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Livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley

Livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley
Livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley

Título original: Brave New World

Primeira Publicação: 1932

Tradutor: Lino Vallandro e Vidal de Oliveira

Editora: Globo (22-05-2014)

ISBN13: 9788525057358

Sinopse: Uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos, na qual a mera menção das antiquadas palavras “pai” e “mãe” produzem repugnância. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas já no nascimento. Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, e que idolatra Henry Ford. Essa é a visão desenvolvida no clarividente romance distópico de Aldous Huxley, que ao lado de 1984, de George Orwell, constituem os exemplos mais marcantes, na esfera literária, da tematização de estados autoritários. Se o livro de Orwell criticava acidamente os governos totalitários de esquerda e de direita, o terror do stalinismo e a barbárie do nazifascismo, em Huxley o objeto é a sociedade capitalista, industrial e tecnológica, em que a racionalidade se tornou a nova religião, em que a ciência é o novo ídolo, um mundo no qual a experiência do sujeito não parece mais fazer nenhum sentido, e no qual a obra de Shakespeare adquire tons revolucionários. Entretanto, o moderno clássico de Huxley não é um mero exercício de futurismo ou de ficção científica. Trata-se, o que é mais grave, de um olhar agudo acerca das potencialidades autoritárias do próprio mundo em que vivemos. Como um alerta de que, ao não se preservarem os valores da civilização humanista, o que nos aguarda não é o róseo paraíso iluminista da liberdade, mas os grilhões de um admirável mundo novo.

 

Esse livro foi recomendado na disciplina de Filosofia do meu filho mais velho. Como eu nunca o tinha lido, resolvi aproveitar esse momento para conhecer a obra mais famosa de Aldous Huxley.

O autor nasceu na Inglaterra em 1894 e mudou-se para os Estados Unidos em 1937, onde morreu em 1963. Como ele descreve uma sociedade no futuro, nunca chegou a saber se o futuro proposto por ele se tornaria realidade algum dia.

O livro nos angustia desde seu início com a descrição de uma sociedade onde não há mais relacionamento de afeto; uma sociedade em que as crianças são concebidas artificialmente e crescem em úteros artificiais, sendo selecionadas para cada uma das castas da sociedade. Mas não há possibilidade de mudança de uma casta para outra, já que aqueles de castas inferiores recebem menos oxigênio durante sua formação e não possuem a mesma inteligência que aqueles das castas superiores. E, para que não haja nenhum tipo de questionamento, mesmo que isso seja altamente improvável, as crianças passam por um tipo de hipnose durante seu sono até a adolescência. Não existem as figuras dos pais e das mães. Não existem irmãos como na concepção atual. Mas eles criam populações inteiras de gêmeos, para que todos possam desempenhar funções semelhantes com maior homogeneidade.

Dentro dessa sociedade distópica, há uns poucos indivíduos dominantes que tomam as decisões e exercem o poder. Esses têm a noção exata do que se passa; um deles têm obras literárias antigas que mostram como o mundo era (o que era algo desconhecido de todos, porque todos os livros e informações sobre o passado tinham sido destruídos). As pessoas eram mantidas felizes de forma artificial, através da alienação causada pelo cinema, pelo consumismo exacerbado, pelo estímulo ao sexo casual e livre entre todos e por uma droga chamada “soma”, usada por todas as pessoas.

Excluindo-se a angústia provocada pela obra ao se imaginar uma sociedade nesses moldes, o livro tem um ritmo muito bom e prende a atenção. É claro que há uma enorme torcida para que algo aconteça e seja possível tirar as pessoas desse estado de alienação crônica.

O livro é um marco na descrição de um governo autoritário e que conseguiu reduzir as pessoas a seres não pensantes, vivendo de forma quase autômata. Não discuto o valor do livro e acho impressionante as previsões futuras que o autor fez, já que o livro teve sua primeira publicação em 1932.

Mas um ponto que eu queria levantar aqui e que me incomodou muito durante a leitura é a forma machista como a mulher ainda é tratada nessa sociedade do futuro. Sei que não poderia ser de outra forma, visto que o autor nasceu no final do Século XIX. Mas a dificuldade de dar, no livro, a mesma importância para as mulheres que ele dá aos homens, apenas demonstra seu pensamento compatível com a sociedade da época, na qual a mulher não participava das principais decisões e governos.

As principais personagens femininas no livro, embora também tenham o direito de praticar o sexo livre, são subjugadas pelos homens; colocam-se em posição inferiorizada, quase como um objeto que será possuído por uma noite. E, como objeto, permanecem os comentários machistas de um homem com o outro sobre as mulheres que experimentaram e quais valiam a pena.

Entre os dirigentes mundiais, não há mulheres. E, quando chega o Selvagem, que sempre tinha vivido isolado dessa sociedade controlada, algumas marcas do machismo são ainda mais intensificadas. Ele aprendeu lendo a obra de Shakespeare e sabe todos os textos de cor. Mas assume como correto aquela idolatria da mulher e a necessidade de punição no caso da mulher demonstrar seu desejo, como se isso a tornasse uma prostituta.

Haveria muitas nuances a serem descritas sobre o livro. Mas essa chamou minha atenção. Mesmo na época em que foi escrito, havia muitos autores que percebiam as diferenças e a subordinação à qual as mulheres eram submetidas. Da mesma época temos “O amante de Lady Chatterley”, que critica a posição da mulher como dependente da decisão do homem. O próprio Stefan Zweig em sua “Autobiografia: o mundo de ontem”, faz vários comentários críticos sobre a forma como as mulheres tinham que se adequar à sociedade.

Acho que eu gostaria de ter visto, apesar de numa sociedade distópica e doente, que, ao menos, as mulheres tiveram a chance de ter alcançado a igualdade, não nos direitos perante as leis, mas na forma como são vistas pelos homens e por elas mesmas.

– Pois bem, eu preferiria ser infeliz a ter essa espécie de felicidade falsa e mentirosa que você gozava aqui.

– Sílvia Souza

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5 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Eu acho que o mesmo Huxley deixou o antídoto para o veneno da felicidade programado na filosofia perene, que é um dos meus livros favoritos. Talvez não estamos tão longe do que as circunstâncias sociais e económicas nos coloca no meio deste distópico. Um abraço.

  • Darlene Regina disse:

    Esse livro é um dos mais marcantes que já li! E pelo teu comentário e do leitor Carlos Moya, posso ver que não sou a única a pensar que nos aproximamos desse meio distópico e perturbador e também tenho esperanças de que um futuro assim não se concretize!

    Abraços!

    • Se houver um dia em que eu tenha perdido completamente a esperança em um futuro melhor, nem vale a pena continuar vivendo…
      Acho que vou continuar sendo uma sonhadora…
      Beijo!

  • […] mestres em destruir o planeta. Alguns escritores foram muito pessimistas, como Aldous Huxley em Admirável mundo novo. Mas não se previa exatamente o que seria de fato o nosso […]

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