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Livro “A Orgia Perpétua: Flaubert e Madame Bovary” de Mario Vargas Llosa

Livro “A Orgia Perpétua: Flaubert e Madame Bovary” de Mario Vargas Llosa
Livro “A Orgia Perpétua: Flaubert e Madame Bovary” de Mario Vargas Llosa

Título original: La orgía perpetua: Flaubert y Madame Bovary

Primeira Publicação: 1975

Editora: Alfaguara Brasil (01-09-2015) – 1a. Edição – 280 páginas

Tradutor: José Rubens Siqueira

ISBN13: 9788579624315

Sinopse: Neste ensaio memorável, Vargas Llosa mescla memória e erudição para falar de um autor essencial para a arte do romance: Gustave Flaubert. Vargas Llosa não fala apenas “por que Madame Bovary remexeu camadas tão profundas do meu ser, por que me deu o que outras histórias não conseguiram me dar”, fala também das circunstâncias em que Flaubert o escreveu, de suas dificuldades para encontrar “a palavra justa” em cada frase, e de suas frequentes discussões e ideias sobre a literatura. A orgia perpétua é uma porta de entrada ao mundo flaubertiano, mas é também uma experiência emocionante sobre a força transformadora da ficção.

 

Desde que li Cartas a um Jovem Escritor de Mario Vargas Llosa, sabia de sua admiração por Gustave Flaubert e de seu amor por Madame Bovary. Eu fazia um curso de escrita e ao estudar um pouco melhor o processo de construção dos personagens e do cuidado com a construção das frases e do uso das palavras, percebi que Gustave Flaubert não era apenas admirado por Vargas Llosa, mas pela maior parte dos escritores.

Além do livro Madame Bovary ser considerado como aquele que iniciou o movimento do Realismo, ele também é considerado como aquele que originou o romance atual. Mas mais do que a história contada, a grande preocupação de Flaubert era com a perfeição da escrita, da colocação das palavras, evitando excessos, preocupando-se com a ocorrência de cacofonia. Ele lia seus textos em voz alta durante o processo de criação até alcançar o que considerava a perfeição.

Sua convicção é a seguinte: uma frase está realizada quando é musicalmente perfeita.

Por isso, quando uma frase lhe parece mais ou menos pronta, ele a lê em voz alta, a interpreta, subindo muito o tom, passeando pela sala e gesticulando como um ator. Se não soa bem, se não é melodiosa e envolvente, se suas virtualidades sonoras não constituem em si mesmas um valor, não está correta, as palavras não são as palavras certas, a “ideia” não foi expressa cabalmente.

Eu li Madame Bovary há alguns anos. Mas pretendo fazer uma nova leitura após a análise que Vargas Llosa faz no livro A Orgia Perpétua: Flaubert e Madame Bovary.

O livro é um ensaio maravilhoso sobre a obra de Flaubert, que foi lida por Vargas Llosa várias vezes na versão original em francês. Ele descreve o processo de criação do livro, fala sobre o autor e analisa a obra em si, as inspirações para cada um dos personagens ou dos cenários.

Nessa análise, ele cita trechos de várias correspondências de Flaubert, escritas para amigos ou para sua amante, falando do livro e de como lidava com cada situação específica da escrita.

Le seul moyen de supporter l’existence, c’est de s’étourdir dans la littérature comme dans une orgie perpétuelle.

[O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua.]

Carta a Mlle. Leroyer de Chantepie (04-09-1858)

O livro está dividido em 3 partes:

  • Um – Uma paixão não correspondida: fala principalmente de Emma Bovary, a personagem principal do romance.

Há, de um lado, a impressão que Emma Bovary deixa no leitor que se aproxima dela pela primeira (segunda, décima) vez: a simpatia, a indiferença, o tédio.

Quando acordei, para retomar a leitura, é impossível que não tenha tido duas certezas como dois relâmpagos: que já sabia o escritor que eu gostaria de ser e que desde então e até a morte viveria apaixonado por Emma Bovary. Ela seria para mim, no futuro, assim como para Léon Dupuis dos primeiros tempos, “l’amoureuse de tous les romans, l’héroïne de tous les drames, le vague elle de tous les volumes de vers” [a apaixonada de todos os romances, a heroína de todos os dramas, a vaga ela de todos os volumes de versos].

Essa é a paixão de Mario Vargas Llosa por Emma Bovary. E confesso que também me apaixonei por ela e, mais do que a paixão, senti uma enorme identificação por sua condição. Mesmo que eu seja uma mulher de uma sociedade que está mais de 150 anos à frente de Emma Bovary, muitos de seus dramas ainda são vividos nos dias atuais.

 

  • Dois – O Homem-Pena: conta a história de Flaubert e do processo de criação do romance.

