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Livro “Além do Crime e Castigo: Tentativas de Superação” de Jean Améry

Livro “Além do Crime e Castigo: Tentativas de Superação” de Jean Améry
Livro “Além do Crime e Castigo: Tentativas de Superação” de Jean Améry

Título original: Jenseits von Schuld und Sühne. Bewältigungsversuche eines Überwältigten

Primeira publicação: 1966

Tradutora: Marijane Lisboa

Editora: Contraponto (Junho de 2013) – 160 páginas

ISBN13: 9788578660802

Sinopse: ‘Em janeiro de 1945, com a aproximação das tropas soviéticas, o Exército alemão decide evacuar o campo de concentração de Auschwitz. Já terrivelmente debilitados, os prisioneiros saem em marcha forçada, escoltados pelas SS, que fuzilam em campo aberto os que perdem as forças para continuar. A ‘marcha da morte’, como ficou conhecida, passa por Gleiwitz, dirige-se para Buchenwald e, finalmente, chega a Bergen-Belsen no início de março. Dos 25.437 prisioneiros belgas que iniciaram a jornada, somente 615 estavam vivos em 15 de abril, quando o Exército inglês os localizou e os libertou. Jean Améry estava entre eles. Pesava 45 quilos. Havia passado 642 dias em campos de concentração. Na verdade, não era belga, mas austríaco. Não se chamava Jean Améry, mas Hans Maier. Era judeu, mas de uma família convertida ao catolicismo e perfeitamente assimilada aos costumes da região do Tirol. Estava em fuga desde 1938, quando as tropas alemãs ocuparam Viena sob aclamação popular. Encontrou refúgio temporário na Bélgica, onde adotou o novo nome, que nunca mais abandonaria. Em 1940, quando esse país também foi ocupado, aderiu à Resistência, o que o levou às experiências extremas da prisão, da tortura e de Auschwitz. Com o fim da guerra, Améry se torna jornalista e escritor, mas espera quase vinte anos para preparar os ensaios autobiográficos que compõem este livro. Eles não seguem nenhuma cronologia, não descem a muitos detalhes, prendem-se ao essencial. São, antes de tudo, uma longa reflexão sobre raízes e desenraizamento, sobre dores e ressentimentos, sobre o papel dos intelectuais, sobre a natureza do nazismo, sobre a condição judaica e, talvez mais do que tudo, sobre a vitória da hipocrisia; com o início da Guerra Fria, os crimes nazistas passam a segundo plano por causa do papel estratégico da Alemanha na nova geopolítica mundial. Todos têm pressa de ‘superar’ o passado, sem extrair plenamente as suas lições: “O tempo consumou sua obra. Em silêncio. A geração dos exterminadores, dos construtores das câmaras de gás, dos generais sempre dispostos a assinar qualquer coisa e devotados de corpo e alma ao seu Führer, essa geração envelhece com dignidade.” Améry denuncia isso. Reivindica um papel positivo para o ressentimento; o dedo acusador era necessário para que os alemães compreendessem que sua conivência com o Terceiro Reich fora a negação completa de suas melhores tradições. Escrita na contramão do espírito da época, a vigorosa reflexão de Jean Améry revive, fortalecida, sempre que se discute o que fazer com as heranças das barbáries.’ – César Benjamin

 

 

Jean Améry publicou este conjunto de ensaios autobiográficos pela primeira vez em 1966 e os reeditou em 1977, um ano antes de cometer suicídio. O texto se destina, principalmente, ao público alemão, em particular o público jovem e culto da nova geração do após-guerra. Vem daí a grande quantidade de referências à literatura e à filosofia alemãs, bem como a episódios e personagens da Alemanha nazista, sa Segunda Guerra Mundial e das décadas que se seguiram.

