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Livro “A vida está em outro lugar” de Milan Kundera

Festas de 15 anos
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Livro “A vida está em outro lugar” de Milan Kundera
Livro “A vida está em outro lugar” de Milan Kundera

Título original: Život je jinde

Primeira Publicação: 1969

Tradutora: Denise Rangé Barreto

Editora: Companhia de Bolso (10-01-2012) – 1a. Edição

ISBN13: 9788535920154

Sinopse: Jaromil cresce na Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas. Para o júbilo de sua mãe, manifesta já na infância o dom de criar rimas. O menino pouco conhecerá o pai, que é preso pela Gestapo e morre num campo de concentração. Assim, é a mãe quem vai cuidar para que seja um grande poeta. O jovem, porém, se entusiasma com a revolução e põe sua arte a serviço da sociedade socialista. Para o desespero da mãe, ele não faz mais versos rimados. Agora redige palavras de ordem. O poeta quer ser livre e pertencer a algo maior, e ele não está sozinho. A seu lado estão Rimbaud, Lermontov, a poesia da afirmação, da embriaguez. Mas Jaromil nunca será verdadeiramente livre, pois o universo que o gestou não lhe permitirá emancipar-se de suas amarras.

 

Foi no ano passado que li Milan Kundera pela primeira vez (Livro “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera). Eu me apaixonei pelo escritor tcheco. Certamente foi um dos melhores livros que li.

Milan Kundera nasceu em Brno, na República Tcheca, em 1929. Ele conquistou fama internacional com o romance “A Brincadeira” (1967), que lhe rendeu a proibição de publicar em seu país e a perda da nacionalidade. Seus romances geralmente tratam de escolhas e decepções. Em seus livros é recorrente a crítica ao regime comunista e à ocupação russa de seu país em 1968. Emigrou para a França em 1975, onde vive como cidadão francês. “A vida está em outro lugar” é seu segundo romance.

Os dois livros que li do autor possuem estruturas de capítulos muito semelhantes. São capítulos curtos, numerados, dentro das partes que compõem o livro. A impressão que me deu, nas duas leituras, é que ele tentou construir tipos característicos, como uma forma de exemplificar as mais variadas reações humanas e seus comportamentos frente a problemas. Não parecem personagens vivos, mas exemplos criados pelo narrador onipotente que tenta, com isso, mostrar pontos de vista. Acho essa construção interessantíssima!

Nesse livro especificamente, chama atenção que a maioria dos personagens não ganha nome. O personagem principal é nomeado, Jaromil. Além dele, ganham nome a empregada que trabalhou em sua casa por algum tempo (Magda) e um personagem criado pelo próprio Jaromil, chamado Xavier. Os outros são identificados por seus papeis: mamãe, o pintor, a ruiva, a estudante, e assim por diante.

A mãe engravidou enquanto namorava o engenheiro, após pouco tempo de relacionamento. Foram obrigados a se casarem e viveram um casamento infeliz até o pai ser preso pela Gestapo e morto em um campo de concentração. A história aborda um pouco dos eventos da Segunda Guerra; mas relata mais sobre a adoção do comunismo pela Tchecoslováquia do pós guerra. Em muitos momentos, o autor faz questão de falar da repressão, das torturas, dos desaparecimentos e mortes sem explicação e da forma como usaram os estudantes como agentes de fiscalização e fortalecimento do regime.

Mas a situação política aparece como o pano de fundo, o cenário para o desenvolvimento dos dois personagens principais: a evolução de Jaromil, enquanto criança prodígio; depois como adolescente deslocado e inseguro, que tenta aprender como se aproximar de uma moça para iniciar um relacionamento; e, por fim, como um adulto jovem, que adota a ideologia comunista sem nem mesmo entender as consequências do regime, afastando-se de todas as pessoas que foram importantes para ele.

O segundo personagem é a mãe de Jaromil. É uma mulher que passou a viver em função do filho desde muito jovem, casada com um homem que não a amava, ainda bonita, mas se incomodava com o ventre que tinha ficado feio após a gravidez. E há seus desejos de mulher, a vontade de ter novos relacionamentos, o ciúme de mãe, a dificuldade de lidar com a dualidade mãe/mulher.

Milan Kundera trabalha todos esses aspectos com grande habilidade, mostrando inúmeros questionamentos, medos que não revelamos, nossas vergonhas mais íntimas.

O escritor tem uma capacidade maravilhosa de construir frases ou trechos que nos dizem muito. E a tradutora soube manter a mesma beleza dos trechos em português. Transcrevi várias passagens que me foram significativas.