Je veux qu’il n’y ait pas dans mon livre un seul mouvement, ni une seule réflexion de l’auteur. 

[Quero que não haja em meu livro um único movimento, uma única reflexão do autor].

Carta de 08-02-1852

les livres ne se font pas comme les enfants, mais comme les pyramides, avec un dessin prémédité, et en apportant des grandes blocs l’un par-dessus l’autre, à force de reins, de temps et de sueur 

[livros a gente não faz como faz filhos, mas como as pirâmides, com um projeto premeditado, e colocando grandes blocos uns sobre os outros, à força de braços, tempo e suor].

Carta a Ernest Feydeau

(…) o romancista não cria a partir do nada, mas em função de sua experiência, que o ponto de partida da realidade fictícia é sempre a realidade real, tal como a vive o escritor. Certos temas se impõem a ele, assim como o amor e o sofrimento, os desejos e os pesadelos.

Ao longo da segunda parte, ele cita inúmeras fontes de inspiração para o romance de Flaubert. Uma obra anterior que apresenta muitos pontos em comum é Dom Quixote.

Ce qu’il y a de prodigieux dans Don Quichotte s’est l’absence d’art et cette perpétuelle fusion de l’illusion et de la réalité qui en fait un livre si comique et si poétique.

[O que existe de prodigioso em Dom Quixote é a ausência de arte e aquela fusão permanente de ilusão e realidade que faz dele um livro tão cômico e tão poético.]

Carta a Louise Colet (22-11-1852)

  • Três – O primeiro romance moderno: conta sobre a influência da obra de Flaubert nas obras de outros escritores posteriores.

Ce ne sont pas les grands malheurs qui font le malheur, ni les grands bonheurs que font le bonheur, mais c’est le tissu fin et imperceptible de mille circonstances banales, de mille détails ternes qui composent toute une vie de calme radieux ou d’agitation infernale.

[Não são os grandes infortúnios que fazem o infortúnio, nem as grandes felicidades que fazem a felicidade, mas é o tecido fino e imperceptível de mil circunstâncias banais, de mil detalhes ternos que compõem toda uma vida de calma radiosa ou de agitação infernal.]

Carta a Louise Colet (20-03-1847)

A défaut du réel, on tâche de se consoler par la fiction.

[Na falta do real, a gente trata de se consolar com a ficção.]

Carta de Junho de 1868

Quand nous trouvons le monde trop mauvais, il faut se réfugier dans un autre.

[Quando achamos o mundo ruim demais, é preciso se refugiar em outro.]

Carta de 03-05-1871

Quando viu Madame Bovary impresso pela primeira vez, em La Revue de Paris, Flaubert, desalentado, escreveu a Louis Bouilhet: “Ce livre indique beaucoup plus de patience que de génie, bien plus de travail que de talent” [Este livro apresenta muito mais paciência que gênio, muito mais trabalho que talento] (carta de 5 de outubro de 1856).

Qualquer pessoa que tenha interesse em escrever, como eu, e que já tenha se perguntado como é o processo de criação de uma obra prima da literatura, consegue encontrar nesse ensaio maravilhoso de Mario Vargas Llosa estas respostas. E não estou falando do processo de criação de uma obra qualquer, mas de um dos mais importantes romances já escrito.

 

– Sílvia Souza

 

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2 Comments
  • Carlos Moya disse:

    Hola Sílvia. Esta entrada eu acho extremamente interessante, como você sabe que eu tenho o hábito de escrever histórias e eu improviso, sem estrutura ou script. Leere de bom grado esse livro. É um ótimo resumo. Um beijo.

    • Ola, Carlos!
      Fico feliz que disfrutara desta publicación.
      Eu son unha ampla admiradora de Mario Vargas Llosa. E, sobre a súa paixón por Madame Bovary, comparto completamente. É un dos meus libros preferidos e marcou a miña vida de forma única.
      Pretendo relê-lo despois da lectura deste ensaio de Vargas Llosa.
      Sempre me preguntei sobre o proceso de escritura, sobre as inspiracións do escritor, sobre feitos ou persoas da súa propia vida que puidesen axudar a construír a novela. E conta todo isto.
      Espero que guste do libro!
      Un bico!

      [Olá, Carlos!
      Fico feliz que tenha gostado dessa publicação.
      Eu sou uma grande admiradora de Mario Vargas Llosa. E, sobre sua paixão por Madame Bovary, eu compartilho totalmente. É um dos meus livros preferidos e marcou minha vida de forma única.
      Pretendo relê-lo após a leitura desse ensaio de Vargas Llosa.
      Sempre me perguntei sobre o processo de escrita, sobre as inspirações do escritor, sobre fatos ou pessoas de sua própria vida que pudessem ajudar a construir o romance. E ele conta tudo isso.
      Espero que goste do livro!
      Um beijo!]

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