– Marijane Lisboa – Apresentação da edição brasileira

Algumas informações sobre a cronologia de Jean Améry [Hans Maier]:

  • 1912 – Hans Maier nasce em Viena em uma família judia assimilada. Recebe educação católica e passa a infância em Bad Ischl, pequeno povoado situado nos Alpes. Sua língua materna é o dialeto alemão local. Só aos dezenove anos Hans descobrirá a existência do iídiche falado pelos seus ancestrais judeus.
  • 1914-1918 – Seu pai, o comerciante Paul Maier, aos 34 anos, é convocado para o Exército austríaco e morre lutando na Primeira Guerra Mundial.
  • 1928 – Aos dezesseis anos, ainda em Viena, Hans publica seus primeiros relatos e poemas, sob influência de Hermann Hesse e Emil Strauss.
  • 1935 – Escreve o romance “Os náufragos”, elogiado por Thomas Mann e Robert Musil. Ao ler as leis raciais promulgadas pelos nazistas em Nuremberg, experimenta a sensação de que foi condenado à morte.
  • 1938 – Ocorre o Anschluss, a anexação da Áustria pela Alemanha nazista. Hans decide fugir.
  • 1939 – Hans chega à Bélgica a assume o nome de Jean Améry.
  • 1940 – Tropas alemãs invadem a Bélgica e Jean Améry é preso, mas consegue fugir.
  • 1943 – Preso novamente, é torturado na fortaleza de Breendonk na Bélgica e, depois de ser identificado como judeu, é enviado para Auschwitz.
  • 1945 – Com a aproximação das tropas aliadas, começa em 25 de janeiro a evacuação do campo e os prisioneiros precisam caminhar, quando ocorrem milhares de mortes.
  • 1946 – Regressa a Bruxelas, onde começa a carreira de escritor e crítico de cinema e literatura.
  • 1964 – Começa a escrever os ensaios autobiográficos que comporão este livro.
  • 1978 – Comete suicídio em Salzburg, na Áustria.

Achei que valia a pena colocar algumas informações da sua cronologia, porque ele não aborda sua história diretamente. O livro é composto por 5 ensaios, com reflexões sobre os anos da guerra, sua prisão, as torturas, o fato de ser judeu.

Os ensaios são:

1. Na fronteira do espírito

Primeiramente, o homem de espírito tinha muito mais dificuldade em aceitar a inacreditável situação em que estava do que os homens simples, não intelectuais. O hábito de questionar o cotidiano, adquirido ao longo de muitos anos de treinamento, o impedia de adequar-se à realidade do campo, pois ela estava em profunda contradição com tudo o que ele considerava possível e humanamente razoável. (…) Os intelectuais se revoltavam diante da impotência do pensamento. No começo, mas só no começo, continuavam a crer naquela sabedoria rebelde dos loucos, de que não pode existir aquilo que não deve existir.

Neste ensaio, Jean Améry coloca uma ideia original, que nunca tinha me ocorrido: a diferença entre intelectuais ou não nos campos de concentração; principalmente pela ausência em uma crença absoluta em um Deus e uma existência após a morte. Para um intelectual, além da falta de um físico adequado para os trabalhos nos campos, como aceitar um absurdo como aquele, onde não há lugar para a razão e a lógica?

Saímos do campo despidos, saqueados, vazios, desorientados, e demorou muito até que reaprendêssemos a linguagem cotidiana da liberdade. Aliás, falamos sobre ela com mal-estar, sem plena confiança em sua validade.

 

2. A tortura

Mesmo assim, 22 anos depois, a partir dessa experiência que nem de longe pode esgotar todas as possibilidades da dor, atrevo-me a afirmar: a tortura é o acontecimento mais terrível que um ser humano pode carregar consigo.

Neste ensaio, ele conta as torturas que sofreu e como estas experiências conseguem destruir o que há de humano em alguém, despindo toda a dignidade e confiança em si mesmo.

 

3. Até que ponto precisamos da nossa terra natal?

Terra natal é segurança. Nela, dominamos a dialética do conhecer-reconhecer, do fiar-se e confiar. Porque conhecemos nossa terra natal a reconhecemos. Ousamos falar e agir porque nossa confiança se baseia nesse conhecer-reconhecer. Todo o campo semântico das palavras aparentadas (…) pertence ao extenso território psicológico de sentir-se seguro. As pessoas se sentem seguras quando não há incertezas no horizonte, quando não têm nada de estranho a temer. Viver na sua terra significa ver aquilo que conhecemos repetir-se constantemente, com mínimas variações. É verdade que, se conhecemos apenas a nossa terra natal, podemos nos tornar espiritualmente pobres e limitados, provincianos. Mas, se carecemos de terra natal, caímos no caos, no desconcerto, na desorientação.

(…)

Familiarizamo-nos com nosso lugar de origem da mesma maneira que aprendemos a língua materna sem conhecer sua gramática. A língua materna e a terra natal crescem conosco, crescem em nós e constituem o universo familiar que nos dá segurança.

