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Livro “A língua absolvida” de Elias Canetti

Livro “A língua absolvida” de Elias Canetti
Livro “A língua absolvida” de Elias Canetti

Título original: Die gerettete Zunge: Geschichte einer Jugend

Primeira publicação: 1977

Editora: Companhia de Bolso (2010) – 344 páginas

Tradutor: Kurt Jahn

ISBN13: 9788535917666

Sinopse: Em “A língua absolvida”, primeiro volume da trilogia autobiográfica de Elias Canetti (prêmio Nobel de literatura de 1981), completada por “Uma luz em meu ouvido” e “O jogo dos olhos”, o autor narra sua infância e adolescência em seu país de origem, a Bulgária, e em outras nações da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja por vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que registra, num tom quase romanesco, os acontecimentos e pessoas mais marcantes dessa fase crucial de sua vida — ficamos conhecendo os livros que ele ganhava do pai, o avô que falava 17 línguas, o duro aprendizado do alemão com a mãe — Canetti vai fazendo emergir ao primeiro plano o fascínio que a linguagem e a literatura inevitavelmente exerciam sobre o menino a quem os anos transformariam no escritor brilhante.

 

Elias Canetti nasceu em 1905 em Ruschuk, na Búlgaria, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o Prêmio Büchner, em 1975 o Prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o Prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o Prêmio Nobel de Literatura. Ele morreu em Zurique em 1994.

Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida, Uma luz em meu ouvido e O jogo dos olhos, já foram publicados no Brasil, de sua autoria, os romances Auto de fé, As vozes de Marrakech e o ensaio Massa e poder.

 

Eu tenho um prazer particular em ler obras significativas da Literatura mundial. Mas tenho alguma dificuldade em selecionar bons livros que provavelmente me agradarão. Escrevi há quase um ano uma publicação a respeito (Como escolher o próximo livro?), em uma tentativa de selecionar um livro de cada um dos escritores ganhadores do Nobel de Literatura. E percebi que não eram todos que me agradavam.

Passei a assistir a todos os episódios do programa Literatura Fundamental que passava na TV Cultura e que estão disponíveis no YouTube. Infelizmente, o programa não vai mais ao ar. Mas existem cerca de 100 episódios disponíveis no YouTube. A partir do programa, passei a acrescentar alguns livros e escritores na minha lista de leitura. E foi exatamente assim que soube sobre este livro de Elias Canetti e que me propus a lê-lo. E estou muito feliz por ter conhecido este escritor. Já iniciei o segundo volume desta Trilogia autobiográfica.

Neste primeiro volume, ele nos conta seus primeiros dezesseis anos de vida. A ênfase do livro está no despertar da linguagem e no amor que ele desenvolveu pelos livros. Sua mãe sempre fora uma mulher muito austera e exigente e a relação mãe-filho também tem grande destaque na narrativa.

Ele nasceu na Bulgária e era de uma família de judeus sefardins provenientes da Espanha. Então, já no início de sua vida, ele falava o espanhol em família, o búlgaro na escola, compreendia o romeno (já que muitas das empregadas da casa eram romenas) e escutava os pais conversando entre si em alemão. E ele narra de forma interessante como ele traduzia de forma natural uma história narrada em romeno, sendo capaz de recontá-la em alemão, mesmo que nunca tenha de fato falado romeno.

Após um desentendimento de seu pai com o avô, o autor e sua família se mudaram para a Inglaterra, onde ele começou a ser alfabetizado (em inglês). E tinha aulas particulares de francês. Estavam na Inglaterra fazia pouco tempo quando seu pai morreu de forma súbita ainda muito jovem. A mãe assumiu sozinha a criação dos três filhos (o autor era o mais velho dos três meninos). Ela resolve se mudar para Viena e Elias Canetti passa a aprender o alemão verdadeiramente. A mãe assume o papel inicialmente e a descrição da forma como ela o ensina é algo muito duro de ser lido; imagino como foi para ele a experiência, porque ela o humilhava a cada erro cometido.

Na época da Primeira Guerra, eles se mudam para a Suíça. A mãe era contra qualquer tipo e guerra.

(…) Nunca se referia à guerra, senão como “os assassinatos”. (…) “Você jamais matará um homem que nada lhe tenha feito”, disse-me ela suplicante, e, com todo o seu orgulho por ter três filhos, eu sentia sua preocupação de que nós algum dia também pudéssemos nos converter nos tais “assassinos”. Seu ódio contra a guerra tinha algo de elementar: certa vez, quando me narrou o conteúdo de Fausto, que ela ainda não queria que eu lesse, ela desaprovou o pacto de Fausto com o diabo. Só haveria uma única justificativa para tal pacto: pôr fim à guerra. Para isso a gente poderia coligar-se com o diabo, para nada mais.