Será que finalmente estava decidida a dizer a verdade? Ah, de jeito nenhum! Não lhe dizia que o que ela costumava chamar de felicidade de amar não passava de um penoso esforço, não lhe dizia a que ponto tinha vergonha de sua barriga maltratada, tampouco que tivera uma crise de nervos, que machucara o joelho e que tivera de dormir durante uma semana. Não dizia, porque tal franqueza não fazia parte da sua natureza e porque queria finalmente ser de novo ela mesma e porque só podia ser ela mesma na dissimulação; porque confiar-lhe tudo francamente era o mesmo que estar deitada diante dele, nua, com as estrias de sua barriga. Não, não queria mais mostrar-se para ele, nem por fora nem por dentro, queria reencontrar a segurança de seu pudor, por isso precisava ser hipócrita e falar apenas de seu filho e de seus sagrados deveres de mãe. E, ao final da carta, ela mesma estava convencida de que nem sua barriga nem o exaustivo esforço que precisava empreender para acompanhar as ideias do pintor haviam provocado seu colapso nervoso, mas sim seus grandes sentimentos maternos que se haviam revoltado contra seu grande amor culpado.

Mas se temos repentinamente a revelação da nossa própria pequenez, para onde fugir para escapar dela? Apenas uma fuga para o alto permite que se escape à humilhação!

Xavier respondeu que um lar não é um armário de roupas nem um pássaro numa gaiola, mas a presença de alguém a quem se ama.

E nada há mais belo que o momento que antecede à viagem, o instante em que o horizonte de amanhã vem nos visitar e contar suas promessas.

O sono para ele não é o contrário da vida; o sono é para ele a própria vida, e a vida é um sonho. Ele passa de um sonho a outro como se passasse de uma vida a outra.

Como é possível? Ele leu em toda parte que, na vida, a juventude é o período de maior plenitude! De onde vem então esse não ser, esse dispersar da matéria viva? De onde vem esse vazio?

Então acham que o passado, porque já foi, está acabado e imutável? Ah não, sua vestimenta é feita de um tafetá furta-cor, e cada vez que nos voltamos para ele podemos vê-lo com outras cores.

A ternura nasce no instante em que somos jogados no limiar da idade adulta e quando nos damos conta, angustiados, das vantagens da infância que não compreendíamos quando éramos crianças.

Dera-lhe um pedaço de vida que não estava manchado pela mentira.

E o passado (era como virar um caleidoscópio) aparecia-lhe novamente sob um prisma diferente: Jaromil jamais lhe tomara nada de precioso, ele apenas arrancara a máscara dourada de algo que não passava de engano e mentira.

(…) tudo o que sabia da velhice é que se trata de um período da vida em que a idade adulta já pertence ao passado; em que o destino já está concluído; em que o homem não precisa mais temer esse terrível desconhecido chamado futuro; em que o amor, quando o encontramos, é último e certo.

Será que o amor absoluto não significa primeiro que somos capazes de compreender o outro e amá-lo com tudo o que há nele e sobre ele, inclusive as suas sombras?

Se apenas alguém tivesse aceitado penetrar no seu vazio!

Agora compreendia tudo: toda a sua vida não passara de uma longa espera numa cabine abandonada diante de um fone com o qual não podia fazer nenhuma ligação. Agora, havia apenas uma saída à sua frente: sair da cabine abandonada, sair rápido!

(…) a vida é curta e as oportunidades perdidas não se podem recuperar mais.

Sim, ela sabia muito bem que amar é dizer tudo um ao outro; mas Jaromil precisava compreendê-la: ela tinha medo, simplesmente tinha medo…

“A insustentável leveza do ser” ainda é melhor do que “A vida está em outro lugar”. Mas esse é um livro que achei maravilhoso e apenas manteve Milan Kundera como um dos meus escritores favoritos.

 

– Sílvia Souza

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2 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Eu acho que Kundera sentiase no exterior, mesmo em seu próprio país, eu li a Insustentável leveza do ser e fiquei chocado com a crueldade dos pensamentos, preparou um magnífico resumo de seu trabalho e circuntancias que sofreron os escritores que tinham suportado a crueldade de totalitarismos, eu não li o romance, será no outono. Um abraço

    • Com certeza, ele sofreu muito com o regime comunista. Ele descreve muito nesse livro (“A vida está em outro lugar”) e mais ainda em “A insustentável leveza do ser” com a invasão do exército soviético.
      Acho a construção que ele faz dos personagens e a mistura das histórias pessoais com os eventos históricos incríveis! Ele tem uma capacidade única de fazer essa junção.
      Tornei-me grande admiradora do seu trabalho.

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