Este ensaio sobre a terra natal trouxe-me muitas reflexões. Podemos pensar em pessoas que ficam no exílio por questões políticas por exemplo ou naquelas que são expatriadas por questões profissionais. Mas, no caso do autor, ele era austríaco, falava apenas alemão e, de um momento para outro, ele não podia mais ser considerado austríaco… ele era apenas um judeu (coisa que ele nunca tinha sido em sua própria concepção) e perdeu sua pátria, sua nacionalidade, tudo aquilo que ele tinha reconhecido como seu. De um momento a outro, ele teve sua história e seu passados ceifados e passou a viver em outros países, onde também não se reconhecia como cidadão.

(…) Quem é jovem concede a si um crédito ilimitado, um crédito que normalmente também lhe é concedido pelos demais. Ele não é apenas o que é, mas também o que será. (…)

Aquele que envelhece esgota esse crédito. Seu horizonte se estreita. Seu amanhã e depois de amanhã perdem força e certeza. Ele é o que é. Não há mais futuro ao redor. Portanto, não há mais futuro nele, não pode contar com nenhum devir. Exibe ao mundo um ser desnudo. Pode subsistir se, equilibrado nesse ser, repousa o que foi.

 

4. Ressentimentos

Este ensaio é o mais amargo e fez com que eu discordasse dele na maior parte do tempo. Porque ele expõe seus ressentimentos mais profundos, tudo aquilo que ele não soube perdoar nem mesmo às gerações seguintes, culpando-as pelos pecados dos antepassados. Tendemos a achar que todas as pessoas devem perdoar quem lhes fez mal. Mas é muito difícil se colocar no lugar de alguém que passou por tamanho sofrimento, por tantas perdas e torturas. Não é possível dimensionar.

 

5. Sobre a obrigação e a impossibilidade de ser judeu

Ser judeu significa não só trazer consigo uma catástrofe ocorrida no passado e cuja repetição no futuro não pode ser inteiramente excluída, algo a que estou obrigado. Além disso há o medo. Todas as manhãs, ao me levantar, posso ler a tatuagem de Auschwitz no meu antebraço. Ela penetra nas entranhas mais profundas da minha existência. Chego a ter dúvidas sobre se ela não constitui toda a minha existência. Todos os dias sinto-me como naquele dia em que levei a primeira bofetada do policial. Todos os dias perco novamente a confiança no mundo.

Jean Améry foi criado como católico e, ele mesmo, não tinha uma crença. De um momento para outro, foi condenado por causa de seus antepassados judeus, sem nunca ter cometido um crime. Perdeu toda a identificação de quem tinha sido até aquele momento e foi-lhe dada uma nova personalidade e uma condenação.

(…) Tenho que assumir minha condição de estranho como um elemento essencial da minha personalidade e nela me agarrar como a uma propriedade inalienável. Convivo com minha solidão diariamente.

(…)

Sou forçado a concluir que não fui nem estou perturbado. A neurose está nos eventos históricos. Loucos são os outros. Estou perdido entre eles, como um homem são que participa de uma visita guiada a uma clínica psiquiátrica e repentinamente perde de vista os médicos e os guardas. Entretanto, a sentença que os loucos ditaram contra mim está definida. Pode ser executada a qualquer momento. Minha lucidez é irrelevante.

Os 5 ensaios trazem muitos questionamentos e mudaram a perspectiva em qualquer análise que eu possa fazer sobre vida, perdão, adaptação. O livro foi mais uma constatação da ferida profunda e permanente que as guerras em geral, e a Segunda Guerra em particular, deixam na vida das pessoas inocentes que encaram injustiças e sofrimentos indescritíveis.

 

 

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2 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Olá Silvia ficou impressionado com seu comentário. Eu posso imaginar a perplexidade do autor quando ele confronta sua lógica com a irracionalidade do mal. Também a introspecção consistente que causam o sofrimento e a tortura em qualquer um de nós. Concordo com você que era a estratégia política dos EUA durante a Guerra Fria a que tornou possível para milhares de criminosos fiquem impunes e milhões de vítimas não recebem uma compensação justa. Muito obrigado. Um abraço forte.

    • Obrigada por passar sempre aqui, Carlos.
      Você já percebeu que sou meio aficionada por esta época.
      Acho que estou começando a construir um cenário na minha cabeça.
      Beijo!

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