Na Suíça, o autor relata o período mais feliz de sua vida, apesar da guerra, que estava distante de sua rotina diária. Era sentida pela maior escassez de alimentos, tanto em quantidade quanto em variedade.

Pois se eu então tinha qualquer preocupação com o futuro, este se referia exclusivamente ao suprimento de livros no mundo. O que aconteceria quando eu os tivesse lido todos? É certo que eu gostava de ler e reler aquilo de que gostava, mas esse prazer pressupunha a certeza de que mais e mais livros se seguiriam.

Elias Canetti vivia uma relação muito possessiva com a mãe. Ele se assumiu como o homem da casa e recusava que a mãe se casasse novamente. Ele era seu confidente, seu amigo, aquele com quem ela discutia as mais variadas questões. E ela tentou mantê-lo distante dos pensamentos sensuais e sexuais que poderiam surgir com o avançar de sua idade. Mas a mãe sofria com isso. De tempos em tempos, ela sofria com crises de ansiedade e outros problemas de saúde não muito especificados e precisava ficar em sanatórios.

Eu não suspeitava o quanto lhe era difícil nem que algo lhe pudesse faltar. Mas repetiu-se o que antes já acontecera em Viena; após concentrar seus esforços em nós nesses dois anos, suas forças começaram a abandoná-la. Algo dentro dela desmoronou, sem que eu o notasse.

O autor era sempre um excelente aluno. Mas houve uma época em Zurique em que os professores passaram a limitar suas manifestações em sala de aula. A impressão que a narrativa nos passa é que havia um sentimento anti-semita, muito mais do que quererem calá-lo por ser um bom aluno. De qualquer forma, achei excelente o trecho abaixo, quando ele fala do aprendizado.

Porque acredito que faz parte do saber o querer mostrar-se, e o não se contentar com uma mera existência oculta. Parece-me perigoso o conhecimento mudo, pois ele se torna cada vez mais mudo e acaba sendo secreto, e então tem que se vingar do fato de ser secreto. O saber que aparece, que se transmite aos outros, é o saber no bom sentido, que certamente procura o reconhecimento, mas não se volta contra ninguém. O contágio que provém dos professores e dos livros procura se expandir. Nessa fase inocente ele não duvida de si mesmo, toma pé e se expande ao mesmo tempo, brilha e consigo quer dilatar tudo o mais. Atribui-se-lhe as propriedades da luz, a velocidade com que quer se expandir é a mais alta, e faz-se-lhe honra designando-o como iluminação. (…)

Pois bem, a parte essencial da vida de um ser que começa a tomar conhecimento passa-se na escola, a primeira experiência pública de um jovem. Este poderá procurar distinguir-se, porém, muito mais do que isso, procurará irradiar o saber tão logo o conquiste, para que não seja uma mera posse. Os colegas mais lentos pensarão que tal jovem quer insinuar-se junto aos professores e o considerarão ambicioso. Mas ele não tem em vista um alvo a alcançar, pois quer ultrapassar tais alvos e envolver seus professores em sua ânsia de liberdade. Ele não se mede pelos colegas, mas pelos professores. Sonha em expulsar deles todo o utilitarismo, quer sobrepujá-los. Só ama, com um amor efusivo, aqueles professores que não se renderam a fins práticos, que querem irradiar seu saber pelo próprio saber – a estes presta homenagem com suas reações rápidas, a estes é constantemente grato pela inesgotável transmissão de seu saber.

Mas, com essa homenagem, ele se isola dos demais colegas, sob cujos olhos a homenagem é prestada. Não os percebe enquanto se destaca. Não sente qualquer malquerença pelos outros, mas os deixa fora do jogo, onde eles não desempenham qualquer papel e só existem como espectadores.

Ao final do primeiro livro, quando a mãe dele sai de uma de suas internações, ela fica muito insatisfeita com o rumo que os estudos dele e sua vida estão tomando. E resolve se mudar com os três filhos para Frankfurt, na Alemanha, em 1921. E é a partir daí que o segundo livro se inicia.

A narrativa é absolutamente envolvente e maravilhosa. Toda a vida, as experiências e desenvolvimento pessoal do autor são incríveis e serve como reflexão para nossas próprias vidas.

É um livro excepcional.

 

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