmi~451 é uma fabricante clonada para trabalhar em uma cadeia de lanchonetes em um futuro em que o mundo é controlado por uma classe dominante. A história é narrada por ela, que está respondendo a perguntas enquanto está presa. Ela consegue escapar da alienação e amnésia em que vivia e tenta participar da rebelião que pretende derrubar o governo.

Um dos momentos em que ela descreve sua felicidade e liberdade corresponde a uma tarde em que vai a um antigo cinema e assiste ao filme “O pavoroso calvário de Timothy Cavendish”.

Eu não gosto muito dessas sociedades distópicas, sempre baseadas em governos controladores e ditatoriais. Então, esta história do livro não foi das minhas preferidas.

É um trecho repleto de neologismos (desculpem-me pela comparação, mas me lembrei de “Marcelo, marmelo, martelo” de Ruth Rocha). Algumas coisas foram fáceis de entender; mas há inúmeros termos e expressões desse tempo futuro que permaneceram sem muitas explicações.

 

6. O vau do Sloosha e o que deu adespois

Após o colapso da humanidade, sobreviventes de um misterioso cataclismo vivem em tribos e guerreiam entre si. A chegada de um grupo tecnologicamente mais avançado forçará Zachary a uma perigosa travessia. Ele e sua tribo têm fé na deusa Sonmi, para quem ele pede proteção.

Tenho que confessar que tive muita dificuldade na leitura dessa história. A narrativa é feita por Zachary que, embora seja um sobrevivente, vive quase como no começo dos tempos e sua linguagem é completamente diferente, em uma mistura de uma linguagem inculta, cheias de erros, junções e neologismos. Como achei difícil de ler, acabava me dispersando na leitura e entendi apenas superficialmente tudo o que estava sendo narrado.

De todas, essa foi a história da qual gostei menos.

 

Apesar desta última história, gostei muito, muito mesmo da obra. Principalmente da forma como foi construída. E ter tantas narrativas contadas de formas diferentes, em tempos e lugares diferentes e com linguagens tão distintas fez com que eu tivesse grande admiração pelo autor e pelo livro que ele construiu.

Valeu muito a pena e indico o livro para quem gosta de desafio e originalidade.

 

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6 Comments
  • Lari Reis disse:

    Silvia, vim correndo ver esse post quando vi que tinha vídeo! Acho muito agradável te ver/ouvir falar. Você apresenta a história e suas opiniões de uma forma muito leve, real.

    Sobre o livro, apesar de não ter lido, acredito já ser possível concordar que a construção é a parte mais interessante. Acredito, também, que partilharia da sua opinião quanto à parte final porque linguagens difíceis simplesmente se arrastam para mim. Em geral, me pareceu uma obra bem interessante. Não me lembro de ter me deparado com nada parecido também.

    • Olá, Lari!
      Que bom que gostou do vídeo! Obrigada por deixar sua opinião… Estou tentando melhorar… Corrijo alguns erros e vejo que cometo outros. Já não sou da geração mais jovem pra aprender tudo rapidinho… 😀
      O livro é bastante interessante. Há alguns detalhes ainda na construção e nas histórias que são bastante curiosos; mas não quis contar tudo pra não tirar a surpresa de quem quiser se aventurar na leitura.
      Um beijo grande!

  • Virginia Leite disse:

    Ótimo post !

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