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Livro “A paixão segundo G.H.” de Clarice Lispector

Livro “A paixão segundo G.H.” de Clarice Lispector
Livro “A paixão segundo G.H.” de Clarice Lispector

Primeira publicação: 1964

Editora: Rocco (27/10/2014) – 180 páginas

ISBN13: 9788532529534

Sinopse: Romance original, desprovido das características próprias do gênero, ‘A paixão segundo G.H.’ conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço, que ela supõe imundo e repleto de inutilidades. Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário. Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco, processando-se, então, uma revelação. G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio. A protagonista vê sua condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Clarice escreve – ‘Provação significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou provando. E provar pode ser transformar numa sede cada vez mais insaciável.’

 

Clarice Lispector era uma escritora e jornalista, aclamada internacionalmente por seus romances inovadores e histórias curtas. Nascida em uma família judaica na Ucrânia, ela veio com a família para o Brasil ainda pequena, após a Primeira Guerra Mundial.

Ela cresceu no Recife, onde sua mãe morreu quando ela tinha nove anos. A família se mudou para o Rio de Janeiro, quando ela era adolescente. Enquanto na faculdade de Direito no Rio, ela começou a publicar suas primeiras histórias curtas, alcançando a fama ainda jovem com a publicação de seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, escrito como um monólogo interior de estilo e linguagem únicos.

Ela deixou o Brasil em 1944, após seu casamento com um diplomata, e passou a próxima década e meia na Europa e nos Estados Unidos. Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1959, ela começou a produzir suas obras mais famosas, incluindo as histórias de Laços de Família, o grande romance místico A Paixão Segundo G. H., e a novela Água Viva, considerada por muitos como sua obra-prima.

Em 1966, feriu-se em um acidente em casa (dormiu com um cigarro aceso, que incendiou seu quarto e causou queimaduras graves na escritora) e passou a última década de sua vida com dores importantes e um quadro depressivo. Morreu aos 57 anos por um câncer de ovário.

 

Eu sou uma grande admiradora da obra de Clarice Lispector. Já escrevi sobre outros livros dela: Livro “Água Viva” de Clarice Lispector e Livro “Um sopro de vida” de Clarice Lispectoralém de estar lendo o livro “Todos os Contos” com publicações para cada um dos contos. Normalmente, identifico-me muito com a obra dela. Mas não posso dizer o mesmo sobre o livro “A paixão segundo G.H.”. Eu, particularmente, não gostei muito e achei o livro um pouco cansativo.

Neste romance, conhecemos G.H., uma mulher que mora em uma cobertura no Rio de Janeiro, que nunca quis ter filhos e que demitiu a empregada no dia anterior. Ela está sozinha em seu apartamento e decide arrumar o quarto que a empregada acabou de esvaziar, imaginando encontrá-lo sujo e desorganizado.

Como te explicar: eis que de repente aquele mundo inteiro que eu era crispava-se de cansaço, eu não suportava mais carregar nos ombros – o quê? – e sucumbia a uma tensão que eu não sabia que sempre fora minha. Já estava havendo então, e eu ainda não sabia, os primeiros sinais em mim do desabamento de cavernas calcárias subterrâneas, que ruíam sob o peso de camadas arqueológicas estratificadas – e o peso do primeiro desabamento abaixava os cantos de minha boca, me deixava de braços caídos. O que me acontecia? Nunca saberei entender mas há de haver quem entenda. E é em mim que tenho de criar esse alguém que entenderá.

Ao contrário, ela encontra o quarto bastante em ordem; mas, ao abrir um armário, vê uma barata em seu interior, um animal pelo qual ela sente uma repugnância profunda. Entretanto, ao mesmo tempo em que ela tem nojo ao ver o inseto, ela não consegue se afastar do armário e do quarto. Analisa o bicho profundamente e acaba criando coragem de esmagá-lo com a porta do armário. Ainda assim, permanece imóvel, vendo a substância branca saindo do interior do inseto.

Pela primeira vez eu me espantava de sentir que havia fundado toda uma esperança em vir a ser aquilo que eu não era.

Enquanto ela está ali, estática, olhando para a barata, ela faz uma reflexão profunda sobre sua própria vida, passado, presente e futuro.

– Dá-me a tua mão. Porque não sei mais do que estou falando. Acho que inventei tudo, nada disso existiu! Mas se inventei o que ontem me aconteceu – quem me garante que também não inventei toda a minha vida anterior a ontem?

Eu achei que fosse gostar deste livro exatamente por seu caráter intimista e altamente reflexivo. Mas não foi o que aconteceu. Achei o livro cansativo e repetitivo, sem avançar muito nas análises. Confesso que cheguei ao final desejando acelerar a leitura para concluir o livro mais rápido.

Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

(…)

– Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro que te tirarei ainda vivo daqui – nem que eu minta, nem que eu minta o que meus olhos viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque eu a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me, faze-me apenas companhia. Sei que tua mão me largaria se soubesse.

Volto a dizer que acho Clarice Lispector uma escritora excepcional. Mas este livro não me agradou.

E não me esquecer, ao começar o trabalho, de me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava ou sentia – é que se fazia enfim uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem, já teria entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo do delírio e erro. Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a “verdade” fosse aquilo que posso entender – terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho.

 

– Sílvia Souza

 

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