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Livro “A Noite” de Elie Wiesel

Livro “A Noite” de Elie Wiesel
Livro “A Noite” de Elie Wiesel

Título original: Un di Velt Hot Geshvign

Primeira publicação: 1958

Tradutor: Irene Ernest Dias

Editora: Ediouro (2006) – 120 páginas

ISBN13: 9788500020261

Sinopse: Neste livro de memórias, hoje um clássico, Elie Wiesel narra os horrores dos campos de concentração alemães na Segunda Guerra Mundial. Ainda criança, Wiesel sofreu as iniquidades impostas aos judeus. Viu de perto o mal personificado, testemunhou a morte de diversas pessoas, entre elas seus pais e sua irmã mais nova. Em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel da Paz em 1986, Wiesel descreveu aquele ambiente como um lugar onde “homens e mulheres de todos os cantos da Europa foram abruptamente transformados em criaturas sem nome e sem rosto, desesperadas pela mesma ração de pão ou sopa, temendo o mesmo fim”. Depois da guerra, profundamente marcado pelo que viveu, Wiesel encontrou apenas uma arma para evitar que algo semelhante ocorresse novamente: a memória. “Para nós, esquecer nunca foi uma opção”, disse. Começou, então, sua nova jornada, em busca de uma maneira de narrar o que viveu. “Não foi fácil. Primeiro, por causa da linguagem. Nossa linguagem falhava. Teríamos de inventar um novo vocabulário, porque nossas próprias palavras eram inadequadas, anêmicas.”

Em “A noite”, escrito originalmente em francês, Wiesel encontrou essa linguagem: simples e direta, mas com enorme poder de emocionar. A narrativa impressiona, em primeiro lugar, pelo caráter desumano da tentativa de Hitler de construir uma raça pura e pela sinistra metodologia que a apoiou. Mas também impressiona, como escreveu no prefácio François Mauriac, Prêmio Nobel de Literatura em 1954, pela “morte de Deus nessa alma de criança que descobre subitamente o mal absoluto”. Este livro resulta de uma chaga que jamais será fechada. Após a agonia como prisioneiro, ao se deparar com sua própria imagem ao espelho, Wiesel constata: “Seu olhar nos meus olhos não me deixa jamais.” Olhos marcados pela descoberta de que seres humanos, crédulos em Deus, podem se transformar em monstros.

 

Elie Wiesel nasceu em 1928, num lugarejo chamado Sighet, na Romênia. Em 1944, foi deportado com sua família para os campos de concentração, até ser libertado em 1945. Na Sorbonne, Paris, estudou literatura, filosofia e psicologia. Como jornalista, conheceu François Mauriac, que acabou por incentivá-lo na carreira de escritor. Foi presidente do Conselho Memorial Unido do Holocausto entre 1980 e 1986, ano em que recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Ele morreu em 02 de julho de 2016, aos 87 anos, em Nova York, onde ele morava.

Wiesel escreveu 57 livros, sendo alguns deles baseados em suas memórias. “A noite” é um livro curto, mas muito intenso, em que ele descreve sua vida em Sighet antes da guerra, a chegada dos alemães com o isolamento dos judeus no gueto, a deportação para os campos de concentração na Polônia (Auschwitz-Birkenau e, depois, Buna) e, por fim, a caminhada em direção à Alemanha, com a aproximação dos Aliados.

As descrições são breves, como se ele estivesse contando sua história para alguém oralmente, com uma linguagem coloquial. Mas as memórias contadas não são de momentos felizes. Sua mãe e sua irmã caçula morreram no campo de concentração e ele não as vê mais após a separação. O pai permanece com ele até quase o fim; mas acaba morrendo de fraqueza após a marcha para a Alemanha, no campo de concentração de Buchenwald.

Confesso que no início do livro, quando ele descreve a deportação para o primeiro campo de concentração, embora ele cite a falta de comida e de água e as condições precárias em que viajavam, achei que ele estava sendo muito brando ao descrever os fatos. A tensão maior vem mais adiante, acompanhando sua fadiga e seu desgaste, até o ponto em que ele perde o desejo de continuar lutando por sua vida. Nessa etapa final, ele parece viver uma noite sem fim, doente, sonhando com comida, alimentando-se de neve, questionando se vale a pena se entregar à morte, tentando encontrar as forças para continuar a caminhada.

Não sei quanto tempo dormi. Alguns instantes ou uma hora. Quando acordei, uma mão congelada me dava palmadas no rosto. Esforcei-me para abrir as pálpebras: era meu pai.

Como ele tinha envelhecido desde ontem à noite! Seu corpo estava completamente torto, encolhido. Seus olhos petrificados, seus lábios murchos, podres. Tudo nele atestava uma extrema lassidão. Sua voz estava úmida de lágrimas e de neve:

━ Não se deixe levar pelo sono, Eliezer. É perigoso dormir na neve. A gente dorme para sempre. Venha, meu menino, venha. Levante-se.

Ele foi preso com 14 anos. E viu coisas que nunca foi capaz de esquecer.

Não longe de nós, de uma fossa subiam chamas, chamas gigantescas. Alguma coisa estava sendo queimada ali. Um caminhão se aproximou do buraco e despejou sua carga: eram criancinhas. Bebês! Sim, eu vi, vi com meus olhos… Crianças nas chamas. (É de se admirar então que desde aquela época o sono fuja de meus olhos?)

Embora ele descreva os maus tratos dos alemães, não foram estas as partes que mais me chocaram no livro. Acho que pelo fato de eu já ter lido exaustivamente sobre todas as atrocidades que eram cometidas nos campos. O que mais me chocou foi a descrição da mudança dos prisioneiros: de seres humanos com princípios éticos foram se transformando, pouco a pouco, em selvagens, lutando ferozmente por qualquer migalha de pão, capazes de matar o próprio pai, interessados apenas em buscar a própria sobrevivência, mas de uma forma instintiva, animal.

Mas o outro se jogou em cima dele e arrancou-lhe o bocado. O velho ainda murmurou alguma coisa, deu um suspiro e morreu, em meio à indiferença geral. O filho o revistou, pegou o pedaço e começou a devorá-lo. Não conseguiu ir muito longe. Dois homens o tinham visto e se atiraram em cima dele. Outros se juntaram a eles. Quando se retiraram, havia perto de mim dois mortos lado a lado, pai e filho. Eu tinha quinze anos.

É algo impossível de imaginar; uma cena capaz de aterrorizar mais do que qualquer filme assustador jamais feito. É a ruptura com qualquer traço de civilidade. Realmente, as pessoas foram transformadas em monstros.

Estrada sem fim. Deixar-se levar pela multidão, deixar-se arrastar pelo destino cego. Quando os S.S. se cansavam, eram substituídos. A nós, ninguém substituía. Com os membros transidos de frio, apesar da corrida, a garganta seca, esfomeados, ofegantes, nós continuávamos.

Nós éramos os mestres da natureza, os mestres do mundo. Tínhamos esquecido tudo, a morte, o cansaço, as necessidades naturais. Mais fortes que o frio e a fome, mais fortes que os tiros e o desejo de morrer, condenados e vagabundos, simples números, éramos os únicos homens na face da terra.

Eu entendo tanto aqueles que se calaram após a Segunda Guerra e se recusavam à reavivar as lembranças terríveis quanto os que tiveram necessidade de deixar registrados todos os horrores, numa tentativa desesperada de evitar novos eventos como estes que o mundo testemunhou.

À minha volta, tudo parecia dançar uma dança da morte. Era de dar vertigem. Estava andando em um cemitério. Entre os corpos endurecidos, troncos de madeira. Nem um grito de desespero, nem um lamento, apenas uma agonia em massa, silenciosa. Ninguém pedia ajuda a ninguém. Morria-se porque era preciso morrer. Não se colocavam dificuldades.

 

– Sílvia Souza

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